Texto corrido, contendo todas as palavras (salvo alguma falha minha) usadas por Mateus, Marcos, Lucas e João, com Sua prisão, os 3 interrogatórios pelos judeus e 3 julgamentos por gentios, Sua morte e sepultamento.
Chegada no Getsêmani
Noite de quinta para sexta, provavelmente 9 ou 10 horas
E, saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; para além do ribeiro de Cedrom, onde havia um horto, e também os Seus discípulos O seguiram. Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a Seus discípulos: “Orai, para que não entreis em tentação Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar.”
E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se, a ter pavor e a angustiar-Se muito. Então lhes disse: “A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo”.
E, indo um pouco mais para diante, cerca de um tiro de pedra; e, pondo-Se de joelhos, prostrou-Se em terra sobre o Seu rosto, orando para que, se fosse possível, passasse dEle aquela hora.
E disse: “Aba Pai, se é possível, passe de Mim este cálice; todavia, não seja como Eu quero, mas como Tu queres; não se faça a Minha vontade, mas a Tua”.
E, voltando para os Seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: “Simão, dormes? Então nem uma hora pudeste velar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
E, indo segunda vez, orou, dizendo: “Pai Meu, se este cálice não pode passar de Mim sem Eu o beber, faça-se a Tua vontade”.
E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam pesados, e não sabiam o que responder-Lhe
E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
E apareceu-Lhe um anjo do Céu, que O fortalecia. E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o Seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.
E, levantando-Se da oração, veio para os Seus discípulos, e achou-os dormindo de tristeza. E disse-lhes: “Por que estais dormindo? Levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação. Dormi agora, e descansai. Basta; é chegada a hora. Eis que o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos; eis que está perto o que Me trai.”
Prisão do Senhor
Provavelmente pouco antes da meia-noite
E Judas, que O traía, também conhecia aquele lugar, porque Jesus muitas vezes Se ajuntava ali com os Seus discípulos.
Tendo, pois, Judas recebido a coorte e oficiais dos principais sacerdotes e fariseus, veio para ali com lanternas, e archotes e armas.
E, estando Ele ainda a falar, eis que chegou Judas, um dos doze, e com ele grande multidão com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e pelos anciãos do povo.
Ora, o que O traía, tinha-lhes dado um sinal, dizendo: “Aquele que eu beijar, esse é; prendei-O, e levai-O com segurança.”
E logo que chegou, aproximando-se de Jesus, disse: “Rabi, Rabi, eu Te saúdo”; e beijou-O. Jesus, porém, lhe disse: “Amigo, a que vieste? Judas, com um beijo trais o Filho do homem?”
Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre Ele haviam de vir, adiantou-Se, e disse-lhes: “A quem buscais?” Responderam-Lhe: “A Jesus Nazareno.” Disse-lhes Jesus: “Sou Eu.” E Judas, que O traía, estava com eles. Quando, pois, lhes disse: “Sou Eu”, recuaram, e caíram por terra. Tornou-lhes, pois, a perguntar: “A quem buscais?” E eles disseram: “A Jesus Nazareno.” Jesus respondeu: “Já vos disse que sou Eu; se, pois, Me buscais a Mim, deixai ir estes”; para que se cumprisse a palavra que tinha dito: “Dos que Me deste nenhum deles perdi.”
Então, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e O prenderam.
E, vendo os que estavam com Ele o que ia suceder, disseram-Lhe: “Senhor, feriremos à espada?”
E eis que Simão Pedro, que tinha espada, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe a orelha direita. E o nome do servo era Malco.
E, respondendo Jesus, disse: “Deixai-os; basta.” E, tocando-lhe a orelha, o curou.
Então Jesus disse-lhe: “Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que Eu não poderia agora orar a Meu Pai, e que Ele não Me daria mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça? Não beberei Eu o cálice que o Pai Me deu?”
Então disse Jesus à multidão aos principais dos sacerdotes, e capitães do Templo, e anciãos, que tinham ido contra Ele: “Saístes, como para um salteador, com espadas e varapaus para Me prender? Todos os dias Me assentava junto de vós, ensinando no Templo, e não Me prendestes. Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas Mas tudo isto aconteceu para que se cumpram as escrituras dos profetas”.
