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Monday, 23 August 2021
O Senhor Jesus é Jeová
O texto abaixo é a íntegra do livreto de mesmo título publicado pela Editora Sã Doutrina.
Wednesday, 9 September 2020
Meditações na quarentena (142 a 154)
Setembro
Desde o dia 21 de Março de 2020 a igreja local em Pirassununga esteve impossibilitada de reunir publicamente, devido à quarentena decretada no estado de São Paulo. Durante este período tenho enviado aos irmãos e irmãs da igreja local pequenas mensagens de texto para nosso ânimo mútuo. Postarei estas mensagens abaixo — talvez ajudem mais alguém.[Atualização em 16/08] Em Junho voltamos a reunir (apenas duas reuniões por semana, com muitas restrições). Precisamos para novamente em Julho, e reiniciamos logo depois. Menos de metade da igreja está podendo reunir, por isso as Meditações continuam, enquanto Deus permitir que esta situação permaneça.
Sunday, 2 August 2020
Meditações na quarentena (111 a 141)
Agosto
Desde o dia 21 de Março de 2020 a igreja local em Pirassununga está impossibilitada de reunir publicamente, devido à quarentena decretada no estado de São Paulo. Durante este período tenho enviado aos irmãos e irmãs da igreja local pequenas mensagens de texto para nosso ânimo mútuo. Postarei estas mensagens abaixo — talvez ajudem mais alguém.[Atualização em 16/08] Em Junho voltamos a reunir (apenas duas reuniões por semana, com muitas restrições). Precisamos para novamente em Julho, e reiniciamos logo depois. Menos de metade da igreja está podendo reunir, por isso as Meditações continuam, enquanto Deus permitir que esta situação permaneça.
Sunday, 26 July 2020
Meditações na quarentena (80 a 110)
Julho
Desde o dia 21 de Março de 2020 a igreja local em Pirassununga está impossibilitada de reunir publicamente, devido à quarentena decretada no estado de São Paulo. Durante este período tenho enviado aos irmãos e irmãs da igreja local pequenas mensagens de texto para nosso ânimo mútuo. Postarei estas mensagens abaixo — talvez ajudem mais alguém.Meditações na quarentena (51 a 79)
Junho
Desde o dia 21 de Março de 2020 a igreja local em Pirassununga está impossibilitada de reunir publicamente, devido à quarentena decretada no estado de São Paulo. Durante este período tenho enviado aos irmãos e irmãs da igreja local pequenas mensagens de texto para nosso ânimo mútuo. Postarei estas mensagens abaixo — talvez ajudem mais alguém.Meditações na quarentena (20 a 50)
Maio
Desde o dia 21 de Março de 2020 a igreja local em Pirassununga está impossibilitada de reunir publicamente, devido à quarentena decretada no estado de São Paulo. Durante este período tenho enviado aos irmãos e irmãs da igreja local pequenas mensagens de texto para nosso ânimo mútuo. Postarei estas mensagens abaixo — talvez ajudem mais alguém.Meditações na quarentena (01 a 19, 5 extras)
Março e Abril
Desde o dia 21 de Março de 2020 a igreja local em Pirassununga está impossibilitada de reunir publicamente, devido à quarentena decretada no estado de São Paulo. Durante este período tenho enviado aos irmãos e irmãs da igreja local pequenas mensagens de texto para nosso ânimo mútuo. Postarei estas mensagens abaixo — talvez ajudem mais alguém.
Wednesday, 3 October 2018
Associações eclesiásticas
Ou, por que não tenho liberdade para cooperar com as denominações.
Desde o século II desta era, quando os salvos começaram a se afastar da simplicidade institucional que caracterizava as igrejas locais da época do Novo Testamento, o povo de Deus tem sido caracterizado, lamentavelmente, por divisão. Sempre houve, em todas as épocas desde então até hoje, igrejas locais que continuavam reunindo unicamente ao nome do Senhor Jesus Cristo, mas sempre houve, também, muitos salvos reunindo em organizações humanas. Hoje, a quantidade destas organizações (que chamarei aqui “denominações”) aumenta constantemente, para vergonha nossa e confusão dos incrédulos.
Sunday, 30 September 2018
Cronologia da morte e ressurreição do Senhor
Observação: Apêndice de um estudo detalhado sobre as Sete Solenidades de Levítico cap. 23. As considerações abaixo só farão sentido se lembrarmos que o “dia” judaico começa com o pôr-do-sol. Assim o dia 14 de Nisan (dia da Páscoa) termina quando o Sol se põe (18h00 mais ou menos), e aquela noite já é considerada o dia 15.
Se tivéssemos apenas os evangelhos sinópticos, entenderíamos que quando a Ceia do Senhor foi instituída o Senhor Jesus participava da ceia da Páscoa com Seus discípulos, na mesma noite em que todos os judeus estariam celebrando esta festa. O cordeiro da Páscoa teria sido morto na tarde do dia 14, e naquela noite, 15 de Nisan, era celebrada a ceia da Páscoa; o Senhor seria crucificado na tarde do dia 15.
Sunday, 17 June 2018
As Sete Solenidades do Senhor
Levítico cap. 23 começa assim: “As solenidades do Senhor, que convocareis, serão santas convocações; estas são as Minhas solenidades”. Em seguida são listadas sete datas especiais que Israel deveria celebrar todo ano. Pode parecer só uma lista de festividades antigas, que não tem nada a nos ensinar — mas temos aqui um tesouro de ensino!
(Ouça uma série de pregações sobre este assunto clicando aqui)
(Ouça uma série de pregações sobre este assunto clicando aqui)
Friday, 11 March 2016
Pregações em áudio
Esta página contém links para algumas gravações de pregações feitas em diversos locais do Brasil, gravadas por outros irmãos e repassadas a mim depois. Quem sabe podem ser úteis a alguém.
Ao clicar em qualquer um dos links, abrirá uma janela com o arquivo de áudio. Será necessário clicar na seta para iniciar o áudio.
© W. J. Watterson
Ao clicar em qualquer um dos links, abrirá uma janela com o arquivo de áudio. Será necessário clicar na seta para iniciar o áudio.
As sete solenidades do Senhor em Levítico 23
Série de oito estudos sobre as solenidades de Levítico cap. 23, ministrados à igreja em Pirassununga numa série de sábados em 2018 (veja um esboço sobre este assunto, incluindo uma Tabela, clicando aqui).
As alianças
Série de cinco estudos sobre as alianças de Deus conosco, terminando com uma mensagem do Evangelho. O local foi Gama, o ano 2013.
Figuras das igrejas no Tabernáculo
Série de dez estudos ministrados em Gama em Junho de 2011
- 1º Estudo: introdução;
- 2º Estudo: o pátio;
- 3º Estudo: o altar de holocaustos;
- 4º Estudo: a pia;
- 5º Estudo: a mesa;
- 6º Estudo: o candeeiro (a);
- 7º Estudo: o candeeiro (b);
- 8º Estudo: o altar de incenso;
- 9º Estudo: o propiciatório;
- 10º Estudo: a arca da aliança.
O louvor do Cordeiro em Apocalipse
Estudo ministrado na conferência em Ibaté (SP) em 1º de Maio de 2009.Estudos sobre a inspiração da Bíblia
Quatro estudos ministrados na conferência em Gama (DF) durante os feriados do Carnaval em 2007.Gênesis 22
Estudo sobre Abraão oferecendo Isaque, ministrado na conferência em Gama (DF) durante os feriados do Carnaval em 2005.Não sabeis ...
Uma consideração da expressão “Vós não sabeis” usada pelo Senhor em relação aos discípulos sete vezes, em três contextos diferentes. Estudo ministrado na conferência em S. C. da Conceição (SP), em 12 de Outubro de 2005.As igrejas locais
Estudos sobre o conceito bíblico de "igreja", ministrados à igreja em Várzea Grande (MT) em 2003.- 1º Estudo: O que é uma igreja local.
- 2º Estudo: A igreja comparada a lavoura, edifício e templo.
- 3º Estudo: A igreja comparada a um pequeno rebanho.
- 4º Estudo: A igreja comparada a uma noiva pura.
© W. J. Watterson
Monday, 29 February 2016
Acrósticos (ii)
Da série “Figuras de linguagem na Bíblia”. Leia também:
Introdução
Assíndeto e Polissíndeto
Zeugma
Acróstico (i)
Introdução
Assíndeto e Polissíndeto
Zeugma
Acróstico (i)
Como vimos no primeiro artigo sobre acrósticos (veja links acima), a palavra “acróstico” pode ser definida como “composição poética em que cada verso principia por uma das letras da palavra que lhe serve de tema” (na verdade, apesar do acróstico formado por letras iniciais ser o mais comum, as letras que formam a palavra-tema podem ser também as letras finais ou até mediais).
Uma forma específica de acróstico é o acróstico alfabético, em que cada verso inicia com uma das letras do alfabeto, na ordem alfabética. Já consideramos doze acrósticos alfabéticos na Bíblia (em Salmos, Provérbios e Lamentações). Neste artigo apresento outra forma desta figura de linguagem: quatro acrósticos presentes no pequeno livro de Ester, cada um composto de quatro palavras que formam o nome “Jeová” (que, no hebraico, possui quatro letras). No final, ocupo um pouco de espaço para tratar de um aspecto deste estudo que não despertará interesse na maioria dos leitores, mas que precisa ser considerado: procuro responder à questão da validade destes acrósticos (serão mera coincidência, ou realmente confirmam a inspiração das Escrituras?).
O contexto do livro
O livro de Ester nos apresenta um remanescente de Israel ainda na terra do cativeiro. Quando o cativeiro cessou, cerca de 90% dos filhos de Israel continuaram na terra do seu cativeiro. Esdras e Neemias nos contam a história daqueles poucos que voltaram para Jerusalém, enquanto que Ester nos mostra a situação daqueles que não voltaram. É interessante contrastar este livro com Rute, o único outro livro da Bíblia que recebe o nome de uma mulher. Em Rute vemos como Deus exalta uma moça gentia no meio de Israel, enquanto que em Ester lemos como Deus exalta uma moça judia no meio dos gentios.Ester é um livro diferente, onde Deus nunca é mencionado, onde nunca lemos de sacrifícios, ou oração, ou ações de graças dirigidas a Deus. Como muitos já disseram, é o livro mais secular da Bíblia. Mas engana-se quem pensa que, por causa deste fato, Ester é um livro onde Deus não é visto ou apresentado. Pelo contrário, este pequeno livro mostra-nos a ação inconfundível de Deus, porém uma ação que não é atribuída diretamente a Ele. Para um incrédulo, Ester pode apresentar uma história emocionante de como, no momento mais escuro da noite, por meio de uma incrível “coincidência”, a luz raiou e o bem venceu o mal. Para aqueles que creem em Deus, porém, Ester nos mostra como Deus cuida do Seu povo mesmo quando este se esquece dEle.
