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Wednesday, 3 October 2018

Associações eclesiásticas

Ou, por que não tenho liberdade para cooperar com as denominações.



Desde o século II desta era, quando os salvos começaram a se afastar da simplicidade institucional que caracterizava as igrejas locais da época do Novo Testamento, o povo de Deus tem sido caracterizado, lamentavelmente, por divisão. Sempre houve, em todas as épocas desde então até hoje, igrejas locais que continuavam reunindo unicamente ao nome do Senhor Jesus Cristo, mas sempre houve, também, muitos salvos reunindo em organizações humanas. Hoje, a quantidade destas organizações (que chamarei aqui “denominações”) aumenta constantemente, para vergonha nossa e confusão dos incrédulos.

Saturday, 26 August 2017

Um tributo a Ronaldo Watterson


Em janeiro de 2017 estive na Irlanda do Norte com minha família por algumas semanas, e os irmãos da igreja local que se reúne na Av. Cambridge, em Ballymena, me pediram para falar sobre alguns aspectos da vida de meu pai. Eles separaram uma de suas reuniões de sábado à noite (destinadas principalmente aos jovens) para esse propósito, e foi sugerido o título: “A fé dos quais imitai …” (Hb 13:7).

Friday, 19 December 2014

Crianças e reuniões combinam?

Como fiz exatamente um mês atrás, quero abordar um assunto prático relacionado às reuniões das igrejas. Mas desta vez procurarei escrever sem o leve tom de brincadeira que usei da última vez, por pelo menos dois motivos:



  1. Primeiro, porque a criação de filhos no temor do Senhor é, possivelmente, a tarefa mais árdua e complexa que existe. Tentei criar três filhas, e reconheço que foi um processo recheado de erros e falhas. Cada criança tem a sua personalidade e seu temperamento, e não podemos tratá-las como robôs autômatos. A teoria sobre criação de filhos (para quem aceita a autoridade da Bíblia) é simples; mas aplicar esta teoria consistentemente, dia após dia, ano após ano, nas mais diversas situações e às mais variadas personalidades, é quase impossível de ser feito perfeitamente. Como qualquer pai ou mãe honesto, tenho que confessar: eu falhei na crianças das minhas filhas, e aprendi que esta é uma tarefa muito, muito difícil.
  2. Não só a tarefa de criar filhos é extremamente difícil, mas é também um assunto extremamente melindroso. Pessoas que aceitam serem corrigidos em outras áreas não suportam uma insinuação de que seus filhos estão sendo malcriados. Pais e mães que, antes de serem pais e mães, percebiam os menores defeitos nos filhos dos outros, tornam-se cegos aos erros grosseiros dos seus próprios filhos. Amamos tanto nossos filhos que, se alguém sugere que eles estão se comportando de forma errada, imediatamente começamos a defendê-los.

Reconheço minhas falhas como pai, e tenho consciência que tentar apontar algumas destas falhas pode irritar muitos pais e mães. Mas as recentes mudanças na sociedade tem se infiltrado no meio do povo de Deus, e estamos perdendo a noção da solenidade da presença de Deus nos ajuntamentos do Seu povo. Preocupado com isso, vou me arriscar a escrever, orando para que Deus permita que aqueles que se sentirem ofendidos me perdoem pela minha presunção.

Um aspecto da maneira como criamos nossos filhos e filhas é o comportamento que esperamos deles nas reuniões das igrejas locais. Uma reunião deve ser realizada num ambiente de ordem e solenidade, devido à presença do Senhor no nosso meio (veja I Coríntios cap. 14), mas não é natural que uma criança com poucos meses de vida se comporte com a reverência que a ocasião exige. Diante desta situação, o que devemos fazer? Há três sugestões:

  1. Não levar crianças pequenas às reuniões (pai e mãe podem se revezar no cuidado com os filhos);
  2. Não se preocupar com o comportamento das crianças nas reuniões (afinal, são apenas crianças);
  3. Levar as crianças às reuniões, mas exigir que elas se comportem como a ocasião exige.

Quanto à primeira sugestão, ela é largamente praticada em outros países, e entendo a motivação por trás dela. As reuniões transcorrem sem barulho, com reverência e solenidade, e este ambiente contagia a todos — a reverência geral produz reverência no indivíduo. Mas o custo espiritual para os pais, para as crianças, e para a igreja toda, é muito grande. Um casal poderá passar anos e anos sem ir às reuniões juntos, e tanto o pai quanto a mãe perderá muitas reuniões. As crianças passam seus primeiros quatro ou cinco anos sem o contato tão saudável com a igreja nas reuniões, sem a experiência de um ajuntamento solene na presença de Deus. E a igreja não pode contar com a participação plena dos pais nos primeiros anos de vida dos filhos (se um casal gera três filhos com intervalos de dois ou três anos, podem ficar mais de uma década nesta situação). Participei de muitas reuniões assim, e apesar de apreciar muito a reverência manifestada, não creio que seja o ideal.

A segunda sugestão (que corresponde à prática mais comum aqui no Brasil nos últimos anos) tem como principal vantagem promover a integração da família toda (pai, mãe e filhos) com a igreja local desde a mais tenra idade da criança. As reuniões da igreja farão parte das primeiras lembranças da criança quando crescer, e isto é ótimo. Mas o custo espiritual é enorme. Uma criança barulhenta pode tirar praticamente todo o proveito espiritual de uma reunião. Entre os salvos, alguns ficarão olhando e rindo das peripécias da criança, enquanto quem quer prestar atenção ficará irritado com as distrações — e todos irão ter o seu proveito espiritual prejudicado. Pior ainda é imaginar a situação de um incrédulo que esteja presente na reunião. Se lembrarmos que o destino eterno dele está em jogo, que trágico seria se Satanás conseguisse distrai-lo por causa do meu filho(a); quão horrendo se ele continuasse caminhando ao inferno por causa da complacência dos pais para com uma criança inocente!

Creio que a terceira sugestão é o caminho que devemos seguir. A reunião de uma igreja local é preciosa demais para que pais fiquem em casa com seus filhos, e é solene demais para que pais permitam que seus filhos perturbem a reunião. A única solução que resta é trazer os filhos às reuniões desde as primeiras semanas de vida, mas educá-los para que se comportem nas reuniões.