Então, todos os discípulos, deixando-O, fugiram. E a coorte, e o tribuno, e os servos dos judeus prenderam a Jesus e O maniataram.
E um certo jovem O seguia, envolto em um lençol sobre o corpo nu. E lançaram-lhe a mão. Mas ele, largando o lençol, fugiu nu.
Primeiro interrogatório: casa de Anás
Provavelmente pouco antes da 1h da madrugada de sexta-feira
E os que prenderam a Jesus O conduziram à casa do sumo sacerdote Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano. Ora, Caifás era quem tinha aconselhado aos judeus que convinha que um homem morresse pelo povo.
E o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos Seus discípulos e da Sua doutrina. Jesus lhe respondeu: “Eu falei abertamente ao mundo; Eu sempre ensinei na sinagoga e no Templo, onde os judeus sempre se ajuntam, e nada disse em oculto. Para que Me perguntas a Mim? Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei; eis que eles sabem o que Eu lhes tenho dito.” E, tendo dito isto, um dos servidores que ali estavam, deu uma bofetada em Jesus, dizendo: “Assim respondes ao sumo sacerdote?” Respondeu-lhe Jesus: “Se falei mal, dá testemunho do mal; e, se bem, por que Me feres?” E Anás mandou-O, maniatado, ao sumo sacerdote Caifás.
Segundo interrogatório: casa de Caifás
Provavelmente por volta das 2h — Pedro nega o Senhor
E ajuntaram-se todos os principais dos sacerdotes, e os anciãos e os escribas.
E Simão Pedro e outro discípulo seguiram a Jesus de longe. E este discípulo era conhecido do sumo sacerdote, e entrou com Jesus na sala do sumo sacerdote. E Pedro estava da parte de fora, à porta. Saiu então o outro discípulo que era conhecido do sumo sacerdote, e falou à porteira, levando Pedro para dentro.
E tinham feito brasas, e se aquentavam, porque fazia frio. E, havendo-se acendido fogo no meio do pátio, estando todos sentados, assentou-se Pedro entre eles, aquentando-se ao lume, para ver o fim.
E os principais dos sacerdotes e os anciãos e todo o concílio buscavam algum testemunho contra Jesus, para O matar, e não o achavam. Apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não o achavam. Porque muitos testificavam falsamente contra Ele, mas os testemunhos não eram coerentes.
Mas, por fim chegaram duas testemunhas falsas, e disseram: “Nós ouvimos-Lhe dizer: Eu derrubarei este Templo de Deus, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens. “ E nem assim o seu testemunho era coerente.
E, levantando-se o sumo sacerdote no Sinédrio, perguntou a Jesus, dizendo: “Nada respondes? Que testificam estes contra Ti?” Mas Ele calou-Se, e nada respondeu. E, insistindo o sumo sacerdote, disse-Lhe: “Conjuro-Te pelo Deus vivo que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho do Deus Bendito”. Disse-lhe Jesus: “Tu o disseste; Eu o sou. Digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do Céu”.
E o sumo sacerdote, rasgando as suas vestes, disse: “Blasfemou; para que necessitamos de mais testemunhas? Vós ouvistes a blasfêmia; que vos parece?” E todos O consideraram culpado de morte, e respondendo, disseram: “É réu de morte”.
E os homens que detinham Jesus zombavam dEle, ferindo-O E alguns começaram a cuspir nEle, e a cobrir-Lhe o rosto, e a dar-Lhe punhadas. E os servidores davam-Lhe bofetadas, dizendo: “Profetiza-nos, Cristo, quem é o que Te bateu?” E outras muitas coisas diziam contra Ele, blasfemando.
E, estando Pedro embaixo, no átrio, chegou uma das criadas do sumo sacerdote; e, vendo a Pedro, que se estava aquentando, olhou para ele, e disse: “Não és tu também dos discípulos deste homem? Tu também estavas com Jesus Nazareno, o galileu.” Mas ele negou-o diante de todos, dizendo: “Não O conheço, nem sei o que dizes.” E saiu fora ao alpendre, e o galo cantou.
E, saindo para o vestíbulo, outra criada o viu, e disse aos que ali estavam: “Este também estava com Jesus, o Nazareno”. E a [primeira] criada, vendo-o outra vez, começou a dizer aos que ali estavam: “Este é um dos tais.” E vendo-o outro, disse: “Tu és também deles.” Mas Pedro disse: “Homem, não sou. Não conheço tal Homem” E o negou outra vez.