Se neste livro o nome de Deus não é mencionado, a mão de Deus é claramente revelada. É o livro da Bíblia que confirma, mais claramente, o aviso dado por Deus a Moisés, de que quando o povo de Deus seguisse a idolatria Deus esconderia totalmente o Seu rosto deles (Dt 31:18), mas que jamais Se esqueceria deles (Lv 26:44-45).
Satanás estava agindo para destruir a nação de Israel por completo, usando para isto o “mau Hamã” (Et 7:6). Até o final do cap. 5, parece que ele conseguirá seu intento: Hamã está sendo engrandecido cada vez mais diante do rei, e seu ódio contra o povo de Deus também se multiplica, enquanto que a situação de Mardoqueu (que representa os judeus) se torna cada vez mais desesperadora. O mau Hamã se deita para dormir, naquela noite, satisfeito, planejando ver o rei cedo de manhã para pedir que Mardoqueu seja enforcado. Mas a partir do primeiro versículo do cap. 6, tudo muda. Tudo começa a dar errado para Hamã, e Ester e Mardoqueu vão de vitória em vitória. Antes que aquele dia termine, é Hamã, e não Mardoqueu, quem é pendurado na forca, e o livramento dos judeus se torna realidade.
Mas o que aconteceu naquela noite para mudar tão drasticamente os destinos de tantas pessoas, e da nação de Israel como um todo? Que acontecimento notável teve uma repercussão tão grande? O texto da Bíblia diz: “Naquela mesma noite fugiu o sono do rei …” Um detalhe aparentemente tão insignificante — �mas um detalhe que mudou completamente o rumo desta história. Deus, que controla todos os detalhes de todos os homens, interferiu no sono do rei para preservar o Seu povo.
Querido irmão, prezada irmã, a noite está escura? A situação tem piorado, a ponto de você não conseguir mais ter nenhuma esperança? Parece impossível haver livramento? Lembre que Deus está em controle! “Fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis” (I Co 10:13). Creia nisto. Deus não vai permitir que a provação ultrapasse o limite preestabelecido por Ele. Há uma linha traçada, e Deus diz ao inimigo: “Até aqui virás, e não passarás!” Entenda que todos os detalhes estão nas mãos de Deus, e Ele pode fazer o sono fugir de um rei, Ele pode alterar o destino de nações, Ele pode efetuar qualquer coisa que for necessária.
Os acrósticos formando “Jeová”
Se neste livro vemos Deus agindo “por trás dos panos” para livrar Seu povo, não deveria nos surpreender se Deus tivesse escondido o Seu nome neste livro. Desde a época dos massoretas[Nota 1] os judeus tem destacado, através de uma anotação no texto bíblico, quatro trechos do livro onde o nome “Jeová” é formado por acróstico (além de outra ocasião onde o acróstico formado é “Eu sou o que sou”; 7:5). Os quatro acrósticos são destacados no texto hebraico através do uso de letras maiores, e se encontram sempre em palavras consecutivas (e, a não ser pelo primeiro, formam uma frase completa em si mesma). Os quatro acrósticos estão destacados nas citações abaixo:- Dito por Memucã, um dos sete príncipes dos Persas: “E ouvindo-se o mandado, que o rei decretará em todo o seu reino (porque é grande), todas as mulheres darão honra a seus maridos, desde o maior até o menor” (1:20);
- Dito por Ester, a moça judia que se tornou rainha dos Persas: “Se parecer bem ao rei, venha hoje com Hamã ao banquete que lhe tenho preparado” (5:4);
- Dito por Hamã, o gentio inimigo dos judeus: “Porém tudo isto não me satisfaz enquanto eu vir o judeu Mardoqueu assentado à porta do rei” (5:13);
- Dito pelo escritor inspirado, judeu: “… e Hamã se pôs em pé para rogar à rainha Ester pela sua vida; porque viu que já o mal lhe estava determinado pelo rei” (7:7)
Considere algumas peculiaridades destes quatro acrósticos. Cada um dos acrósticos tem uma construção diferente. O primeiro é formado pelas letras iniciais das quatro palavras usadas, mas tomando-se as palavras de trás para frente[Nota 2]; o segundo é igualmente formado pelas letras iniciais, mas agora na sequência normal das palavras; o terceiro é formado pelas letras finais das palavras, tomando-se as palavras de trás para frente; enquanto que o quarto é formado pelas letras finais (como o terceiro), mas agora na sequência normal das palavras. Ou seja, os primeiros dois formam um par, pois o nome “Jeová” é formado pelas letras iniciais das palavras usadas, e os últimos dois formam outro par, pois o nome “Jeová” é formado pelas letras finais das palavras usadas. Podemos formar outro par com o primeiro e o terceiro acróstico, pois eles formam o nome “Jeová” de trás para frente; igualmente o segundo e o quarto acróstico formam um par, pois o nome “Jeová” é soletrado da forma comum. Uma tabela pode ajudar a esclarecer estas peculiaridades dos acrósticos:
A tabela acima ajuda a ver que nos dois acrósticos onde a ordem é invertida temos palavras de gentios, enquanto que nos dois acrósticos onde a ordem normal é mantida temos palavras de judeus.
Sugiro (e tentarei provar logo a seguir) que estes quatro acrósticos não são fruto do alinhamento aleatório de letras no texto, mas que foram propositadamente deixados ali pelo Senhor mesmo, confirmando a Sua inspiração da Bíblia e deste lindo livro de Ester. Ao estudar este livro, creio que estas quatro frases destacadas pelos acrósticos merecem atenção especial, mostrando como Deus agiu na vida de Ester (no caso dos primeiros dois acrósticos) e na vida de Hamã (no caso dos últimos dois) para preservar o Seu povo. Poderia parecer que o mal estava prestes a vencer, e o povo de Deus prestes a ser exterminado: mas nada pode se opor aos propósitos de Deus. Assim como Ele fez Nabucodonosor perder seu sono cento e trinta anos antes, para corrigir a ignorância do rei quanto aos propósitos de Deus (Dn 2:1); assim como Ele tirou o sono de Dario, cerca de sessenta anos antes de Assuero, para corrigir a injustiça dos homens contra o profeta Daniel (Dn 6:18); assim também lemos em Ester 6:1 que “naquela mesma noite [a hora “h” da história de Ester] fugiu o sono do rei” (Et 6:1). Foi Deus quem fez isto, para corrigir a impiedade de Hamã contra Seu povo.
Que verdade preciosa. Até o sono dos reis está nas mãos do nosso Deus. Que digamos com o Salmista: “Em paz também me deitarei e dormirei, porque só Tu, Senhor, me fazes habitar em segurança” (Sl 4:8).
A importância destes acrósticos
As linhas abaixo só devem atrair quem realmente se interessa pelos aspectos técnicos deste assunto. Prossiga por sua própria conta e risco!Não há dúvida que existem quatro acrósticos formando o nome “Jeová” em Ester — mas qual a importância disto? Para alguns, nenhuma (pois afirmam que tais acrósticos são extremamente comuns, não só na Bíblia como em outras literaturas); para outros, são uma prova extremamente rara da inspiração da Bíblia (pois afirmam que tais acrósticos só ocorrem aqui na Bíblia). Quero sugerir que a realidade fica entre estes dois extremos.
Há muitos que não dão importância nenhuma a estes acrósticos, afirmando que, num texto relativamente longo (como a Bíblia), a probabilidade de acrósticos de palavras pequenas serem formados aleatoriamente é muito grande. Por exemplo, após escrever o parágrafo anterior, passei os olhos por cima do texto procurando algum acróstico, e encontrei a palavra “perdi” na frase “Prova Extremamente Rara Da Inspiração”. Não planejei, muito menos previ, isto; foi mera coincidência. Tenho, portanto, que admitir este fato: quanto maior o texto considerado, maior a probabilidade de se encontrar um grupo de palavras em sequência cujas letras iniciais (ou finais) formem outra palavra (principalmente palavras pequenas).
Devido a este fato inegável, alguns desprezam os acrósticos em Ester. L. A. Turner, em Desperately seeking YHWH: Finding God in Esther’s Acrostics, afirma: “Acrósticos do nome divino não são únicos a Ester. Na verdade, são corriqueiros [na Bíblia]”. No mesmo tratado ele cita F. B. Huey, do Expositor’s Bible Commentary, que afirma que “ninguém leva a sério estes detalhes rabínicos hoje em dia”. Turner termina seu tratado afirmando, com convicção: “Procuram pelo Senhor aqui. Procuram pelo Senhor ali. Mas nos acrósticos de Ester, procuram em vão.” O pensamento dele representa o pensamento predominante entre os estudiosos de Ester.
Por outro lado, há muitos comentários sobre Ester que afirmam categoricamente que os acrósticos em Ester são únicos (ou extremamente raros) na Bíblia. R. Graham, por exemplo, na revista Forerunner (Abril de 1999), afirma: “Acrósticos, especialmente aqueles que formam o nome de Deus, são extremamente raros. Na verdade, os copistas judeus tomavam muito cuidado para não formarem um acróstico acidental com o nome divino”. Don Curtis, num texto publicado em bible.org (23. Esther – Irony and Providence) afirma: “Que eu saiba, nenhum outro acróstico semelhante ocorre no Velho Testamento”.
Tais afirmações, porém, parece que foram feitas sem o cuidado de serem devidamente verificadas primeiro. Uma pesquisa do assunto indicará que:
- Acrósticos do nome de Deus são relativamente comuns no texto hebraico do VT;
- Acrósticos do nome de Deus são relativamente raros em outras versões do VT.