O mais difícil nesta questão é concordar sobre o que é um comportamento aceitável duma criança numa reunião. Quero sugerir algumas coisas, não como regras ou leis, mas como sugestões de quem já errou muito, e deseja que uma nova geração erre menos do que eu errei:

  1. Os primeiros meses de vida são os mais difíceis. Nesta fase, é normal a criança chorar quando tiver fome ou algum desconforto (cólica, fralda suja, etc.). A mãe pode sair com a criança sempre que surgir uma situação destas, resolver a situação, e voltar o mais rápido possível. Todos os demais devem entender que isto é normal naquela fase, e procurar não aumentar o problema olhando pra trás toda vez que a criança chora, etc.
  2. Depois de alguns meses, porém, a inteligência da criança começa a se manifestar, e ela já tem condições de ser ensinada que deve permanecer em silêncio nas reuniões. Os meios que os pais usarão para efetuar isto podem variar dependendo dos pais e da criança, mas já vivi o suficiente para poder afirmar que qualquer criança consegue aprender a ficar quieta numa reunião antes mesmo de aprender a andar e falar. “Você não conhece o meu filho!” alguém diz. É verdade, mas já vi crianças hiperativas que, na hora da reunião, sabem se comportar. É difícil de ser conseguido, mas é possível.
  3. Obviamente, isto começa em casa; uma criança que faz a sua própria vontade em casa não vai fazer a vontade dos pais na hora da reunião! O comportamento que se espera da criança em casa é bem diferente do que é permitido na reunião, mas em qualquer ambiente haverá limites que não podem ser ultrapassados. Se os pais não insistem, em casa, para que os limites da casa não sejam ultrapassados, não é na hora da reunião que vão conseguir que a criança os obedeça.
  4. Obviamente, também, não é algo que se consegue do dia para a noite, ou sem esforço; vai exigir muita paciência e perseverança dos pais. Não adianta nada deixar a criança gritar por meia hora, depois levá-la para fora e dar uma surra; uma leve repreensão, toda vez que a criança tenta fazer algum barulho, é muito mais eficaz. Passar a reunião toda do lado de fora distraindo a criança também não resolve a situação. O importante é não desanimar nem desistir.

Eu sei que crianças não são adultos. Sei também que ninguém consegue criar seu filho de forma perfeita. Se permitirmos que crianças frequentem as reuniões das igrejas, é inevitável que haverá interrupções devido ao mau comportamento das crianças. O que pretendo com este alerta não é envergonhar pais e mães cujas crianças já atrapalharam alguma reunião (pois todos nós somos culpados disto), muito menos defender uma utopia. Apenas creio que devemos nos esforçar ao máximo para que as interrupções sejam diminuídas o máximo possível.

Quero sugerir que pais “de primeira viagem” peçam conselhos e orientação dos mais experientes, e que todos os demais tenham paciência com os pais enquanto educam seus filhos. Vocês que são pais de crianças pequenas: tenha certeza que eu entendo o quão difícil é a tarefa que vocês tem, e oro para que vocês sejam zelosos neste serviço. A vocês que não são pais de crianças pequenas: tenha paciência, e não torne o trabalho dos pais ainda mais difícil do que já é.

A maneira como o mundo cria seus filhos não é aceitável para o cristão. Crianças pequenas conseguem aprender a ficar quietas nas reuniões. Elas tem inteligência suficiente para aprender, e com certeza não ficarão traumatizadas se forem ensinadas a ficarem quietas duas ou três horas por semana.

Se alguém acha que exagerei, pode me corrigir nos comentários. Se alguém tiver alguma experiência pessoal para ajudar neste sentido, tenha liberdade de compartilhar.

“Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele … A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela … Não retires a disciplina da criança; pois se a fustigares com a vara, nem por isso morrerá … A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe.” (Provérbios 22:6, 15; 23:13; 29:15).

© W. J. Watterson

Thursday, 3 July 2014

A grande comissão

Uma breve consideração sobre a comissão do Senhor Jesus Cristo, registrada em dois dos Evangelhos. Baseada em uma pregação numa conferência alguns anos atrás.

Leitura: Mateus 28:18-20 e Marcos 16:15-20



Os versículos acima apresentam aquilo que é chamado de A Grande Comissão — a última ordem do Senhor Jesus Cristo aos Seus servos antes de deixar este mundo. Certamente devemos prestar atenção ao que Ele disse, e nos familiarizarmos bem com esta comissão.

Em primeiro lugar, repare que esta comissão tem dois componentes distintos, cada um apresentado por um dos evangelistas. Em Mateus lemos: “Ide, fazei discípulos de [literalmente, “discipulai”] todas as nações”, e em Marcos: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura”. As duas ocorrências do verbo “ide” nestes dois trechos estão no particípio (no grego), e os únicos verbos que estão na voz imperativa nestas duas comissões são “fazei discípulos [discipulai]” em Mateus e “pregai” em Marcos. Hoje em dia ouvimos muita ênfase sendo colocada no verbo “ide”, mas precisamos lembrar que, apesar de toda a importância de irmos ao mundo inteiro, a ênfase nestes dois trechos não é no “ir”, mas no “pregar” e “discipular”.

A comissão, portanto, é dupla, e poderia ser traduzida assim: “Indo por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura, e discipulai todas as nações”. Mateus apresenta um aspecto dela (o discipulado), Marcos outro (a evangelização), e os outros dois evangelistas a omitem totalmente.

Estas diferenças entre os quatro evangelistas são de suma importância para entendermos corretamente a mensagem de cada um destes relatos inspirados. São quatro retratos da mesma Pessoa e da mesma vida, mas vistos de quatro pontos de vista diferentes. Muitos já tem comparado os quatro relatos com os quatro seres viventes de Ezequiel cap. 1 e Apocalipse cap. 4, seguindo a mesma ordem apresentada em Apocalipse:

  • O primeiro era semelhante a um leão, um símbolo de realeza (Ap 5:5). Em Mateus, Cristo é apresentado como o Rei de Israel.
  • O segundo era semelhante a um bezerro, figura de serviço (I Co 9:9; Pv 14:4). Em Marcos, Cristo é apresentado como o Servo perfeito.
  • O terceiro animal tinha o rosto de homem, lembrando-nos da compaixão humana (Os 11:4). Lucas, o médico amado, nos apresenta o Homem perfeito.
  • O quarto era semelhante a uma águia voando, lembrando-nos daquilo que é do Céu, alto demais para a nossa compreensão (Pv 30:18-19). João nos apresenta a perfeição do Filho de Deus.

Por que Deus nos revelou o Seu Filho assim? Como Andrew Jukes escreve, isto facilita a nossa compreensão da multiforme beleza do nosso Senhor. Com nossa visão limitada, só conseguimos ver as diferentes cores que compõe um feixe de luz quando um prisma é usada para separar estas cores uma das outras. Assim o Senhor, conhecendo a nossa limitação, nos deu estas quatro revelações complementares do Seu Filho. Na glória dos Céus poderemos vê-lO como Ele é, mas hoje é necessário termos estes retratos diferentes. O jardim do Éden, com suas condições perfeitas, podia comportar um rio. Mas quando aquele rio saia do Éden e alcançava as terras comuns que rodeavam o Jardim de Deus, era necessário que ele se dividisse em quatro braços. Assim também com Cristo.