E, passada quase uma hora, um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse a Pedro: “Não te vi eu no horto com Ele?” E os que ali estavam disseram: “Verdadeiramente tu és um deles, pois a tua fala te denuncia; porque és também galileu, e tua fala é semelhante.” E Pedro começou a praguejar, e a jurar: “Não conheço esse homem de quem falais.” E logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo segunda vez. E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: “Antes que o galo cante duas vezes hoje, Me negarás três vezes.” E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.
Terceiro interrogatório, pelo Sinédrio
Ao amanhecer, um pouco antes das 6h (pelas leis judaicas preservadas na Mishna, o Sinédrio só podia passar uma sentença de morte durante o dia) — Possivelmente nos recintos do Templo
E, chegando a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos do povo, e os escribas, formavam juntamente conselho contra Jesus, e O conduziram ao seu concílio, e Lhe perguntaram: “És tu o Cristo? Dize-no-lo.” Ele replicou: “Se vo-lo disser, não o crereis; e também, se vos perguntar, não Me respondereis, nem Me soltareis. Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus.” E disseram todos: “Logo, és tu o Filho de Deus?” E Ele lhes disse: “Vós dizeis que Eu sou.” Então disseram: “De que mais testemunho necessitamos? Pois nós mesmos o ouvimos da Sua boca.”
E, levantando-se toda a multidão deles, e maniatando-O, O levaram e entregaram ao presidente Pôncio Pilatos.
Primeiro julgamento gentio, por Pilatos
Palácio de Pilatos, possivelmente antes das 7h — Judas se arrepende
E não entraram na audiência, para não se contaminarem, mas poderem comer a páscoa.
Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: “Pequei, traindo o sangue inocente”. Eles, porém, disseram: “Que nos importa? Isso é contigo”. E ele, atirando para o Templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar. E os príncipes dos sacerdotes, tomando as moedas de prata, disseram: “Não é lícito colocá-las no cofre das ofertas, porque são preço de sangue”. E, tendo deliberado em conselho, compraram com elas o campo de um oleiro, para sepultura dos estrangeiros. Por isso foi chamado aquele campo, até ao dia de hoje, Campo de Sangue. Então se realizou o que vaticinara o profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi avaliado, que certos filhos de Israel avaliaram, e deram-nas pelo campo do oleiro, segundo o que o Senhor determinou.
E foi Jesus apresentado ao presidente. Então Pilatos saiu fora e disse-lhes: “Que acusação trazeis contra este homem?” Responderam, e disseram-lhe: “Se este não fosse malfeitor, não to entregaríamos.” Disse-lhes, pois, Pilatos: “Levai-O vós, e julgai-O segundo a vossa lei.” Disseram-lhe então os judeus: “A nós não nos é lícito matar pessoa alguma.” (Para que se cumprisse a palavra que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer). E começaram a acusá-lO, dizendo: “Havemos achado este pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo que Ele mesmo é Cristo, o rei.”
Tornou, pois, a entrar Pilatos na audiência, e chamou a Jesus, e disse-Lhe: “Tu és o Rei dos Judeus?” Respondeu-lhe Jesus: “Tu dizes isso de ti mesmo, ou disseram-to outros de Mim?” Pilatos respondeu: “Porventura sou eu judeu? A Tua nação e os principais dos sacerdotes entregaram-Te a Mim. Que fizeste?” Respondeu Jesus: “O Meu reino não é deste mundo; se o Meu reino fosse deste mundo, pelejariam os Meus servos, para que Eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o Meu reino não é daqui.” Disse-Lhe, pois, Pilatos: “Logo Tu és rei?” Jesus respondeu: “Tu dizes que Eu sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a Minha voz.” Disse-Lhe Pilatos: “Que é a verdade?”
E, sendo acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu. Disse-Lhe então Pilatos: “Não ouves quanto testificam contra Ti?” E nem uma palavra lhe respondeu, de sorte que o presidente estava muito maravilhado.
E disse Pilatos aos principais dos sacerdotes, e à multidão: “Não acho culpa alguma neste homem.” Mas eles insistiam cada vez mais, dizendo: “Alvoroça o povo ensinando por toda a Judeia, começando desde a Galileia até aqui.”