Acrósticos de Deus no VT
Tanto Turner (citado acima) quanto Frank Nelte (franknelte.net) pesquisaram o texto hebraico do VT e chegaram a conclusões praticamente idênticas (Nelte identificou um acróstico a mais do que Turner, num total de cento e vinte e um). Estas ocorrências estão listadas abaixo, e são prova suficiente de que os quatro acrósticos em Ester não são únicos nas Escrituras.- Acrósticos formados pelas letras iniciais, na ordem inversa (34 ocorrências): Gn 11:9; Êx 4:16; Lv 8:15; 9:9; 21:22; Nm 1:51; 5:18; 19:12; Dt 10:7; 20:8; Js 2:15; 11:16; 18:28; 24:18; Rt 1:21; II Sm 18:4; I Rs 18:3; II Rs 7:2; I Cr 27:30; II Cr 23:6; Et 1:20; Sl 18:8; 96:11; Ec 3:17; 10:20; Is 30:26; 35:2; 45:20; Jr 31:7; 33:20; Ez 46:1; Dn 12:1; Zc 1:5; 8:19.
- Letras iniciais, na ordem normal (24 ocorrências): Gn 19:25; Êx 4:14; Nm 13:32; Dt 11:2; II Sm 18:4; I Rs 7:12; 8:42; 18:37; II Rs 10:1; I Cr 5:12; 8:39; 16:31; 18:8; 22:18; 23:11, 19; 26:4; II Cr 20:34; 26:11; 27:3; Et 5:4; Sl 96:11; Is 45:18; Ez 46:1.
- Letras finais, na ordem inversa (25 ocorrências): Gn 24:58; 49:31; Êx 4:3; 16:7; 25:23; 37:10; Lv 8:29; Nm 13:30; 24:13; Js 19:47; 24:27; Jz 14:2; I Sm 20:21; II Sm 15:14; I Cr 21:17; Es 8:19; Et 5:13; Sl 106:1; Is 16:3; Jr 48:2; 49:19; 50:15, 29; Lm 3:33; Ez 1:27.
- Letras finais, na ordem normal (38 ocorrências): Gn 12:15; 19:13; 38:7; 43:10; Êx 3:13; 16:22; Nm 5:12; Dt 24:5; 30:12; 31:29; Js 10:18; Jz 16:16; 19:24; 20:18, 41; II Sm 18:3; I Rs 13:26; 16:7; I Cr 23:17; Et 7:7; Sl 57:7; 73:15; 107:24; 115:11; Is 16:3; 33:22; Jr 9:11, 17; 15:19; 49:19; 51:31; Ez 23:8; 30:2; 31:15; Os 11:10; Jl 2:7, 17; Zc 9:17.
Acrósticos de Deus em outros textos
Fica claro, portanto, que acrósticos formando o nome “Jeová” são relativamente comuns no texto hebraico do VT. Mas isto justifica a conclusão de Turner, de que estes acrósticos não tem nenhum significado? Se procurarmos estes acrósticos em outros textos do VT, o que encontraremos?Fiz as seguintes pesquisas, usando os textos da Online Bible, e procurando usar palavras de quatro letras cada (como “Jeová” em hebraico):
Texto em inglês do VT, versão KJV:
- “Lord” (“Senhor”) letras iniciais, ordem normal = 0;
- “Lord” (“Senhor”) letras finais, ordem normal = 6;
- “Lord” (“Senhor”) letras iniciais, ordem inversa = 0;
- “Lord” (“Senhor”) letras finais, ordem inversa = 2;
Texto em português do VT, versão da S. B. Trinitariana:
- “Deus” letras iniciais, ordem normal = 0;
- “Deus” letras finais, ordem normal = 0;
- “Deus” letras iniciais, ordem inversa = 6;
- “Deus” letras finais, ordem inversa = 0;
Acrescento a estas oito pesquisas a afirmação de Nelte de que sua pesquisa por acrósticos da palavra “theos” (“Deus”) no texto grego do NT (formados pelas letras iniciais das palavras) não encontrou nenhum resultado.
Reconheço que estas nove pesquisas (quatro no texto da KJV, quatro no texto da Trinitariana, e um no texto grego) não resolvem a questão do ponto de vista estatístico. Mas todas apresentam resultados muito inferiores aos resultados vistos no texto hebraico.
Só consigo pensar em duas explicações para esta diferença: ou a língua hebraica favorece o surgimento de acrósticos aleatórios num grau muito acima do grego, inglês e português (algo difícil de se acreditar e que, até que provem o contrário, inadmissível), ou então estes acrósticos foram colocados ali intencionalmente.
Conclusão
Bem, o que tudo isto nos sugere sobre os acrósticos encontrados em Ester? São mera coincidência, ou foram deixados ali propositadamente pelo Senhor?Devido a quantidade grande de acrósticos semelhantes a estes no resto do VT (cento e dezessete, mais os quatro em Ester), não posso afirmar que são uma característica única deste pequeno livro, colocados ali para suprir a ausência de referências claras ao nome de Deus. Temos que admitir que acrósticos com o nome de Deus são comuns no VT, e Ester não é um caso à parte neste assunto.
Por outro lado, devido à dificuldade de encontrar acrósticos semelhantes a estes até nas traduções do próprio VT para outras línguas, não tenho coragem de dizer que são mera coincidência. Não creio que querem dizer o que muitos afirmam (uma “assinatura escondida” num livro que não usa o nome de Deus), mas creio que foram colocados ali pelo Senhor mesmo, e que devem ser notados ao estudarmos o livro de Ester. Este é o único livro do VT que contém exatamente uma de cada das quatro variações deste acróstico.
Apresento abaixo algumas tabelas para quem quiser prosseguir este estudo (repare como estes acrósticos são, relativamente, mais comuns em Joel do que em qualquer outro livro do VT). Aceito sugestões, acréscimos e correções ao que expus acima.
Notas de rodapé
Nota 1: Os mais antigos manuscritos do Velho Testamento têm, além do texto das Escrituras (em duas ou mais colunas), diversas linhas escritas em letras menores, nas margens superior e inferior e nas laterais de cada página. Estas notas (que não fazem parte do texto original das Escrituras) são chamadas de Massorá. Foram compiladas pelos massoretas (eruditos judeus que viveram mais ou menos do século VI ao X) com a finalidade de evitar erros nas cópias das Escrituras. Estas notas não são comentários ou explicações sobre o texto, mas fatos e detalhes: a quantidade de palavras e a palavra central de cada livro, ocorrências de certas palavras, etc. Cada vez que o VT era copiado por um escriba, a cópia era verificada através dos dados da Massorá, e se houvesse alguma discrepância, a cópia era destruída integralmente!↩Nota 2: Lembre que no hebraico as palavras são escritas da direita para a esquerda, diferentemente de como escrevemos no mundo ocidental. Quando me refiro a “letras iniciais”, “letras finais”, “sequência normal” das palavras e “de trás para frente”, estou falando do ponto de vista da escrita hebraica (isto é, daquilo que seria normal para eles, e daquilo que seria a ordem inversa para eles).↩
© W. J. Watterson
Wednesday, 4 February 2015
Pontualidade nas pregações
Há certa divergência de opinião entre os cristãos nas igrejas locais quanto à questão de encerrar as reuniões no horário ou não. Conheço irmãos espirituais e sinceros que entendem que deve haver liberdade para o Espírito Santo guiar nas reuniões, e por isso não devemos nos preocupar se o pregador passa cinco minutos do horário (ou quinze, ou trinta). Quero sugerir, porém, que o ensino dado em I Coríntios cap. 14 apresenta alguns princípios que devem ser levados em conta quanto a este assunto, e estes princípios deixam claro que, exceções à parte, é importante cumprirmos o que foi prometido, e não ultrapassarmos o horário estabelecido para o fim da reunião.
Aquele capítulo é o único trecho nas epístolas, creio eu, que discorre sobre o funcionamento prático de uma reunião de uma igreja local, então é fundamental considerar atentamente o que ele diz. Antes de olhar para aquele trecho, porém, convém deixar claro que estou pensando em situações onde a reunião tem um horário estabelecido para terminar (que é o normal aqui no Brasil). Se alguma igreja local entender que suas reuniões terão um horário para começar, mas nenhum horário previsto para terminar, obviamente a decisão dela está fora do assunto deste pequeno artigo.
Também quero enfatizar que não há nenhuma regra estabelecida na Palavra de Deus quanto ao tempo de duração das reuniões de uma igreja. Temos por convenção, aqui no Brasil, que uma reunião durará uma hora, mas isto não é uma regra (a reunião no domingo de manhã aqui em Pirassununga tem horário previsto de uma hora e meia; nas reuniões especiais que fazemos uma vez por ano, duas horas cada período). Portanto, não estou defendendo neste artigo que toda reunião deve durar uma hora, mas simplesmente que toda reunião que tem horário estabelecido para terminar, deve terminar dentro deste horário.
Quero apresentar algumas razões porque devemos ser zelosos neste aspecto, e depois considerar alguns argumentos contrários que costumam ser apresentados.
Além disto, devemos pensar naqueles que estão nos ouvindo. Eu não conheço as circunstâncias de cada um que está presente. Pode haver alguém que precisa pegar um ônibus, uma mulher que precisa preparar a janta para o marido incrédulo, etc. Quando ultrapasso o horário que havia sido combinado, posso estar atrapalhando os planos de muitos dos meus ouvintes.
Quando há outros que irão falar depois de mim, devo também preocupar-me em não ser egoísta, roubando tempo do meu irmão.
Entendo este argumento; mas não devemos esquecer que em I Coríntios 14:27-40 o próprio Espírito colocou limites diante de todo aquele que deseja falar nas reuniões das igrejas locais. Quem tinha dom de línguas somente poderia se levantar se houvesse um intérprete; a quantidade de profetas que falariam é limitada (“dois ou três”, v. 29), e se um profeta recebesse uma revelação enquanto outro estava falando, deveria esperar o primeiro terminar, e depois se pronunciar. As irmãs também são instruídas a não falarem nas reuniões. Diz o v. 32 que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”. Alguns podem ter a ideia de que a “liberdade do Espírito” quer dizer que devemos falar tudo que vem ao nosso coração para dizer. Mas não podemos falar isto quando lembramos que nosso coração é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Devemos lembrar do ensino dado no começo do capítulo: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento” (v. 15).
Considerando todos estes detalhes, veremos que aquele que se levanta para falar em público deve estar consciente de ser guiado pelo Espírito Santo, mas que esta direção não será prejudicada pelo fato dele estar atento a certas regras e limites. Ser guiado pelo Espírito Santo não é perder noção do tempo: é falar com sinceridade tudo aquilo que Deus nos revelou previamente, mas com decência e com ordem.