Outro rio do VT nos ajuda aqui. Em Ez 47 lemos de um rio que saia do Templo e atingia o deserto, levando vida e bênção a todos. Quatro vezes Ezequiel é chamado a atravessar o rio, que vai se tornando progressivamente mais profundo. Assim Mateus apresenta um retrato do Senhor que é mais simples de compreender: Ele é o Rei, exatamente como os judeus esperavam que seu Messias fosse. Marcos, falando-nos de como o Rei se fez Servo, apresenta algo que confunde o ser humano — temos dificuldade de entender um amor que faz alguém se humilhar tanto. Em Lucas, porém, as águas são mais profundas: o Rei eterno não se fez apenas servo, Ele tomou a forma humana. Quem pode compreender o mistério da encarnação? Quando chegamos em João, porém, encontramos aquele “rio que eu não podia atravessar”, como escreve Ezequiel. João nos revela detalhes do relacionamento divino entre o Pai e o Filho que estão ausentes nos outros Evangelhos, e nos levam até às portas do Céu.

Lembrando que cada um dos Evangelistas apresenta a mesma história, mas de pontos de vistas diferentes, devemos prestar atenção aos diferentes aspectos da comissão do Senhor Jesus que são apresentados por Mateus e por Marcos. É uma comissão só, com dois componentes principais (evangelizar e discipular) — mas não é à toa que esta única comissão é apresentada em dois relatos bem distintos.

Consideremos, então, resumidamente, os dois componentes da comissão do Senhor Jesus.

Pregai (Marcos)

Comecemos com Marcos, pois no nosso serviço para o Senhor “pregar” vem antes de “discipular”. Consideremos quatro coisas neste trecho: a comissão, a forma como o Comissionador (Cristo) é apresentado, a companhia do Senhor com os discípulos, e o contexto da comissão.

A comissão

“Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura”

Há três elementos desta comissão que podemos destacar: o ato (pregar), seu assunto (o Evangelho) e seu alcance (todo o mundo e toda criatura).

a) O ato (pregai). O verbo que é usado aqui pelo Senhor quer dizer, literalmente, “proclamar como um arauto” (o dicionário de Thayer acrescenta: “sempre com uma sugestão de formalidade, solenidade e autoridade que exigem atenção e obediência”). Em tempos antigos, o arauto era um funcionário escolhido pelas autoridades para transmitir ao povo comunicados importantes. Vestido com vestes oficiais, ele lia, em voz alta e em locais públicos, aquilo que o governante lhe havia entregado para declarar. Ele não tinha a função de explicar o porquê daquela mensagem, nem exortar os ouvintes a obedecê-la — a sua responsabilidade era apenas proclamá-la.

“Pregar” não é dialogar, nem discutir, nem ensinar por métodos indutivos, mas é declarar, anunciar, dar um recado. Veja a diferença apresentada por Paulo em Gl 2:2: “E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios” (Gl 2:2). Aos irmãos ele “expôs” aquilo que “pregava” entre os gentios — “expor” e “pregar” não são sinônimos.

Irmãos, a pregação é o método escolhido por Deus para salvar pecadores (I Co 1:21). É claro que Ele também salva usando o Evangelho exposto de outras formas (como a conversa particular entre Filipe e o eunuco, por exemplo) — mas tanto I Co 1:21, quanto a comissão do Senhor, enfatizam a importância de se pregar o Evangelho! Há uma solenidade e autoridade associadas à pregação que faltam em outras formas de apresentar esta mensagem gloriosa, e toda igreja local deve dar importância à pregação. Os salvos podem (e devem) proclamar o Evangelho de todas as formas ao seu alcance: distribuindo folhetos, conversando em particular com aqueles que mostram interesse, etc., mas nunca em detrimento da pregação pública do Evangelho. Em outras palavras, nunca falte de uma reunião onde o Evangelho será pregado publicamente para distribuir folhetos, ou fazer um estudo, ou algo semelhante. Como igreja local, devemos dar prioridade à pregação do Evangelho, com reuniões semanais para este fim, e, sempre que possível, séries de reuniões de evangelização.

Num dia em que muitas igrejas estão preocupadas em tornar o Evangelho mais acessível, menos formal e solene, que nós possamos entender que a solenidade da pregação é enfatizada na comissão do Senhor Jesus Cristo.

b) O assunto (o Evangelho). É importante pregar; mas é fundamental pregar o Evangelho, não qualquer outra coisa! Temos um resumo do Evangelho em I Co 15:1:4: “Também vos notifico, irmãos, o Evangelho … Que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. Resumidamente, portanto, podemos afirmar que toda pregação do Evangelho irá apresentar a razão da morte de Cristo (Ele morreu por nossos pecados) e o resultado da morte de Cristo (Ele ressuscitou ao terceiro dia). É necessário mostrar que o pecado é tão grave que exigiu a morte do próprio Filho de Deus, e que a morte de Cristo é o sacrifício eficaz e suficiente para a nossa salvação (a ressurreição é a prova da eficácia da Sua morte, At 17:31). Como diz Rm 4:25, o Senhor Jesus Cristo “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação”.

É assim que pregamos? Ou gastamos a reunião inteira exortando o pecador quanto à brevidade da vida, quanto à necessidade de crer, mas não apresentamos Cristo crucificado como o meio de salvação? Podemos dizer, como Paulo: “Nós pregamos a Cristo crucificado”?

Vamos pregar, e pregar o Evangelho!

c) O alcance (todo o mundo, toda a criatura). Duas expressões semelhantes que mostram a abrangência da pregação do Evangelho. Em todo lugar aonde formos, e para qualquer pessoa com quem nos encontrarmos, devemos pregar.

Isto não quer dizer que cada um dos salvos precisa ir, literalmente, ao mundo inteiro e pregar, literalmente, a toda criatura — isto seria impossível. Mas devemos entender estas palavras como um alerta para não fazermos nenhuma discriminação. Não pode existir um lugar do mundo, do qual eu diga (ou pense): “Lá eu não quero ir pregar”, e não deve existir nenhum tipo de pessoa do qual eu diga (ou pense): “Para ele eu não quero pregar”. Todas as nações precisam do Evangelho, e todo tipo de pessoas dentro destas nações precisa do Evangelho. Seja rico ou pobre, religioso ou ateu, honesto ou criminoso, honrável ou imundo, devemos estar dispostos a pregar a todos.