Então Pilatos, ouvindo falar da Galileia, perguntou se aquele Homem era galileu. E, sabendo que era da jurisdição de Herodes, remeteu-O a Herodes, que também naqueles dias estava em Jerusalém.
Segundo julgamento gentio, por Herodes
Palácio de Herodes, possivelmente 7h30
E Herodes, quando viu a Jesus, alegrou-se muito; porque havia muito que desejava vê-lO, por ter ouvido dEle muitas coisas; e esperava que Lhe veria fazer algum sinal. E interrogava-O com muitas palavras, mas Ele nada lhe respondia. E estavam os principais dos sacerdotes, e os escribas, acusando-O com grande veemência. E Herodes, com os seus soldados, desprezou-O e, escarnecendo dEle, vestiu-O de uma roupa resplandecente e tornou a enviá-lO a Pilatos. E no mesmo dia, Pilatos e Herodes entre si se fizeram amigos; pois dantes andavam em inimizade um com o outro.
Terceiro julgamento gentio, por Pilatos
Palácio de Pilatos, possivelmente logo depois das 8h
E, convocando Pilatos os principais dos sacerdotes, e os magistrados, e o povo, disse-lhes: “Haveis-me apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-O na vossa presença, nenhuma culpa, das de que O acusais, acho neste homem. Nem mesmo Herodes, porque a ele vos remeti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte. Castigá-lO-ei, pois, e soltá-lO-ei.” E disse-lhes: “Não acho nEle crime algum.” Mas toda a multidão clamou a uma, dizendo: “Fora daqui com este, e solta-nos Barrabás.”
Ora, no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles pedissem, escolhendo o povo aquele que quisesse. E havia um preso bem conhecido chamado Barrabás, que, preso com outros amotinadores, tinha num motim cometido uma morte. E a multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre lhes tinha feito. E Pilatos lhes respondeu, dizendo: “Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo? Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?” Porque ele bem sabia que por inveja os principais dos sacerdotes o tinham entregado.
E, estando ele assentado no tribunal, sua mulher mandou-lhe dizer: “Não entres na questão desse justo, porque num sonho muito sofri por causa dEle”.
Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram à multidão que pedisse Barrabás e matasse Jesus.
E, respondendo o presidente, disse-lhes: “Qual desses dois quereis vós que eu solte?” E eles disseram: “Barrabás”. Disse-lhes Pilatos: “Que farei então de Jesus, chamado Cristo a quem chamais Rei dos Judeus?” Disseram-lhe todos: “Seja crucificado. Crucifica-O, crucifica-O”.
O presidente, porém, disse: “Mas que mal fez Ele?” E eles mais clamavam, dizendo: “Seja crucificado”.
Então ele, pela terceira vez, lhes disse: “Mas que mal fez este? Não acho nEle culpa alguma de morte. Castigá-lO-ei pois, e soltá-lO-ei.” Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principais dos sacerdotes, redobravam.
Então Pilatos, vendo que nada aproveitava, antes o tumulto crescia, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: “Estou inocente do sangue deste justo. Considerai isso”. E, respondendo todo o povo, disse: “O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”.
Então Pilatos, querendo satisfazer a multidão, julgou que devia fazer o que eles pediam. E soltou-lhes o que fora lançado na prisão por uma sedição e homicídio, que era o que pediam; mas mandou açoitar Jesus,
E logo os soldados do presidente, conduzindo Jesus dentro à sala, que é a da audiência, reuniram junto dEle toda a coorte. E, despindo-O, O cobriram com uma capa de escarlate; e, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e em Sua mão direita uma cana; e, ajoelhando diante dEle, o escarneciam, dizendo: “Salve, Rei dos judeus”. E, cuspindo nEle, tiraram-Lhe a cana, e batiam-Lhe com ela na cabeça. E davam-Lhe bofetadas. E, depois de o haverem escarnecido, tiraram-Lhe a capa, vestiram-Lhe as Suas vestes.