Outro argumento apresentado contra estas coisas é que os salvos não deveriam se importar em ficar mais tempo ouvindo a Palavra de Deus. Concordo; mas quando um grupo de cristãos está ouvindo a Palavra de Deus ministrada por outro irmão, há tantas variáveis nesta equação! Será que o pregador está em plena sintonia com o Senhor? Será que todos os ouvintes estão recebendo a palavra dele, como sendo a palavra do Senhor? Cada coração presente (do pregador e de cada ouvinte) é uma variável que só o Senhor conhece. Quando eu prego, preciso lembrar que sou falho e limitado, e muitos dos meus ouvintes estão na mesma situação. Insistir em ir até o final daquilo que eu pretendia falar talvez não será proveitoso. O espírito, na verdade, pode estar pronto, mas a carne é fraca.
Antes da pregação ele deve pensar no tempo que provavelmente terá ao seu dispor, e levar isto em consideração ao estudar o assunto ou trecho que pretende expor.
Enquanto prega, ele deve estar atento à passagem do tempo. Se ele prega sem esboços e anotações (que, por sinal, sugiro ser a prática ideal), é bem possível que ele gaste mais tempo num determinado tópico do que pensava, conforme o Espírito Santo vai trazendo à memória dele versículos conhecidos, ou paralelos e aplicações já estudadas, mas que ele não tinha intenção de apresentar naquela reunião. Se isto ocorrer, ele terá que abreviar algum outro tópico (ou deixá-lo para outra ocasião).
Quando o final da reunião se aproxima (se ele for o último a pregar), ele deve lembrar que possivelmente algum irmão queira escolher um hino, e que certamente seria bom encerrar a reunião com oração. Ele deve, portanto, deixar tempo suficiente para isto. Se ele não conseguiu falar tudo que pretendia falar, ele pode lembrar que já falou bastante, e que mais importante do que falar tudo que pretendia falar, é falar alguma coisa que será proveitosa.
Que cada pregador seja consciente das limitações do ser humano (que afetam cada ouvinte, e afetam ele também), e mostrar consideração pelos seus ouvintes em manter-se dentro do horário estabelecido. Que cada ouvinte seja paciente com o pregador que abusa do horário, procurando concentrar-se na palavra anunciada. E que Deus apresse o dia glorioso quando estaremos na presença dEle, e todos transformados, poderemos nos ocupar inteiramente com Ele, livres das fraquezas e falhas desta carne (e dos relógios).
Terei prazer em receber comentários à favor ou contra o que expus aqui, lembrando sempre que toda regra tem exceção.
© W. J. Watterson
Aquele capítulo é o único trecho nas epístolas, creio eu, que discorre sobre o funcionamento prático de uma reunião de uma igreja local, então é fundamental considerar atentamente o que ele diz. Antes de olhar para aquele trecho, porém, convém deixar claro que estou pensando em situações onde a reunião tem um horário estabelecido para terminar (que é o normal aqui no Brasil). Se alguma igreja local entender que suas reuniões terão um horário para começar, mas nenhum horário previsto para terminar, obviamente a decisão dela está fora do assunto deste pequeno artigo.
Também quero enfatizar que não há nenhuma regra estabelecida na Palavra de Deus quanto ao tempo de duração das reuniões de uma igreja. Temos por convenção, aqui no Brasil, que uma reunião durará uma hora, mas isto não é uma regra (a reunião no domingo de manhã aqui em Pirassununga tem horário previsto de uma hora e meia; nas reuniões especiais que fazemos uma vez por ano, duas horas cada período). Portanto, não estou defendendo neste artigo que toda reunião deve durar uma hora, mas simplesmente que toda reunião que tem horário estabelecido para terminar, deve terminar dentro deste horário.
Quero apresentar algumas razões porque devemos ser zelosos neste aspecto, e depois considerar alguns argumentos contrários que costumam ser apresentados.
Por quê?
A principal razão para não ultrapassar o horário estabelecido é a instrução clara de I Co 14:40: “Faça-se tudo decentemente e com ordem”. Ser pontual nos horários de começar e encerrar é uma questão de ordem, de fazer as coisas ordeiramente, enquanto que desrespeitar o horário estabelecido para começar ou encerrar a reunião é sintoma de desorganização e falta de ordem. Meu pai (nunca me lembro dele passando do horário nas muitas pregações que fez) costumava dizer: “Devemos ser homens de palavra, inclusive na questão do cumprimento do horário”.Além disto, devemos pensar naqueles que estão nos ouvindo. Eu não conheço as circunstâncias de cada um que está presente. Pode haver alguém que precisa pegar um ônibus, uma mulher que precisa preparar a janta para o marido incrédulo, etc. Quando ultrapasso o horário que havia sido combinado, posso estar atrapalhando os planos de muitos dos meus ouvintes.
Quando há outros que irão falar depois de mim, devo também preocupar-me em não ser egoísta, roubando tempo do meu irmão.
Mas …
Por outro lado, dizem alguns, não é bom que o pregador seja limitado; ele deve ter liberdade para falar como (e por quanto tempo) o Espírito o guiar. Uma preocupação excessiva com o relógio pode tolher esta liberdade.Entendo este argumento; mas não devemos esquecer que em I Coríntios 14:27-40 o próprio Espírito colocou limites diante de todo aquele que deseja falar nas reuniões das igrejas locais. Quem tinha dom de línguas somente poderia se levantar se houvesse um intérprete; a quantidade de profetas que falariam é limitada (“dois ou três”, v. 29), e se um profeta recebesse uma revelação enquanto outro estava falando, deveria esperar o primeiro terminar, e depois se pronunciar. As irmãs também são instruídas a não falarem nas reuniões. Diz o v. 32 que “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas”. Alguns podem ter a ideia de que a “liberdade do Espírito” quer dizer que devemos falar tudo que vem ao nosso coração para dizer. Mas não podemos falar isto quando lembramos que nosso coração é enganoso, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Devemos lembrar do ensino dado no começo do capítulo: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento” (v. 15).
Considerando todos estes detalhes, veremos que aquele que se levanta para falar em público deve estar consciente de ser guiado pelo Espírito Santo, mas que esta direção não será prejudicada pelo fato dele estar atento a certas regras e limites. Ser guiado pelo Espírito Santo não é perder noção do tempo: é falar com sinceridade tudo aquilo que Deus nos revelou previamente, mas com decência e com ordem.
Outro argumento apresentado contra estas coisas é que os salvos não deveriam se importar em ficar mais tempo ouvindo a Palavra de Deus. Concordo; mas quando um grupo de cristãos está ouvindo a Palavra de Deus ministrada por outro irmão, há tantas variáveis nesta equação! Será que o pregador está em plena sintonia com o Senhor? Será que todos os ouvintes estão recebendo a palavra dele, como sendo a palavra do Senhor? Cada coração presente (do pregador e de cada ouvinte) é uma variável que só o Senhor conhece. Quando eu prego, preciso lembrar que sou falho e limitado, e muitos dos meus ouvintes estão na mesma situação. Insistir em ir até o final daquilo que eu pretendia falar talvez não será proveitoso. O espírito, na verdade, pode estar pronto, mas a carne é fraca.
Conclusão
Quando reunimos com um horário estabelecido para iniciar e encerrar a reunião, é bom sermos zelosos em respeitar estes horários. Certamente toda regra tem sua exceção, mas quero sugerir que todo pregador deve lembrar que tudo deve ser feito decentemente e com ordem, e que uma atitude relaxada da parte dele pode comprometer o aproveitamento do ensino transmitido.Antes da pregação ele deve pensar no tempo que provavelmente terá ao seu dispor, e levar isto em consideração ao estudar o assunto ou trecho que pretende expor.
Enquanto prega, ele deve estar atento à passagem do tempo. Se ele prega sem esboços e anotações (que, por sinal, sugiro ser a prática ideal), é bem possível que ele gaste mais tempo num determinado tópico do que pensava, conforme o Espírito Santo vai trazendo à memória dele versículos conhecidos, ou paralelos e aplicações já estudadas, mas que ele não tinha intenção de apresentar naquela reunião. Se isto ocorrer, ele terá que abreviar algum outro tópico (ou deixá-lo para outra ocasião).
Quando o final da reunião se aproxima (se ele for o último a pregar), ele deve lembrar que possivelmente algum irmão queira escolher um hino, e que certamente seria bom encerrar a reunião com oração. Ele deve, portanto, deixar tempo suficiente para isto. Se ele não conseguiu falar tudo que pretendia falar, ele pode lembrar que já falou bastante, e que mais importante do que falar tudo que pretendia falar, é falar alguma coisa que será proveitosa.
Que cada pregador seja consciente das limitações do ser humano (que afetam cada ouvinte, e afetam ele também), e mostrar consideração pelos seus ouvintes em manter-se dentro do horário estabelecido. Que cada ouvinte seja paciente com o pregador que abusa do horário, procurando concentrar-se na palavra anunciada. E que Deus apresse o dia glorioso quando estaremos na presença dEle, e todos transformados, poderemos nos ocupar inteiramente com Ele, livres das fraquezas e falhas desta carne (e dos relógios).
Terei prazer em receber comentários à favor ou contra o que expus aqui, lembrando sempre que toda regra tem exceção.
© W. J. Watterson
Tuesday, 4 November 2014
Acróstico (i)
Da série “Figuras de linguagem na Bíblia”. Leia também:
Existem três livros da Bíblia que contém acrósticos alfabéticos: o livro de Salmos contém sete destes acrósticos, Provérbios contém um (a descrição da mulher virtuosa no cap. 31), e Lamentações contém quatro.
É interessante e instrutivo examinar estas passagens das Escrituras, e apreciar a beleza da composição poética do livro divino. Antes, porém, precisamos formalizar uma pergunta que certamente passa pela mente da maioria de nós: por que Deus inclui estes detalhes na Sua Palavra? Alguns dirão que é mera coincidência, ou algo que não tem valor algum para nossa vida prática. “O que me interessa saber se a descrição da mulher virtuosa em Provérbios 31 é na forma de acróstico ou não?” pergunta o cristão prático; “O que importa são as lições espirituais do trecho, não a sua forma poética!”