Portanto, devemos pregar (com toda a solenidade e autoridade que esta palavra indica) o Evangelho (as boas novas da morte e ressurreição de Cristo) a todos (sem qualquer discriminação).

O Comissionador

“O Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-Se à direita de Deus”.

Em Marcos, o Senhor que lhes comissiona é apresentado, na Sua glória, de duas formas diferentes:

a) Recebido no Céu. Este verbo está na voz passiva, e enfatiza a maneira como o Céu se alegrou em receber aquele que venceu na cruz. É interessante notar que a ascensão do Senhor Jesus é descrita de quatro formas diferentes no NT, como dois verbos na voz passiva e dois na ativa, sempre associados à palavra “Céu”. Quanto à viagem daqui da Terra até o Céu, lemos que Ele foi elevado ao Céu (Lc 24:51 — voz passiva), mas também que Ele foi ao Céu pelo seu próprio poder e autoridade (At 1:11 e I Pe 3:22, traduzido “subido”, ambos os verbos na voz ativa). Quanto à entrada dEle do Céu, ao final da viagem, lemos que Ele foi recebido no Céu (aqui e em At 1:11, ambos os verbos na voz passiva), mas também lemos que entrou no Céu (Hb 9:24, voz ativa). O NT deixa claro, portanto, estes dois lados da moeda: o Céu abriu as portas para aquele que o mundo rejeitou, e Ele, pelo Seu próprio poder e autoridade, entrou ali.

b) Assentou-Se. Nesta segunda parte da descrição do Senhor, novamente vemos a Sua autoridade. O Céu abriu as portas para recebê-lO, e Ele, entrando, assentou-Se à direita de Deus. Esta é uma afirmação muito clara da divindade do Senhor Jesus Cristo. Quando o anti-cristo se assentar no Templo de Deus, a Bíblia diz que ele estará com isto “querendo parecer Deus” (II Ts 2:4) — mas o próprio Cristo se assenta, não só no Templo, mas no Céu, à direita de Deus, com toda a autoridade e glória que só Deus pode ter.

Irmãos, é este o Senhor que nos manda pregar: aquele que foi pregado numa cruz e morreu pelos nossos pecados — mas também aquele para quem os Céus abriram as suas portas, aquele que entrou vitorioso no Seu lar e assentou-se no Seu próprio trono, o trono de Deus. Aquele do qual diz o Sl 24: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da glória”.

O Rei da glória, antes de entrar pelos portais eternos e assentar-Se à destra do Deus eterno, nos mandou pregar o Evangelho. Estamos obedecendo?

A companhia

“Cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que seguiram. Amém.”

Lemos que os discípulos obedeceram à comissão do Senhor: eles partiram, e pregaram por todas as partes. Enquanto obedeciam ao Senhor, tiveram o enorme privilégio de desfrutar da Sua cooperação — a cooperação do Rei da glória, assentado à destra de Deus! Em II Co 6:1, aprendemos que não apenas estes primeiros discípulos, mas todos quantos nos envolvemos no serviço glorioso de pregar o Evangelho (publicamente ou não), somos também cooperadores de Deus. Que privilégio imenso!

Além disto, lemos que o Senhor confirmou a palavra que eles pregavam, e fez isto através dos sinais que se seguiram. Sem tomar aqui o espaço necessário para desenvolver o assunto, convém lembrar que estes sinais seguiram aqueles primeiros discípulos, mas depois cessaram. Em I Coríntos (escrito mais ou menos no ano 55 a.D.) lemos dos dons sinais — porém Romanos cap. 12 e Efésios cap. 4, que foram escritos alguns anos depois, apresentam listas de dons espirituais (como I Coríntios), mas não incluem nenhum dom sinal nestas listas. E Marcos, escrevendo mais ou menos no ano 63 a.D., refere-se a estes sinais no passado (“sinais que se seguiram”, e não “que seguem”). Podemos deduzir que estes sinais cessaram antes do ano 60 desta nossa era.

Que o consolo destes versículos nos anime hoje: o Rei da glória nos manda pregar, mas Ele não nos deixa sozinhos — Ele mesmo estará conosco, cooperando com todo trabalho feito para Ele.

O contexto

A ordem para pregar se encontra em Marcos, o Evangelho do Servo perfeito. Estamos servindo ao Senhor como Ele serviu? Seu serviço foi:

a) Abnegado (3:20 e 6:31) —tão dedicado que algumas vezes não tinha tempo para comer!

b) Atencioso. A palavra grega eutheos (“imediatamente”) ocorre 80 vezes no NT, e exatamente metade destas ocorrências estão neste pequeno livro de Marcos! Nenhum autor do NT usa tanto esta palavra quanto Marcos, descrevendo um serviço pronto feito por um Servo prestativo.

c) Amoroso. Mais do que os outros evangelistas, Marcos nos revela, muitas vezes, os sentimentos compassivos deste Servo perfeito (1:41; 6:34; 10:21, etc.).

Que nosso serviço seja semelhante ao serviço do nosso Mestre, o Servo perfeito.

Discipulai (Mateus)

Aqui também quero considerar quatro assuntos neste trecho: a comissão, a forma como Cristo, o Comissionador, é apresentado, a companhia do Senhor com os discípulos, e o contexto da comissão.

A comissão

“Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as cosias que Eu vos tenho mandado”

Há três elementos desta comissão que podemos destacar:

a) O ato (discipular). “Fazei discípulos” é uma só palavra no texto original, e quer dizer “discipular”. Estamos conscientes de que a comissão do Senhor não foi apenas para pregarmos, mas também para discipularmos? Se estamos dando ênfase à pregação do Evangelho, ótimo — continuemos neste caminho. Mas tomemos cuidado para não estarmos tão ocupados com um aspecto da comissão à ponto de esquecermos do outro! Pecadores precisam ser salvos, mas salvos também precisam ser discipulados! Temos esta dupla preocupação aqui na comissão, e vemos o mesmo sendo ilustrado em Atos. No final da primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé passam de novo pelas cidades onde haviam pregado o Evangelho, agora com a intenção de confirmar o ânimo dos discípulos (At 14). A segunda viagem missionária foi iniciada com a intenção de visitar os irmãos em todas as cidades onde já haviam anunciado a Palavra do Senhor (At 15).

Este deve ser o padrão ainda hoje: pregar o Evangelho aos perdidos, e ensinar aqueles que crêem.

b) O alcance (todas as nações). Repare que a abrangência desta parte da comissão é idêntica à que já consideramos: todas as nações. Nenhum preconceito.