Última tentativa de Pilatos
Palácio de Pilatos, possivelmente perto das 9h
Então Pilatos saiu outra vez fora, e disse-lhes: “Eis aqui vo-lO trago fora, para que saibais que não acho nEle crime algum”. Saiu, pois, Jesus fora, levando a coroa de espinhos e roupa de púrpura. E disse-lhes Pilatos: “Eis aqui o Homem.” Vendo-O, pois, os principais dos sacerdotes e os servos, clamaram, dizendo: “Crucifica-O, crucifica-O.” Disse-lhes Pilatos: “Tomai-O vós, e crucificai-O; porque eu nenhum crime acho nEle.” Responderam-lhe os judeus: “Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer, porque Se fez Filho de Deus.”
E Pilatos, quando ouviu esta palavra, mais atemorizado ficou. E entrou outra vez na audiência, e disse a Jesus: “De onde és Tu?” Mas Jesus não lhe deu resposta. Disse-Lhe, pois, Pilatos: “Não me falas a mim? Não sabes Tu que tenho poder para Te crucificar e tenho poder para Te soltar?” Respondeu Jesus: “Nenhum poder terias contra Mim, se de cima não te fosse dado; mas aquele que Me entregou a ti maior pecado tem.” Desde então Pilatos procurava soltá-lO; mas os judeus clamavam, dizendo: “Se soltas este, não és amigo de César; qualquer que se faz rei é contra César.” Ouvindo, pois, Pilatos este dito, levou Jesus para fora, e assentou-se no tribunal, no lugar chamado Litóstrotos, e em hebraico Gabatá. E era a preparação da páscoa, e quase à hora sexta; e disse aos judeus: “Eis aqui o vosso Rei.” Mas eles bradaram: “Tira, tira, crucifica-O.” Disse-lhes Pilatos: “Hei de crucificar o vosso Rei?” Responderam os principais dos sacerdotes: “Não temos rei, senão César.”
Então, consequentemente entregou-lhO, para que fosse crucificado.
A crucificação
9h da manhã na sexta-feira
E O levaram para fora a fim de ser crucificado, levando Ele às costas a Sua cruz. E, quando saíam, encontraram um homem cireneu, chamado Simão, pai de Alexandre e de Rufo, que por ali passava, vindo do campo, a quem constrangeram a levar a Sua cruz após Jesus.
E seguia-O grande multidão de povo e de mulheres, as quais batiam nos peitos, e O lamentavam. Jesus, porém, voltando-se para elas, disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos. Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram! Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos. Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?”
E também conduziram outros dois, que eram malfeitores, para com Ele serem mortos. E, chegando ao lugar chamado em hebraico Gólgota, que se diz: Lugar da Caveira, deram-Lhe a beber vinagre misturado com fel; mas Ele, provando-o, não quis beber.
E era a hora terceira, e ali O crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda, e Jesus no meio, cumprindo-se a escritura que diz: E com os malfeitores foi contado. E dizia Jesus: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.
E Pilatos escreveu também um título, e pô-lo em cima da cruz; e nele estava escrito: “Este é Jesus Nazareno, o Rei dos judeus”. E muitos dos judeus leram este título; porque o lugar onde Jesus estava crucificado era próximo da cidade; e estava escrito em hebraico, grego e latim. Diziam, pois, os principais sacerdotes dos judeus a Pilatos: “Não escrevas, O Rei dos judeus, mas que Ele disse: Sou o Rei dos judeus.” Respondeu Pilatos: “O que escrevi, escrevi.”
Tendo, pois, os soldados crucificado a Jesus, tomaram as Suas vestes, e fizeram quatro partes, para cada soldado uma parte; e também a túnica. A túnica, porém, tecida toda de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois, uns aos outros: “Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será.”
E junto à cruz de Jesus estava Sua mãe, e a irmã de Sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena. Ora Jesus, vendo ali Sua mãe, e que o discípulo a quem Ele amava estava presente, disse à Sua mãe: “Mulher, eis aí o teu filho.” Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe.” E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa.
E os que passavam blasfemavam dEle, meneando as cabeças, e dizendo: “Ah! Tu, que destróis o Templo, e em três dias o reedificas, salva-Te a Ti mesmo. Se és Filho de Deus, desce da cruz”.
E da mesma maneira também os príncipes dos sacerdotes, com os escribas, e anciãos, e fariseus, escarnecendo, diziam uns aos outros: “Salvou os outros, e a Si mesmo não pode salvar-Se. Se é o Cristo, o escolhido de Deus, o Rei de Israel, desça agora da cruz, e crê-lo-emos. Confiou em Deus; livre-O agora, se O ama; porque disse: Sou Filho de Deus “.