Não há dúvida que o ensino das Escrituras é o principal; mas afirmar isto não responde à pergunta feita acima: por que Deus inclui tantos ornamentos linguísticos e estruturais na Sua Palavra? Antes de responder apressadamente à pergunta acima, repare que podemos ver o mesmo princípio divino [veja Nota 1] em outras áreas. Pense, por exemplo, na Criação. O ato de criar seguiu uma ordem bela e perfeita [veja Nota 2]; e essa simetria bela tem como única função (ao que me parece) ornamentar e embelezar. Deus criou as coisas nesta ordem não porque precisava ser assim, mas simplesmente porque Ele quis nos mostrar a beleza da ordem divina. Os luzeiros poderiam ter sido criados no segundo dia, por exemplo. Mas Deus, além de fazer um Universo perfeitamente funcional, o fez também seguindo um processo perfeitamente ordeiro.
Não só o ato de Criação, mas também a própria Criação manifesta esta ordem — o Universo, criado num processo tão belo e simétrico, é um Universo lindo. É perfeitamente funcional, mas é também perfeitamente lindo. As estrelas, os rios, o pôr-do-sol, as flores e os beija-flores — tudo é extremamente belo!
Assim também com a Palavra de Deus, um livro que revela perfeitamente a vontade de Deus, e que o faz duma forma tão bela. Deus escondeu muitas joias na Sua Palavra, algumas bem na superfície, outras mais escondidas. Quanto mais lemos a Bíblia, mais chegamos a essa conclusão: é um livro perfeito na sua funcionalidade e utilidade, mas também um livro perfeitamente belo, repleto de joias que mostram a beleza da ordem divina. Como diz o Salmo 19, a Criação manifesta a glória de Deus (vs. 1-6), e o Seu livro é igualmente perfeito (vs. 7-11).
Voltando à pergunta repetida acima: por que Deus inclui estes acrósticos na Sua Palavra? Não tenho certeza; talvez foi para dar um selo de autenticação divina a este livro; talvez foi para aquecer nossos corações e fazê-los transbordar em louvor a Ele. Não tenho certeza; mas tenho certeza que foi Ele próprio quem acrescentou estas pinceladas de beleza divina a este livro perfeitamente funcional. E se Ele assim fez, não posso deixar de procurar estas pinceladas. Não posso desprezar o que Ele achou por bem fazer.
Minha intenção em destacar estas coisas é estimular cada salvo a dedicar-se, mais e mais, ao estudo deste livro sublime. Como outros já disseram, este livro é tão claro que uma criança entende sua mensagem, mas é também tão profundo e cheio de perfeições que a mente mais privilegiada jamais ficará entediada diante deste vasto mar de sabedoria.
“Tenho visto fim [“limite”, RC] a toda a perfeição, mas o Teu mandamento é amplíssimo” (Sl 119:96).
Salmos acrósticos
Já mencionei que há sete Salmos acrósticos (alfabéticos), que podem ser divididos em dois grupos: quatro Salmos tem uma estrutura perfeita (Salmos 37, 111, 112 e 119), enquanto outros três tem uma estrutura alfabética bem visível, mas irregular (Salmos 25, 34 e 145). Esta divisão de grupos de sete em quatro e três (e não cinco e dois, ou seis e um) é extremamente comum na Bíblia, e testifica da sua perfeição. Convém acrescentar que muitos comentaristas consideram que os Salmos 9 e 10 formam, juntos, outro acróstico (porém com sete letras omitidas).Salmo 37
A estrutura alfabética deste Salmo é destacada na ilustração abaixo.Salmos 111 e 112
Um exemplo notável da beleza dos acrósticos bíblicos são os Salmos 111 e 112. Ambos contém dez versículos, mas vinte e dois versos (no sentido poético — uma linha de um poema). Cada um desses vinte e dois versos começa com uma letra do alfabeto hebraico (que só tem vinte e duas letras, diferentemente do nosso alfabeto), e na ordem exata do alfabeto (veja a ilustração abaixo).Com isso percebemos que os dois salmos formam um par, e devem ser estudados juntos. Olhando mais de perto, percebemos que o Salmo 111 descreve Deus (Seu caráter e Sua conduta), enquanto que o Salmo 112 descreve o servo de Deus (seu caráter e sua conduta). Ambos os salmos começam com “Louvai ao Senhor” (literalmente, “Aleluia”), depois seguem um paralelo impressionante, que o leitor atento poderá ver comparando os dois salmos na ilustração abaixo. Olhe com cuidado para os salmos, e veja como o caráter e a conduta do servo de Deus devem refletir o caráter e a conduta do Seu Senhor.
Na ilustração também são destacadas duas palavras hebraicas diferentes que indicam coisas eternas: ‘ad e olam. Cada uma destas palavras ocorre três vezes no Sl 111 e duas vezes no Sl 112. Vale a pena estudar estas ocorrências.
Salmo 119
Quero destacar a estrutura perfeita deste salmo, sua extensão prolongada, e sua exposição profunda da Palavra de Deus.Estrutura perfeita
O Salmo 119 é o mais perfeito dos Salmos alfabéticos, contendo cento e setenta e seis (8 x 22) versículos numa estrutura impressionante: cada grupo de oito versículos é dedicado a uma letra do alfabeto hebraico, numa sequência perfeita. Cada um dos primeiros oito versículos começam com alef. Os vs. 9 a 16 começam, todos, com bet; os próximos oito versículos (vs. 17 a 24) começam com guimel, e assim sucessivamente, até chegarmos aos últimos oito versículos do salmo (vs. 169 a 176), todos começando com a última letra do alfabeto hebraico, tav.Extensão prolongada
O tamanho deste Salmo também impressiona; não há nada que se compare na Bíblia. Para perceber a singularidade do seu tamanho, é necessário lembrar que, diferentemente dos demais livros da Bíblia, nos livros de Salmos e Lamentações de Jeremias as divisões em capítulos não foram feitas depois da Bíblia ser escrita, mas fazem parte da sua estrutura original. A Bíblia foi escrita sem nenhuma divisão de capítulos ou versículos (a divisão em capítulos surgiu no século XIII) mas o livro de Salmos é diferente por ser composto de salmos avulsos, cada um sendo um poema completo em si mesmo. Por isso lemos de Paulo se referindo ao “Salmo segundo” (At 13:33). A diferença de tamanho entre capítulos da Bíblia é obra humana, mas o Salmo 119 chegou até nós no tamanho em que foi inspirado por Deus.Levando isto em conta, repare que o Salmo 119 é maior do que qualquer outro Salmo (mais do que o dobro) e maior do que muitos livros da Bíblia. A lista abaixo apresenta em ordem crescente (baseado no texto em português) vinte e três livros na Bíblia que são, com certeza, menores do que o Salmo 119, e outro dois que são possivelmente menores: II e III João, Filemon, Judas, Obadias, Tito, II Tessalonicenses, Ageu, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, II Pedro, I Tessalonicenses, II Timóteo, Joel, Colossenses, Rute, Filipenses, I João, Tiago, I Timóteo, I Pedro, Cantares e Miquéias.
Exposição Profunda
A estrutura do Salmo é magnifica. Sua extensão também impressiona. E o que dizer sobre sua exposição? Pode parecer contraditório, mas os cento e setenta e seis versículos deste Salmo tratam de um mesmo tema: a Bíblia!A Massorá [veja Nota 3] traz, ao lado do v. 122, uma lista de dez palavras características do Salmo. Em Português, estas palavras são: “caminho, “testemunho”, “preceito” (ou “ordenança”), “mandamento”, “lei”, “juízo”, “justiça”, “estatuto”, e duas palavras hebraicas que são traduzidas “palavra” em Português. A Massorá diz que estas palavras correspondem aos Dez Mandamentos, e que o único versículo do Salmo onde não encontramos nenhuma delas é o v. 122.
É verdade que outros vem menos sinônimos das Escrituras neste Salmo. Scofield lista quatro versículos onde ele não encontra nenhuma referência à Bíblia (vs. 90, 121, 122 e 132). A. Clarke acrescenta o v. 84 aos quatro já mencionados. Mesmo concordando com Clarke, porém, veja que fato impressionante: dos cento e setenta e seis versículos do Salmo, apenas cinco não contém uma referência direta e clara à Palavra de Deus! F. J. Dake contou cento e noventa e oito referências à Bíblia neste Salmo!
Não há dúvida, portanto, que o Salmo 119 é, do começo ao fim, o Salmo das Escrituras. “Tanto espaço para o mesmo assunto!”, dizem alguns, e acusam o Salmo de tautologia (“vício de linguagem que consiste em dizer, por formas diversas, sempre a mesma coisa”; Aurélio).
A beleza, porém, se encontra não só nos contrastes entre coisas diferentes e grandiosas, mas também nas diferenças delicadas e sutis entre coisas do mesmo gênero. Como exemplo de que até mesmo a sabedoria humana reconhece isto, veja a Chaconne (de Bach), um dos movimentos de uma música clássica para violino. Consistindo em cerca de quatorze minutos de uma progressão simples repetida em dezenas de variações, é considerada uma das mais sublimes músicas já compostas pelo homem. Brahms, outro compositor de fama mundial, escreveu sobre a Chaconne: “Em uma pauta, para um instrumento pequeno, o homem compôs um mundo inteiro dos mais profundos pensamentos e mais intensos sentimentos”.
Só quem não aprecia beleza musical encontrará tautologia na Chaconne; só quem não aprecia a Palavra de Deus encontrará tautologia neste Salmo. As Escrituras são seu único tema, mas não há nada de repetitivo ou redundante; numa estrutura maravilhosa, Deus nos apresenta a perfeição divina que, dentre todos os livros que a Terra já viu, somente a Bíblia possui. “Tenho visto fim a toda a perfeição, mas o Teu mandamento é amplíssimo” (v. 96). Sem dúvida um livro como a Bíblia exige um Salmo tão perfeito na sua estrutura, tão prolongado na sua extensão, e tão profundo na sua exposição!
Salmos 25, 34 e 145
O Salmo 25 tem uma frase muito pequena na quinta letra do alfabeto (he), omite a décima-nona letra (cof) e repete a vigésima (reish), além de repetir a décima-sétima letra (pe) no final do Salmo. O Salmo 34, assim como o Salmo 25, tem a frase pequena na quinta letra (he) e a repetição da décima-sétima letra (pe) no final do Salmo. O Salmo 145 tem uma sequência quase perfeita, omitindo apenas a décima-quarta letra (nun). Veja estes detalhes destacados nas ilustrações abaixo.Certamente há um propósito nestas irregularidades. Será que Deus quer chamar nossa atenção para algumas partes do Salmo? Confesso que não sei; mas sei que um dia entenderemos o “por quê” de todos estes detalhes maravilhosos das Escrituras, quando Ele mesmo nos revelar suas glórias!