A diferença nas expressões é interessante. Em Marcos, onde lemos do Servo perfeito de Deus, e ênfase está nas pessoas como indivíduos (devemos pregar a toda criatura). Aqui, onde lemos do Rei dos reis, a ênfase está nas nações. O Rei tem autoridade sobre todas as nações, não importa quão poderosas ou influentes elas possam ser.

c) Os acessórios (batizar e ensinar). O Senhor menciona duas coisas que estão relacionadas com este ato de discipular:

i) Batismo. O NT deixa bem claro que todos os salvos devem ser batizados. Batismo não é necessário para a salvação, mas é estranho, no contexto do NT, um salvo não batizado. Certamente podem haver exceções (falta de tempo, como no caso do ladrão na cruz, ou alguma deficiência física grave, etc.), mas a regra é clara: quem crê, seja batizado. Se você já nasceu de novo e não foi batizado ainda, permita-me perguntar: o que você está esperando?

ii) Ensino. O que vamos ensinar? Todas as coisas que o Senhor mandou! Certamente isto inclui o ensino dados pelos apóstolos do Senhor após a Sua ascensão, ensinos que estão registrados nas epístolas. Inclui o ensino sobre a igreja local (a necessidade de reunir ao nome do Senhor Jesus, separadamente das denominações, e os princípios que governam uma igreja local). Vivemos dias em que os homens não suportam a sã doutrina, e muitos dentre o povo de Deus estão indo atrás de ventos de doutrina. Ensinar toda a verdade não nos tornará populares, mas é o mandamento do Senhor.

O Comissionador

“É-me dado todo o poder no Céu e na Terra”

A palavra traduzida “poder” aqui refere-se a “poder” no sentido de “autoridade”, não de “capacidade”. A afirmação aqui não é que o Senhor consegue fazer qualquer coisa (uma verdade apresentada em outras partes da Bíblia), mas que Ele tem direito de fazer qualquer coisa.

Mateus é o Evangelho do Rei — nada mais apropriado, portanto, do que ver a autoridade que o Senhor apresenta para a Sua comissão. Quem é que nos manda fazer discípulos de todas as nações? Quem é este que tem autoridade para nos mandar interferir na cultura e nos costumes de todos os povos da Terra? Quem é este que Se coloca acima de todos os governos humanos? Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, aquele que recebeu toda a autoridade no Céu e na Terra. Não há ninguém que escapa da Sua autoridade —Ele controla tudo e todos. Ele foi colocado acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro, e tudo foi sujeito debaixo dos Seus pés (Ef 1:21-22).

Tal é a autoridade daquele que nos comissiona a ensinar todas as nações.

A companhia

“Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.”

Marcos apresenta o que aconteceu quando os discípulos obedeceram à comissão do Senhor, mas Mateus apresenta uma promessa do que vai acontecer (e está acontecendo).

O Senhor promete estar conosco sempre, todos os dias, até a consumação dos séculos. A promessa não era somente até o final da vida dos apóstolos, mas até o final desta dispensação — a promessa é para nós. Todos os dias: mesmo quando esquecemos desta promessa; mesmo quando parece que ela não está sendo cumprida; mesmo quando gostaríamos que ela falhasse. Todos os dias, o Senhor sempre estará conosco — que precioso!

É interessante contrastar esta promessa incondicional com a promessa condicional de Mt 18:20. Ambas tem uma notável semelhança, mas também uma diferença importante: as duas promessas dizem respeito à presença do Senhor conosco, mas a promessa de 28:20 é incondicional, enquanto a de 18:20 é condicional. Ou seja, individualmente, o Senhor está com cada um dos Seus, sempre, todos os dias. Coletivamente, porém, só podemos saber que o Senhor reconhece nosso ajuntamento, e está no nosso meio, se estivermos reunidos ao Nome dEle!

Será que realmente apreciamos o privilégio que temos em fazer parte de uma igreja local?

O contexto

Mateus é quem nos fala acerca da necessidade de discipular — por quê?

O contexto deste Evangelho é o reino dos céus (uma expressão que ocorre mais de 30 vezes aqui em Mateus, e nunca mais no NT). É o Rei que tem autoridade para nos enviar a outros reinos atrás de novos discípulos. Ele não reconhece as barreiras de cultura, língua e tradições — Ele quer discípulos de todas as nações.

Repare também que este é o único dos quatro Evangelhos que usa a palavra “igreja”. No cap. 16 ela é usada da Igreja (o Corpo de Cristo), e no cap. 18 de uma igreja local. É o desejo do Rei que o reino cresça através do desenvolvimento de igrejas locais, composta de discípulos. Uma das nossas principais responsabilidades aqui na Terra é conseguir discípulos, e ensiná-los a reunir unicamente ao nome do Senhor Jesus Cristo, separados das denominações.

Conclusão

Nestes dois trechos temos, portanto, uma única comissão, mas com dois elementos distintos. Aprendemos que o Servo perfeito nos manda pregar o Evangelho a todos, indistintamente, seguindo o Seu exemplo de serviço perfeito e abnegado. Aprendemos também que o Rei nos manda fazer discípulos de todas as nações, batizá-los e ensiná-los a obedecer tudo que Ele nos ensinou.

Estamos cumprindo esta comissão? As igrejas locais são caracterizadas por fervor evangelístico e zelo doutrinário? Cada um de nós, dependendo do dom que possuímos, irá se dedicar mais a uma ou outra destas tarefas, mas devemos reconhecer que ambas são igualmente importantes, e que cada igreja local deve preocupar-se com estes dois aspectos do seu serviço: pregar o Evangelho, e discipular os salvos.

Que Deus nos ajude nesta tarefa.



© W. J. Watterson

Friday, 17 January 2014

Devemos jejuar hoje em dia?

Introdução

Qual deve ser a posição do cristão hoje em relação ao jejum? Nesta presente Dispensação, será que jejuar é algo indicado (que todo cristão deve praticar), inadequado (que todo cristão deve evitar), ou indiferente (quem faz não erra, quem não faz não erra)?

Para responder esta pergunta precisamos pesquisar o Novo Testamento, reconhecendo a diferença entre a Velha Aliança (a época da Lei) e a Nova Aliança (a época da graça em que vivemos hoje). As práticas de Israel na época do Velho Testamento e dos Evangelhos (com seus sacrifícios, dízimos e jejuns) pertencem à Dispensação da Lei, e não são o guia prático para os salvos hoje — hoje vivemos na Dispensação da Graça, ou da Igreja (um período de tempo que começou em Atos cap. 2 e continuará até o Arrebatamento da Igreja).