E também os soldados O escarneciam, chegando-se a Ele, e apresentando-Lhe vinagre. E dizendo: “Se Tu és o Rei dos Judeus, salva-Te a Ti mesmo.” E o mesmo Lhe lançaram também em rosto os salteadores que com Ele estavam crucificados.
E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dEle, dizendo: “Se Tu és o Cristo, salva-Te a Ti mesmo, e a nós.” Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: “Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez”. E disse a Jesus: “Senhor, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino.” E disse-lhe Jesus: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.”
E desde a hora sexta houve trevas sobre toda a Terra, até à hora nona, escurecendo-se o Sol. E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: “Eli, Eli, lamá sabactáni”; isto é, “Deus meu, Deus meu, por que Me desamparaste?” E alguns dos que ali estavam, ouvindo isto, diziam: “Este chama por Elias”.
Depois, sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: “Tenho sede.” Estava, pois, ali um vaso cheio de vinagre. E logo um deles, correndo, tomou uma esponja, e embebeu-a em vinagre, e, pondo-a numa cana, dava-Lhe de beber. Os outros, porém, diziam: “Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lO”.
A morte do Senhor
3h da tarde
E, quando Jesus tomou o vinagre, disse, clamando com grande voz: “Está consumado.” E disse: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito”.E, inclinando a cabeça, entregou o espírito e expirou. E eis que o véu do Templo se rasgou em dois, ao meio, de alto a baixo; e tremeu a terra, e fenderam-se as pedras; e abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dEle, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos.
E o centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo que assim clamando expirara, e vendo o terremoto, e as coisas que haviam sucedido, tiveram grande temor, e disseram: “Verdadeiramente este Homem era justo; era o Filho de Deus”.
Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados. Foram, pois, os soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que como ele fora crucificado; mas, vindo a Jesus, e vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados Lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. E aquele que o viu testificou, e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que é verdade o que diz, para que também vós o creiais. Porque isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: Nenhum dos Seus ossos será quebrado. E outra vez diz a Escritura: Verão aquele que traspassaram.
E estavam ali, olhando de longe, todos os Seus conhecidos, e muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para o servir, e que tinham subido com Ele a Jerusalém. entre as quais estavam Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé, a mãe dos filhos de Zebedeu.
E toda a multidão que se ajuntara a este espetáculo, vendo o que havia acontecido, voltava batendo nos peitos.
O sepultamento do Senhor
Por volta de 4h da tarde
E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, chegou José de Arimatéia, cidade dos judeus, homem de bem e justo, rico e senador honrado, que não tinha consentido no conselho e nos atos dos outros, que também era discípulo de Jesus (mas oculto, por medo dos judeus) e esperava o Reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido. E, tendo-se certificado pelo centurião, deu o corpo a José; o qual comprara um lençol fino. E foi também Nicodemos (aquele que anteriormente se dirigira de noite a Jesus), levando quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés. E, tirando-O da cruz, O envolveram no fino e limpo lençol, com as especiarias, como os judeus costumam fazer, na preparação para o sepulcro. E havia um horto naquele lugar onde fora crucificado, e no horto um sepulcro novo, que José havia lavrado numa rocha, em que ainda ninguém havia sido posto. Ali, pois (por causa da preparação dos judeus, e por estar perto aquele sepulcro), puseram a Jesus. E rodando uma grande pedra para a porta do sepulcro, retirou-se.
E estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, mãe de José, assentadas defronte do sepulcro. E as mulheres, que tinham vindo com Ele da Galileia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o Seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e unguentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento.
E no dia seguinte, que é o dia depois da Preparação, reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os fariseus em casa de Pilatos, dizendo: “Senhor, lembramo-nos de que aquele enganador, vivendo ainda, disse: Depois de três dias ressuscitarei. Manda, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até ao terceiro dia, não se dê o caso que os Seus discípulos vão de noite, e O furtem, e digam ao povo: Ressuscitou dentre os mortos; e assim o último erro será pior do que o primeiro”. E disse-lhes Pilatos: “Tendes a guarda; ide, guardai-o como entenderdes”. E, indo eles, seguraram o sepulcro com a guarda, selando a pedra.
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