Lamentações
Os cinco capítulos de Lamentações de Jeremias são cinco poemas. Os dois primeiros e os dois últimos contém vinte e dois versículos cada, enquanto o capítulo central contém sessenta e seis (22 x 3) versículos. O único destes cinco poemas que não é um acróstico alfabético é o cap. 5. Os caps. 1, 2 e 4 são acrósticos simples (cada versículo começa com uma letra do alfabeto hebraico), enquanto que o cap. 3 é um acróstico triplo (isto é, os primeiros três versículos começam com alef, os vs. 4, 5 e 6 começam com bet, etc).Três dos acrósticos em Lamentações tem uma peculiaridade: invertem a ordem da 16ª e 17ª letra do alfabeto: 2:16, 3:46-48 (lembre do caráter triplo do acróstico neste capítulo), e 4:16 começam com a 17ª letra do alfabeto hebraico (quando, na ordem normal, deveria ser a 16ª letra), e os versículos que seguem (2:17, 3:49-51 e 4:17) começam com a 16ª letra. Ao invés de deduzir que esta inversão da ordem normal foi um descuido do profeta (uma dedução que nega a inspiração divina da Bíblia, e que não explica a repetição desta inversão em três dos poemas deste livro), é mais sábio procurar entender o por quê desta inversão. Se Deus escreveu estes poemas seguindo a ordem do alfabeto, e em três ocasiões inverteu a ordem normal (sempre com as mesmas duas letras), por que Ele fez isto? Estude estes versículos, e procure encontrar alguma coisa que é enfatizada pela mudança da ordem normal. Por exemplo, 2:16 mostra os inimigos do Senhor exultando porque chegou o dia que esperavam; mas o versículo seguinte (que, segundo a ordem do alfabeto, realmente vem antes) mostra que Deus intentou isto desde os dias da antiguidade. Os homens podem intentar mal contra o povo de Deus, e Deus muitas vezes permite que isto aconteça; mas sempre que os homens agem, Deus já havia, de antemão, previsto tudo!
Mesmo sem conseguirmos explicar tudo que estas inversões da ordem normal do alfabeto podem sugerir, cremos que há muitas lições preciosas neste pequeno detalhe das Escrituras.
Provérbios 31:10-31
A descrição da mulher virtuosa que encerra o livro de Provérbios é outra poesia que segue perfeitamente a ordem do alfabeto hebraico, sem nenhuma omissão ou inversão.Alexander J. Higgins, no Comentário Ritchie do VT, diz que “aqui temos a descrição que Deus faz, de A a Z, de uma mulher de valor. É completa e contém todos os valores. Também é o ABC de Deus do caráter moral e da sabedoria da mulher. É o alfabeto e a linguagem da sabedoria”.
Conclusão
Que a perfeição e beleza das Escrituras nos cative mais e mais. Sua beleza tem um brilho duradouro, que supera as maiores obras humanas; e possivelmente a maior joia da sua coroa é o fato de que esta beleza não é superficial e vã, mas é o brilho que ornamenta palavras de vida eterna, palavras que nos revelam o próprio coração de Deus! “Abre Tu os meus olhos, para que eu veja as maravilhas da Tua lei” (Sl 119: 18).© W. J. Watterson [Nota 1] Refiro-me ao princípio de acrescentar, às Suas obras, detalhes de beleza que, aparentemente, não tem nenhuma função prática; estão ali somente para embelezar e ornamentar. [voltar ao texto]
[Nota 2] Os seis dias da Criação (Gn cap. 1) apresentam uma simetria notável. No primeiro e no quarto dia, o elemento principal com que Deus trabalha é a luz; no segundo e no quinto dia, é a água; e no terceiro e no sexto, é a terra. Nos primeiros três dias Ele segue a sequência luz-água-terra, e nos próximos três dias a sequência é exatamente a mesma. Podemos dividir os seis dias da Criação em dois grupos, sendo que em ambos são usados os mesmos três elementos: luz, água e terra, na mesma ordem. E podemos comparar esta criação em duas etapas com a descrição dupla da Terra no v. 2: “sem forma e vazia”. Nos primeiros três dias, Deus está dando forma à Terra; nos três dias seguintes, Ele está enchendo-a. [voltar ao texto]
[Nota 3] Os mais antigos manuscritos do Velho Testamento têm, além do texto das Escrituras (em duas ou mais colunas), diversas linhas escritas em letras menores, nas margens superior e inferior e nas laterais de cada página. Estas notas (que não fazem parte do texto original das Escrituras) são chamadas de Massorá. Foram compiladas pelos Massoretas (eruditos judeus que viveram mais ou menos do século VI ao X) com a finalidade de evitar erros nas cópias das Escrituras. Estas notas não são comentários ou explicações sobre o texto, mas fatos e detalhes: a quantidade de palavras e a palavra central de cada livro, ocorrências de certas palavras, etc. Cada vez que o VT era copiado por um escriba, a cópia era verificada através dos dados da Massorá, e se houvesse alguma discrepância, a cópia era destruída integralmente! [voltar ao texto]
Monday, 20 October 2014
Figuras das igrejas locais no Éden
O jardim do Éden, onde Adão e Eva habitavam antes do seu pecado, era o paraíso de Deus aqui na Terra. Um local perfeito, onde o homem podia viver em comunhão, também perfeita, com seu Deus. Uma igreja local é, da mesma forma, o local onde Deus hoje procura ter comunhão com Seus filhos, coletivamente. O NT descreve uma igreja local como sendo um santuário onde a santidade de Deus pode ser apreciada (I Co 3:16–17), a casa onde o Altíssimo pode habitar com Seu povo (I Tm 3:14–15), a congregação onde o Senhor pode governar (Mt 18:20). Podemos dizer que uma igreja local é um paraíso aqui na Terra, um oásis no meio deste deserto em que vivemos. Nada mais coerente, portanto, do que procurar semelhanças entre estes dois “paraísos”, entre o local onde Deus teve, pela primeira vez, comunhão com o homem, e o local onde, hoje, Ele procura tal comunhão.
Não vamos considerar, aqui, as figuras das igrejas locais que podemos ver no relacionamento de Adão e Eva com o jardim — vamos nos concentrar na descrição do jardim do Éden em Gn 2:8-10. Antes de pensar nos detalhes, repare o quadro geral apresentado nestes três versículos:
- o projeto do Pai. O v. 8 nos ensina que Deus é o autor do jardim, e nos fala da alegria e acessibilidade do Éden;
- a preeminência do Filho. O v. 9 dá mais atenção às árvores do que ao jardim, falando da aparência, do alimento e da atração do Éden (a árvore da vida é uma figura muito clara do Senhor Jesus Cristo);
- o poder do Espírito. O v. 10 fala do rio (uma figura do Espírito Santo), e nos ensina sobre a altura, a água, e o alcance do jardim do Éden.
Aqui vemos, nas primeiras páginas da Bíblia, aquela cooperação e comunhão entre a Trindade que será destacada de modo consistente no restante das Escrituras. Em toda a Palavra de Deus encontraremos as Pessoas Divinas agindo de forma coerente, sempre em comunhão e cooperação perfeita. Os planos do Pai e o poder do Espírito tem sempre o mesmo objetivo: promover a preeminência do Filho. O Pai planeja tornar o Filho preeminente, e é o poder do Espírito que efetua isto. Assim é em toda a Bíblia, e temos o mesmo aqui no jardim do Éden.
a. O projeto do Pai (2:8)
a.1. Autoria
O jardim do Éden não foi plantado por mãos humanas; a Bíblia afirma claramente que “plantou o Senhor Deus um jardim”. Deus fez tudo conforme Ele queria, de acordo com a Sua vontade e o Seu propósito. E o mesmo acontece em relação a uma verdadeira igreja de Deus hoje em dia; ela será plantada por Deus. Isto quer dizer que não é um decreto humano que determina o nascimento de uma igreja, nem é necessário ter a autorização de uma instituição ou autoridade humana para que ela passe a existir. As palavras do Senhor Jesus Cristo, registradas em Mt 18:20, deixam claro que onde um grupo de cristãos, mesmo que pequeno (“… onde estiverem dois ou três …”), for congregado pelo Espírito Santo e passar a reunir-se regularmente (“… reunidos …”; este verbo, no grego, é um particípio perfeito na voz passiva, indicando um ato que continua no presente, e feito por uma força externa), atraídos unicamente ao nome do Senhor Jesus Cristo (“… em Meu nome”; não somente com a autoridade de, mas atraídos ao, Senhor Jesus), ali existe um “santuário de Deus”, uma igreja local (“ali estou no meio deles”). A operação do Espírito Santo atrai um grupo de cristãos ao nome singular do Senhor Jesus Cristo, e devido à ação desta Pessoa divina, sem qualquer influência ou autoridade humana, Deus planta uma igreja local!Isto é confirmado pelo Seu aviso à igreja em Éfeso (Ap 2:1–7). Deus mesmo diz que, se necessário, iria remover aquele candeeiro; só Ele poderia fazer isto, pois Ele é quem havia plantado aquela igreja, no começo.