Comecemos definindo a palavra. “Jejum”, no NT, é a tradução das palavras gregas nesteia, nestis (substantivos) ou nesteuo (verbo), cuja definição, de acordo com o dicionário de Thayer, é a seguinte:
“Abster de alimento ou bebida como um exercício religioso; ou completamente, se o jejum durasse somente um dia, ou de alimentos costumeiros e escolhidos, se continuasse por vários dias.”
A palavra (nas suas diversas formas) aparece trinta e uma vezes no NT, e podemos dividir estas ocorrências em quatro grupos:

  1. Referindo-se a uma experiência comum, do cotidiano. Algumas vezes a palavra não tem nenhuma conotação religiosa, mas simplesmente descreve alguém que, por que não teve oportunidade de comer, está em jejum. Por exemplo, quando a multidão seguiu o Senhor para ouvir Seus ensinos, Ele disse: “Tenho compaixão da multidão, porque já está comigo há três dias, e não tem o que comer; e não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleça no caminho.” Ele simplesmente quis dizer que Ele não queria despedir a multidão com fome; Ele queria primeiramente lhes dar algo a comer. Há quatro ocorrências da palavra com este sentido (Mt 15:32; Mc 8:3; II Co 6:5, 11:27). Estas ocorrências não tem relação com o assunto deste estudo, pois não se referem a jejuar no sentido religioso ou espiritual.
  2. Referindo-se a uma festa nacional dos judeus. Uma vez (At 27:9) a palavra refere-se ao dia da Expiação, um feriado nacional para os judeus. Esta ocorrência também não tem relação com o assunto deste estudo, pois descreve algo que fazia parte do cerimonial religioso do Velho Testamento.
  3. Ensino. Dezenove vezes a palavra é usada num contexto em que ensino está sendo dado, e convém analisar estas ocorrências mais detalhadamente abaixo.
  4. Exemplos. A palavra é usada sete vezes apresentando seis exemplos de alguém jejuando: Ana (Lc 2:37), o Senhor Jesus (Mt 4:2), o fariseu (na parábola de Lc 18:12), Cornélio (At 10:30), alguns irmãos em Antioquia (At 13:2-3), e Paulo e Barnabé (At 14:23).

Destes quatro grupos, somente os dois últimos tem alguma relação direta com o nosso assunto, e podem nos revelar alguma coisa sobre qual deveria ser nossa posição em relação ao jejum nesta dispensação em que vivemos. Vamos considerá-los mais detalhadamente.

Ensino que inclui menção ao jejum

As dezenove ocorrências deste grupo referem-se a quatro ocasiões diferentes:

i) No Sermão da Montanha (Mt 6:16-18)

Precisamos entender que este ensino foi dado pelo Senhor Jesus quando a Dispensação da Lei ainda estava em vigor; seria somente no dia de Pentecostes registrado em Atos cap. 2, alguns anos depois, que a Igreja começaria a existir. Portanto, “quando examinamos os detalhes do manifesto [no Sermão da Montanha] é necessário ter discernimento. Uma aplicação geral de tudo leva à confusão; ao invés disto, devemos nos perguntar: quais detalhes eram para o Seu povo de então, quais são para o Seu povo hoje, e quais para o Seu povo no futuro?” (HEADING, J. Comentário Ritchie do NT, volume 1. Pirassununga, Editora Sã Doutrina, 2002. Pág. 103).

De modo geral, podemos dizer que os princípios espirituais que estão por trás dos detalhes no Sermão da Montanha são princípios eternos, mas que os detalhes materiais e físicos não tem, necessariamente, aplicação direta a nós nesta Dispensação. Um exemplo deve deixar isto claro: em Mateus 5:23-24 o Senhor fala sobre trazer uma oferta ao altar, e a necessidade de primeiro reconciliar-se com um irmão ofendido, para depois apresentar a oferta. O ato físico de trazer um animal diante do altar não deve ser praticado hoje, mas o princípio que está por trás deste ato (isto é, que é necessário reconciliar-se com seu irmão antes de servir a Deus) certamente continua válido (veja I Jo 4:20, por exemplo). Preservamos o princípio (a prioridade do perdão) pois ele é eterno, mas não imitamos o ato físico (trazer uma oferta ao altar) pois ele pertence a outra Dispensação.

Lembrando do contexto em que estes versículos se encontram, não podemos basear nossa prática quanto ao jejum nos dias de hoje no detalhe físico mencionado aqui. O princípio espiritual destacado (que não podemos servir a Deus desejando ser vistos pelos homens) continua sendo válido, mas o ato em si é mencionado aqui no contexto da Velha Aliança, e não podemos usar este trecho para aprender sobre o ato de jejuar na Nova Aliança.

ii) Respondendo aos discípulos de João

Os três Evangelhos sinóticos registram o questionamento dos discípulos de João e dos fariseus quanto ao fato dos discípulos do Senhor não jejuarem (Mt 9:14-15, Mc 2:18-20 e Lc 5:33-35 — doze ocorrências). O Senhor deixa claro que, enquanto Ele estivesse com os Seus, eles não teriam razão para jejuar, e acrescenta: “Dias porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão”. John Heading, citado acima, mostra que estes “dias” vindouros seriam “entre a Sua morte e Sua subsequente ressurreição” (Ibid., pág. 176). Adam Clarke, no seu comentário sobre este versículo, afirma que os cristãos primitivos entendiam desta forma as palavras do Senhor, referindo-se ao tempo que Seu corpo esteve no sepulcro.

Da mesma forma que o ensino anterior (no Sermão da Montanha), este também foi dado quando a Velha Aliança ainda estava em vigor, portanto não podemos aplicá-lo literalmente a nós hoje. Até o aspecto profético deste ensino — quando o Senhor fala que haveria um tempo em que os Seus discípulos jejuariam porque Ele estaria separado deles — já foi plenamente cumprido no período entre a Sua morte e ressurreição. Realmente “foi tirado o esposo” durante aqueles dias tão tristes, mas a tristeza dos discípulos logo se transformou em alegria quando viram o Senhor ressurreto — e a alegria que os inundou quando viram o Senhor vivo é uma alegria da qual disse o Senhor: “ninguém vo-la tirará” (veja Jo 16:16-22).

Hoje Ele não está ausente de nós — fisicamente, talvez, mas Ele mesmo prometeu estar conosco todos os dias e fazer morada em nós, Seus servos (Mt 28:20 e Jo 14:23). Lembrando disto, temos no ensino destes versículos que estamos considerando uma forte indicação de que o ato de jejuar não é necessário para nós nesta Dispensação. Durante o curto período em que o Senhor esteve separado dos Seus pela morte, eles tiveram razão para jejuar; mas desde o momento glorioso da ressurreição, tal razão não existe mais.