É claro que Ele pode usar vasos humanos para executar esta obra (I Co 3:6–9), mas estes serão apenas “cooperadores de Deus” (I Co 3:9); o poder e a autoridade sempre serão dEle. Que possamos sempre lembrar deste fato tão solene! A igreja não é uma instituição humana, plantada por homens, que pode ser manipulada ou “cortada” por homens. Deus é quem planta; só Ele é quem tem autoridade para plantar, para preservar e até, em casos extremos, para cortar.
a.2. Alegria
O lugar escolhido por Deus para plantar este jardim foi chamado Éden, uma palavra hebraica que significa “agradável”, ou “prazer”. Deus criou um jardim perfeito, onde Ele, juntamente com o homem que criara, poderia passar momentos agradáveis. O profeta Isaías indica que naquele jardim havia “regozijo e alegria, … ações de graça e som de música” (Is 51:3).Da mesma forma, o Senhor deseja que o Seu povo possa experimentar, hoje, o prazer maravilhoso da Sua presença. E esta comunhão, tão agradável, deve ser encontrada no seio da igreja local. É verdade que cada um deve ter comunhão, individualmente, com seu Salvador, mas é um fato bíblico que, nesta dispensação da graça, Deus fortalece e anima seus filhos através da comunhão da igreja local. Ele quer que, na igreja, haja um só sentimento, um só amor (Fl 2:2), onde os membros mais fracos possam ser ajudados pelos mais espirituais (Gl 6:1), todos “lutando juntos pela fé evangélica” (Fl 1:27). Ele quer que a comunhão sincera e verdadeira do Seu povo, uns com os outros e com Ele, possa animar e consolar a cada um, trazendo verdadeiro prazer espiritual! Aqui na Terra, poucas coisas se comparam à esta comunhão divina; é realmente sublime a alegria que um verdadeiro servo de Deus sente em lembrar do Seu Senhor junto com um grupo dos seus irmãos, por menor ou mais humilde que este grupo seja. Como disse o Espírito, através de Davi: “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos” (Sl 133:1).
Isto nos faz lembrar, porém, de algo muito importante. Irmãos, será que sentimos prazer nas reuniões da nossa igreja? Ela é um lugar agradável a nós? Se a resposta for “não”, será que estamos nos esforçando, positivamente, para que esta situação mude? Não de uma maneira hipócrita, querendo que todos concordem conosco, mas “considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fl 2:3).
Além disto, será que a comunhão da nossa igreja local é tão verdadeira e espiritual, que os novos convertidos, ou irmãos mais fracos, sentem prazer nesta comunhão? Será que estamos obedecendo à exortação do Espírito: “… restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; fazei caminhos retos para os vossos pés, para que não se extravie o que é manco, antes seja curado” (Hb 12:12-13)? Estamos animando, ou ajudando a desanimar?
E a pergunta mais solene: será que o “Senhor, Deus dos céus, Deus grande e temível” (Ne 1:5), considera a minha igreja local como um lugar de alegria? Será que a igreja onde você se reúne é um lugar onde Ele pode gozar de comunhão verdadeira com Seu povo, como Ele fazia, no começo, lá no Éden?
Que Deus nos ajude a apreciarmos a alegria que deve ser característica de cada igreja de Deus, e trabalharmos para consolidar esta alegria, nunca para diminuí-la.
a.3. Acessibilidade
O jardim de Deus foi plantado no Éden, mas o Espírito nos dá ainda mais detalhes; foi “da banda do Oriente” (literalmente, “olhando para o Oriente”). Porque mencionar este fato, aparentemente irrelevante? A Palavra preciosa e perfeita de Deus não omite qualquer coisa necessária, e nem tão pouco menciona qualquer coisa desnecessária. O que podemos aprender, então, desta expressão: “da banda do Oriente”?A palavra hebraica aqui traduzida “Oriente”, junto com suas cognatas, aparece muitas vezes no Velho Testamento (um total de cento e setenta e uma vezes). Sem tomarmos o espaço necessário para entrar em detalhes, podemos afirmar que, analisando com cuidado todas estas ocorrências, percebemos que o Oriente, na Bíblia, representa o lugar do homem que se afastou de Deus. Quando a Bíblia fala de alguém indo para o Oriente está enfatizando que ele se afasta de Deus, e aquele que vem do Oriente geralmente é alguém que esteve bem longe de Deus. Obviamente, isto é apenas figurativo; ir para o Oriente hoje não é sinônimo de afastamento de Deus, e nem os habitantes do Ocidente são, de qualquer forma, superiores aos do Oriente. Mas o Espírito nos ensina, também, através de figuras, e a figura apresentada pelo oriente, na Bíblia, é a de um lugar longe de Deus. Veja algumas confirmações disto.
A expressão “vento oriental” ocorre dezenove vezes no VT, sendo que, em dezesseis destas, ela é sinônimo absolutamente claro de destruição ou pecado (veja, por exemplo, Gn 41:6; Is 27:8; Jr 18:17; Ez 27:26). Veja, também, as pessoas que foram para o Oriente: Adão e Eva, depois da queda (Gn 3:24); Caim (Gn 4:16); Ló (Gn 13:11); os outros filhos de Abraão (Gn 25:6), etc. Em Ez 8:16, lemos de “cerca de vinte e cinco homens, de costas para o templo do Senhor, e com os rostos para o oriente; adoravam o sol virados para o oriente”. Em vista disto, parece ser justificável afirmar que o Oriente, na Bíblia, indica o lugar do homem longe de Deus.
Como podemos entender, então, o motivo que levou o Espírito a destacar que o jardim do Éden ficava na banda do Oriente do Éden? É o mesmo que temos no Tabernáculo e no Templo construído por Salomão, cujas portas olhavam para o Oriente. É uma figura da graça de Deus, que tornou a salvação acessível ao ser humano. Quando o pecador, perdido em seu pecado, quisesse, pela operação do Espírito, buscar a Deus, ele iria virar as costas ao Oriente, e a primeira coisa que ele poderia ver seria a porta da casa de Deus! Não seria necessário rodear a casa, procurando a entrada; Deus a colocou bem na sua frente. Louvamos a Deus porque Ele não tornou a salvação desnecessariamente complicada. O pecador que deseja ter o perdão dos pecados não tem que sair procurando um caminho escondido; a Porta, aberta pela graça de Deus, está ao alcance do mais fraco ser humano!
Assim também uma igreja local deve ser um lugar acessível [Estou pensando em “lugar” no sentido figurado; não me refiro à entrada no local de reuniões da igreja local, mas à entrada na igreja, passar a fazer parte do corpo]. Não um lugar onde qualquer um entra, sem questionamento, mas onde qualquer um que queira se submeter à Palavra de Deus encontrará livre acesso. Não é uma questão de recepção à Ceia do Senhor, pois o Novo Testamento realmente fala de recepção à comunhão da igreja, e isto inclui muito mais que simplesmente o Partir do Pão. Só poderá ser aceito à comunhão da igreja local (e, portanto, participar da Ceia) aquele que, confessando o Senhor Jesus como Salvador publicamente pelo batismo, estiver disposto a obedecer plenamente os princípios neo-testamentários que governam a igreja local, e manter-se separado do mundo e do pecado. Jamais devemos abrir mão desta exigência. Mas não devemos acrescentar qualquer outro obstáculo; não podemos exigir um certo tipo de roupa (além da vestimenta decente, é claro), ou determinado nível social, ou grau de instrução, etc. Qualquer discriminação humana é totalmente condenada (veja Tg 2:1-13).
Aquilo que Deus exige para a entrada na Sua casa (que hoje é a igreja local, I Tm 3:15) não pode ser esquecido; qualquer ser humano só pode entrar pela Porta. Mas não podemos dificultar desnecessariamente este processo; a porta da igreja local tem que estar olhando para o oriente, para os pecadores e para os indoutos. Adotar táticas humanas, diluir a mensagem, e animar mais as reuniões para atrair o incrédulo, são sugestões da carne; mas mostrar um amor verdadeiro e sincero aos pecadores, apresentar o Evangelho de maneira tão clara que até uma criança possa entender, fazer com que os visitantes se sintam realmente bem-vindos em nosso meio, sair ao encontro deles de casa em casa se eles não querem vir ao salão onde nos reunimos, isto é tornar a igreja acessível.
O padrão elevado que Deus exige tem que ser mantido; o que nós não temos o direito de fazer é acrescentar, às exigências de Deus, as nossas próprias.
b. A preeminência do Filho (2:9)
b.1. Aparência agradável
O jardim do Éden deve ter sido, sem sombra de dúvida, um lugar extremamente belo. Não simplesmente um lugar onde o espírito e a alma encontravam alegria (como vimos acima), mas também um lugar onde os olhos se enchiam com as belezas físicas ali expostas. Deus, o sábio Criador, plantou árvores, e eram árvores agradáveis à vista. Aquele jardim manifestava o poder e a perfeição do Seu Criador.Da mesma forma, uma igreja local deve manifestar, perante os homens e os anjos, a beleza da santidade de Deus. Além de ser um lugar onde o verdadeiro cristão encontrará prazer espiritual junto com seu Senhor, deve ser também um lugar onde os indoutos ou incrédulos poderão ver a ordem e perfeição que são características do nosso Deus.
I Coríntios cap. 14 deixa isto bem claro. Ao mostrar a necessidade de haver ordem nas reuniões da igreja, o Espírito nos revela, primeiro, o lado negativo (v. 23). Se a reunião for desordenada, os incrédulos ou indoutos irão dizer que somos loucos. Mas os vs. 24 e 25 apresentam o lado positivo: quando tudo é feito “com decência e ordem” (v. 40), o resultado é que o nome de Deus será glorificado (v. 25).
Em relação à “decência”, estamos precisando, hoje em dia, reaprender o significado da palavra “reverência”. Lamentavelmente, muitas igrejas de Deus estão se portando com tanta leviandade, bagunça e falta de reverência, que o nome de Deus acaba sendo blasfemado (compare Rm 2:24). Que o Senhor nos dê a coragem para desprezar as táticas sensacionais e barulhentas, que só agradam à nossa alma; que Ele nos dê a intrepidez necessária para valorizarmos as reuniões simples, reverentes e espirituais que agradam ao nosso espírito e, principalmente, a Deus.
Quanto à “ordem”, é importante lembrarmos que a igreja não é um lugar sem autoridade, onde cada um faz o que bem entende; não é uma ditadura, onde um homem domina sobre os outros; nem é uma democracia, onde a vontade da maioria é feita; a igreja é uma Teocracia, onde Deus reina. Homens fieis e santos, levantados por Ele, presidem sobre o povo de Deus, submetendo-se, porém, ao Senhor dos senhores (Hb 13:17, etc.).
A igreja de Deus é o lugar onde a beleza da Sua santidade deve ser vista. Que possamos fazer tudo com decência e ordem (I Co 14:40), resplandecendo como luzeiros no mundo (Fl 2:15), para que o mundo seja atraído pelas belezas do nosso Deus, reveladas no Senhor Jesus Cristo.
b.2. Alimento
O jardim do Éden não satisfazia apenas aos olhos; também fornecia alimento abundante e variado, com toda sorte de árvore boa para alimento.Uma igreja que não esteja fornecendo alimento para o rebanho está em grande falta, e dificilmente poderá crescer. Para haver crescimento é necessário alimento, e este deve ser encontrado, principalmente, na igreja, pois o Novo Testamento mostra claramente que é em comunhão com a igreja que o cristão cresce (veja Ef 4:11–16, por exemplo).