Este acontecimento, portanto, indica que não há muita razão para o cristão jejuar hoje, devido à comunhão especial que temos com nosso Salvador.

iii) Após a Transfiguração (Mt 17:21; Mc 9:29)

Este é outro trecho que pertence à Velha Aliança, e não podemos simplesmente transportar as práticas daquela Dispensação para os nossos dias. Devemos aprender com o princípio espiritual apresentado pelo Senhor Jesus, mas entender que não vivemos mais sob o jugo da Lei.

O princípio que o Senhor está apresentando é que aquela obra que Ele acabara de realizar (expulsando um demônio) não era algo que poderia ser feito displicentemente, mas que exigia um preparo prévio para verdadeiramente estar em comunhão com Deus. Heading explica que o Senhor está enfatizando que “colocar a alma em harmonia com Deus” não era algo automático, e sugere que o sentido de oração e jejum neste contexto é que “a oração é o contato contínuo do coração com Deus; o jejum é a contínua falta de contato com o mundo” (Ibid., pág. 305). Em outras palavras, para servir a Deus de forma eficaz, precisamos estar em contato com Deus continuamente (ilustrado pelo ato da oração), e dispostos a abrir mão até de coisas lícitas, se estas atrapalham nosso serviço (ilustrado pelo ato do jejum).

Este trecho também não se aplica literalmente a nós — ensina-nos lições espirituais, mas não nos fala nada sobre o ato do jejum para a nossa Dispensação.

iv) Escrevendo para a igreja em Corinto (I Co 7:5)

Esta quarta e última ocasião em que o Novo Testamento apresenta ensino relacionado ao jejum é a única que trata especificamente desta dispensação. As versões Atualizada e Corrigida da SBB omitem a palavra “jejum” neste versículo, mas ela é incluída pela versão da SBTB. O apóstolo não está dando ensino diretamente sobre o jejum, mas afirmando que um casal cristão deve dar importância à sua intimidade, apenas quebrando esta intimidade se for para aplicar-se “ao jejum e oração”, e logo depois ajuntando-se novamente.

Deste trecho podemos entender que, na igreja primitiva, era normal que cristãos praticassem o jejum. Mas é importante perceber que esta é a única passagem em todas as epístolas do Novo Testamento que dá ensino sobre o jejum (e isto, como já destacamos, indiretamente). Não é uma exortação para que jejuemos, nem são instruções sobre como jejuar, mas simplesmente um aviso para não permitir que a oração e o jejum interrompessem definitivamente a intimidade do casal; poderiam se separar para estas atividades, mas logo depois deveriam ajuntar-se novamente.

Devido à ausência de instruções claras quanto à prática do jejum, talvez podemos entender esta prática como um daqueles aspectos da Lei que demoraram um pouco mais para serem deixados de lado pelos judeus (como o voto que Paulo fez em Jerusalém; At 21:22-26).

v) Conclusão preliminar

Das dezenove ocorrências da palavra “jejum” e suas derivadas num contexto de ensino, vimos que apenas uma destas referências refere-se ao período em que nós vivemos, e simplesmente reconhece que alguns cristãos naquela época jejuavam. Se contrastarmos isto com as palavras do Senhor Jesus, quando disse que não fazia sentido Seus discípulos jejuarem enquanto Ele estava com eles, podemos concluir, por enquanto, que o jejum não é algo importante para esta Dispensação em que vivemos.

Mas resta ainda considerar os exemplos mencionados acima.

Exemplos de jejum no NT

Os seis exemplos de jejum no NT se dividem em dois grupos de três: os três primeiros referem-se à Velha Aliança, e os últimos três referem-se à Nova Aliança. Visto que os primeiros três não tem relação direta com o assunto deste estudo, basta mencioná-los: Ana (Lc 2:37), o Senhor Jesus (Mt 4:2), e o fariseu (na parábola de Lc 18:12).

O exemplo de Cornélio (At 10:30) também não serve para nos guiar, pois Cornélio nem era convertido quando jejuou. Pode ser que ele aprendeu sobre o jejum com os judeus (dos quais era amigo; At 10:22); mas sua prática tem mais a ver com uma busca religiosa da verdade por um incrédulo, do que com o serviço inteligente de um salvo.

Restam apenas os exemplos de Paulo e Barnabé; primeiramente com outros irmãos em Antioquia (At 13:1-3), e depois em outras igrejas no final da viagem que começou no cap. 13 (At 14:23). Um elemento em comum nestes dois exemplos é que o jejum está intimamente ligado à oração: “Então, jejuando e orando …” (At 13:3); “… orando com jejuns …” (At 14:23).

Estes exemplos são importantes; mas não podemos deixar de perceber o contraste com outras atividades no Novo Testamento, como a oração, por exemplo. Se temos três exemplos de jejum no livro de Atos e um nas epístolas (I Co 7:5), lemos de oração quase cem vezes nesta parte da Bíblia. O contraste é impressionante, e não pode ser ignorado.

Também precisamos destacar a ocasião destes exemplos. Ambos ocorreram por ocasião da primeira viagem de Paulo, que foi provavelmente no ano 48 a.D. Esta viagem foi feita antes de qualquer uma das epístolas do NT terem sido escritas, quando as igrejas locais ainda estavam na sua infância, e quando alguns elementos do judaísmo ainda permaneciam entre os salvos. Cerca de dez anos depois disto (por volta do ano 58 a.D.), lemos de “milhares de judeus que creem, e todos são zeladores da Lei” (At 21:20). Estes exemplos provavelmente indicam a demora dos judeus salvos em abandonar todas as práticas do judaísmo. Um judeu não teria tanta dificuldade para abandonar o Templo e os sacrifícios de animais; mas outros aspectos da Lei (como a circuncisão, o dízimo, o jejum) demoraram muito mais para serem deixados de lado (até mesmo por cristãos esclarecidos como Paulo, conforme o exemplo já citado do seu voto no cap. 21 de Atos).

Concluindo

Temos considerado, neste breve estudo, todas as referências ao jejum no NT, e descobrimos que, referente a esta Dispensação em que vivemos, encontramos:

  • Apenas um trecho doutrinário que menciona o jejum (I Co 7:5), e isto indiretamente;
  • Apenas dois exemplos de cristãos jejuando (At 13:1-3 e 14:23) — ambos ocorridos no ano 48 a.D., antes do Novo Testamento ser escrito, e antes do judaísmo ser completamente desarraigado do meio da Igreja.
  • Nenhuma exortação nas epístolas sobre o ato de jejuar, ou sobre o significado ou importância deste ato.
  • Uma profecia (Mt 9:15) feita pelo Senhor Jesus que indica que, nestes dias presentes, não temos razão para jejuar (pois o esposo está conosco todos os dias, até a consumação dos séculos).

Diante destes fatos, concluímos que o jejum não pertence a esta Dispensação em que vivemos. No seu sentido original (o ato de abster-se de alimentos como um exercício religioso; isto é, como uma forma de agradar a Deus), ele não tem nenhum valor nesta Dispensação, e os cristãos desta época da Igreja não devem jejuar meramente como um exercício religioso.

Há, porém, outra forma de entender a palavra “jejum”: o ato de abster-se de alimentos (ou outras coisas lícitas e necessárias) por algum tempo, para não atrapalhar algum serviço espiritual. Creio que esta forma de jejum (se dermos à palavra este sentido secundário) não só é lícito, como é proveitoso. Duas vezes lemos que o Senhor Jesus e Seus discípulos estavam tão ocupados ajudando os outros que “não tinham tempo para comer” (Mc 3:20 e 6:31). A expressão “orando com jejuns” em Atos 14 também indica isto, e sugere algo que muitos cristãos fazem regularmente: abrir mão de alimento (ou descanso, ou outra coisa necessária) porque há serviço para o Mestre que precisa ser feito urgentemente. Quantas irmãos e irmãs (principalmente nestes dias corridos em que vivemos) já abriram mão do jantar para poderem ir à reunião depois do trabalho num dia de semana; ou usaram a hora do almoço para visitar um enfermo, distribuir folhetos, ou conversar com um colega de escola ou trabalho que está interessado no Evangelho. Quantos irmãos e irmãs se entregam de tal forma à oração, que não tem tempo para comer (como o Senhor em Marcos caps. 3 e 6).

Se chamarmos esta entrega de “jejum”, certamente é algo do qual precisamos mais. Mas creio que o Novo Testamento deixa bem claro que o jejum, como mero exercício religioso, não tem valor nesta Dispensação.

Em terminar, preciso reconhecer que há irmãos piedosos e tementes a Deus que creem que o cristão deve jejuar ainda hoje. Fazem isto sinceramente diante do Senhor, e seguindo as orientações dadas no Sermão da Montanha (lavando o rosto para não parecer aos homens que jejuam — Mt 6:16-18). Respeito a convicção deles e não os julgo, mesmo ao repartir minha convicção neste pequeno artigo.

P.S. (19 Fev 2014). Acrescento abaixo um parágrafo sobre este assunto, extraído do Comentário Ritchie sobre o livro de Zacarias. O autor destas palavras é o irmão John Stubbs:

Sobre o assunto de jejuns, talvez seria bom considerar a pergunta se os cristãos hoje devem jejuar. Em primeiro lugar, não há ensino no Novo Testamento exigindo que os salvos jejuem, individual ou coletivamente. Isso não quer dizer que um salvo não possa jejuar. Eles jejuaram na igreja em Antioquia (At 13:3). Pode haver tempos quando o cristão considera conveniente disciplinar-se desta maneira para que possa ser mais devotado ao Senhor, em algum exercício espiritual. Abster-se de comer, ou de outras coisas legítimas, pode ajudar um cristão, mas não necessariamente outro. Se um cristão jejua, seria errado exigir que outros também jejuem. O Senhor Jesus ensinou que se o jejum for observado, deve ser feito sem nenhuma ostentação (Mt 6:16-18). Um ponto importante que devemos lembrar é que, quer seja nacional, na igreja, ou pessoal, o jejum em si mesmo não tem virtude alguma.

© W. J. Watterson

Saturday, 7 December 2013

O que Deus dirá de você?

Ao examinar as ocorrências da palavra grega martureo (nº 3140 no dicionário Strongs; significa “testificar”, “recomendar”), vemos que o Espírito Santo apresenta um retrato muito interessante de Deus testificando a respeito de Seus servos. Esta palavra é usada na Bíblia toda setenta e nove vezes; homens testificam de homens, Deus testifica de Seu Filho, etc. Mas somente três vezes ela é usada para falar de Deus testificando de algum ser humano. E nestas três ocorrências vemos o servo de Deus quanto ao passado, o presente e o porvir.

O passado (At 15:8) — aptidão

Quando Deus salvou os gentios na casa de Cornélio, Pedro disse que “Deus lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; e não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé”. Ao lhes dar o Espírito Santo, Deus reconhecia publicamente, perante o preconceito judaico, que os gentios estavam aptos a servir ao Deus de Israel.

Sendo salvo, posso olhar para trás, para o dia da conversão, e agradecer a Deus por ter me dado o direito e a aptidão necessários para servi-lO. De servo do pecado, fui transformado em servo de Deus, e agora estou apto a servir ao Senhor.

O presente (At 13:22) — aspiração

Depois de Saul, o homem segundo coração do povo, Deus apresentou o Seu rei, o homem segundo o Seu coração, Davi, e “deu testemunho, e disse: Achei a Davi, … que executará toda a Minha vontade”. Ao escolher Davi, Deus declarou publicamente que este homem tinha o desejo sincero de fazer toda a vontade de Deus. Ele não era perfeito (o relato da Bíblia deixa isto bem claro), mas o anelo da sua alma, o anseio do seu coração e a aspiração deste servo era fazer toda a vontade de Deus.

Tenho o direito de servir a Deus: será que tenho, como Davi, o desejo?

O porvir (Hb 11:4) — aprovação

Depois que Abel morreu, Deus inspirou o escritor da epístola aos Hebreus a registrar o testemunho de Deus quanto aos dons de Abel (isto é, quanto àquilo que Abel ofereceu a Deus). Abel morreu, mas depois de morto, ele ainda fala. Deus publicamente testificou que o sacrifício de Abel, fruto da sua fé, foi aprovado e recebido por Ele.

Um dia o Senhor irá avaliar o meu serviço também. Ele, que me deu o direito de servi-lO, que sabe se tenho ou não o desejo de servi-lO, Ele irá dizer se tive ou não discernimento ao servi-lO. Ele provará o serviço que fiz para Ele pelo fogo da Sua Palavra (I Co 3:10-15); qual será o resultado?

Ele me fez apto para este serviço; Ele é a inspiração para a minha fraca aspiração; que Ele possa aprovar o meu e o seu serviço naquele dia, dando testemunho dos nossos dons.

© W. J. Watterson

Gideão (1969, conferência em Belfast, Irlanda do norte)

Mensagem dada pelo irmão C. Goldfinch   Podemos, por favor, abrir a Bíblia no livro de Juízes, no capítulo 6, versículo 16? A história d...