Deus fez provisão para esta necessidade, pois “Ele mesmo concedeu uns para … pastores e mestres”. Ele próprio deu, para cada igreja, irmãos capacitados para alimentar o povo de Deus através do ensino da Palavra. E não são somente os pastores e ensinadores que tem esta responsabilidade; os anciãos também devem ser aptos para ensinar (I Tm 3:2). Nem sempre esta aptidão será para o ensino público. Muito pode ser feito em conversas ou visitas particulares, em circunstâncias onde o ensino público não pode, ou não consegue, surtir o efeito desejado. Mas, seja por meio do ensino público ou individual, a verdade é que, em cada igreja local, o alvo deve ser que cada um dos membros esteja encontrando alimento para as suas necessidade.
Neste sentido, como está a igreja onde você se reúne? Há alimento suficiente? Há variedade de alimento (“toda sorte de árvore”)? Se não, você está preocupado com isto? “Mas eu não tenho o dom de ensinar”, você diz; ou então: “Mas eu sou uma irmã; a Bíblia me proíbe de ensinar publicamente na igreja”. Mas, se não temos o dom de ensinar, estamos exortando em particular, com palavras e com nosso exemplo? Se não podemos ensinar publicamente, estamos ensinando em particular? Nós louvamos a Deus pelos servos eruditos que Ele capacitou para nos ensinar; mas não podemos esquecer que não é necessário saber definir hermenêutica ou homilética para poder alimentar o povo de Deus. O Servo perfeito, que soube “dizer uma palavra em tempo oportuno ao cansado”, era Aquele que despertava “todas as manhãs” para ouvir a voz de Deus (Is 50:4). Precisamos dos eruditos; principalmente, porém, necessitamos de homens e mulheres que, não se preocupando com o reconhecimento por parte dos homens, procuram estar em comunhão com Deus, ouvindo a Sua voz, para poderem nos falar palavras oportunas.
b.3. Atração
Quando Eva tentou descrever o jardim do Éden, ela disse que a árvore que estava no meio do jardim era a árvore do conhecimento do bem e do mal (3:2–3). Parece que tanto esta, quanto a árvore da vida, estavam na região central do jardim, e não precisamos discutir qual delas ocupava o centro geográfico. O importante é que, para Eva, a árvore central, a mais importante, era a árvore proibida; para Deus, porém, a árvore que estava no centro do jardim era a árvore da vida (2:9), uma figura muito clara daquele que nos dá a vida eterna, o Senhor Jesus.O centro de toda verdadeira igreja de Deus será ocupado unicamente pelo Senhor Jesus Cristo. É ao nome dEle que reunimos (Mt 18:20), atraídos por Ele e submissos a Ele. Ele é o Cabeça da Igreja que é o Seu corpo, e será também de toda igreja local que Lhe pertença (Cl 2:19; Ef 4:15, etc.). Não temos o direito de colocar qualquer outra coisa, ou pessoa, no centro da igreja. Se não somos atraídos unicamente ao nome de Cristo, se não permanecemos unidos simplesmente por amá-Lo, se não nos submetemos incondicionalmente à Sua palavra, então renunciamos ao direito de ter a Sua presença conosco. Poderemos ser uma “igreja”, mas não seremos uma igreja de Deus.
Que possamos recusar toda teoria, invenção, preceito ou tradição que vem dos homens, submetendo–nos somente à autoridade de Cristo. Que saibamos respeitar aqueles homens dedicados que Ele próprio levantou para guiar o rebanho, mas jamais permitir que um deles (ou qualquer outro mortal) usurpe o lugar central na igreja local; este lugar pertence somente a Cristo! Que possamos nos esforçar para ver Cristo entronizado, respeitado, obedecido e exaltado em nosso meio!
c. O poder do Espírito (2:10)
c.1. Altura
Percebemos que este jardim era mais alto do que as terras ao seu redor, pelo fato de que o rio saia do jardim e fluía para as terras ao redor. É um fato comprovado que a água, em seu estado líquido, quando não impelida por uma força externa, corre sempre do lugar mais alto para o mais baixo. Como este rio nascia no Éden, e dali saia para outras terras, fica bem claro que o jardim estava num local elevado.Esta deve ser, também, uma característica das igrejas de Deus hoje. Elas estão no mundo, mas não são do mundo. O mundo é inimigo de Deus (Tg 4:4) — uma igreja local é casa de Deus (I Tm 3:15), é um “santuário de Deus … sagrado” (I Co 3:17). Espiritualmente, deve haver uma distância enorme entre uma igreja de Deus e o mundo. A organização da igreja não irá copiar a política humana, com sua democracia desordeira; as atividades da igreja não poderão ser confundidas com atividades de instituições mundanas; a adoração duma igreja verdadeira será sempre muito superior à religiosidade fria e formal do mundo religioso.
A igreja não deve procurar atrair os pecadores com aquilo que o mundo oferece. O mundo tem diversão, filmes, festas; a igreja deve apresentar algo muito diferente, e muito superior. Há algo de errado com nosso proceder se os incrédulos se sentem bem em nossas reuniões. Numa reunião onde o Espírito tem liberdade de agir, o resultado será exatamente o contrário: o incrédulo ou indouto é “por todos convencido, e por todos julgado” (I Co 14:24). Ele irá se sentir incomodado, percebendo que não somos iguais a ele (espiritualmente); ele irá perceber que é um pecador, e que necessita da salvação. Devemos ser cordiais e amáveis, fazendo com que ele se sinta muito bem-vindo; mas não podemos esquecer que nossa intenção, ao trazê-lo, não é simplesmente que ele volte outra vez; é que ele perceba o seu pecado, e aceite a Cristo.
Em suma: as igrejas de Deus devem ser lugares espiritualmente elevados. Que nos chamem de radicais, fanáticos, etc.; nós não podemos, em qualquer circunstância, abaixar os padrões elevados de santidade e pureza que Deus exige de nós, Seu povo. O desejo de Deus para o Seu povo é que sejam um alvo, um exemplo para o mundo perverso (Fl 2:15). Que responsabilidade! Estamos buscando algo mais elevado do que aquilo que o mundo apresenta? Ou estamos manchando nosso testemunho com a lama da irreverência e leviandade, sob o pretexto de atrair as multidões? “O santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (I Co 3:17). É melhor uma igreja pequena, mas “elevada”, do que uma igreja numerosa vivendo no vale, junto com o mundo.
c.2. Água
O jardim do Éden não era árido ou estéril, como já temos visto; era um lugar onde cresciam toda sorte de árvores; um jardim cheio de vida, exuberante e atraente. Mas, de onde vinha a vida deste jardim? Em parte, da neblina que regava toda a terra (2:6), mas principalmente do rio que saia do Éden.Um rio, na Bíblia, é uma figura muito apropriada do Espírito Santo, conforme a Palavra de Deus nos explica em João 7:38-39. Este rio, portanto, é uma figura da atuação do Espírito Santo no meio do povo de Deus, dando-lhe a vida e poder necessários para servir ao Senhor. É o Espírito quem nos torna capazes de servir a Deus, pela Sua presença conosco (Jo 14:16) e pelos dons que Ele nos dá (I Co 12:8). Ele também habita na igreja local (I Co 3:16), e é Ele quem irá operar no meio da igreja, levando-nos a obedecer ao Cabeça. A autoridade é de Cristo; o poder é do Espírito.
É fundamental que nossas igrejas tenham um rio para regá–las. A vida, o poder de nossas igrejas não pode vir de outra fonte, a não ser o Espírito Santo. Se, na igreja onde você se reúne, o trabalho é feito no poder do homem, conforme a programação dos homens, onde está o Espírito de Deus? É nosso dever tirar da igreja todas aquelas coisas que só agradam a carne, coisas que o Espírito de Deus jamais nos autorizou a introduzir. Podem ser inofensivas; podem até ser bonitas, mas vão limitar a liberdade que o Espírito tanto deseja ter. As religiões humanas, para atrair e manter seus membros, precisam da ajuda de muitas coisas humanas; uma igreja de Deus, porém, para atrair cristãos ao nome de Cristo, só precisa do poder do Espírito que, como um rio, irá espalhar a Sua influência por todo o jardim.
c.3. Alcance
Aquele rio não permanecia só no jardim do Éden; ele se dividia e atingia outras terras também (Havilá, Cuxe, Assíria), permitindo que elas fossem beneficiadas pela vida que havia nele. Um rio, pela sua própria natureza, não consegue ficar parado, mas avança sempre. Você se lembra daquela profecia impressionante, registrada em Ezequiel 47? Um rio que, quanto mais se afastava do santuário, e quanto mais se aproximava do mar Morto, mais profundo ficava; e o homem que guiava Ezequiel lhe disse: “tudo viverá por onde quer que passe este rio” (v. 9).O mesmo deve acontecer com uma igreja local. O poder do Espírito Santo, operando nela como um rio, não poderá ser escondido do mundo, nem trancado dentro de quatro paredes. Quando a igreja manifesta, pela direção do Espírito, o Senhorio de Cristo, ela irá resplandecer como um luzeiro no mundo (Fl 2:15), e outros serão atraídos pelo seu testemunho. A ordem do Senhor aos Seus discípulos foi para que avançassem até aos confins da Terra (At 1:8), e o Espírito de Deus deseja estimular-nos a cumprir esta ordem. Veja o exemplo da igreja em Tessalônica: “Porque de vós repercutiu a palavra do Senhor, não só na Macedônia e Acáia, mas por toda a parte se divulgou a vossa fé para com Deus” (I Ts 1:8). Todo cristão sincero deverá estimular esta visão em seus irmãos, desejando expandir, alcançar outras terras que estão secas.
Esta não é uma necessidade distante; muitas vezes, a terra mais seca não está do outro lado do planeta, mas no nosso quintal. Na sua cidade, quantos bairros estão desertos espiritualmente? Perto dali, quantas cidades sem nenhum testemunho conforme as Escrituras? Como seria bom se o Senhor reavivasse em nossos corações o desejo de multiplicar pela divisão. Não divisão contenciosa — isto é sempre obra da carne — mas divisão unida e pacífica. Parece uma contradição; multiplicar pela divisão, dividir com união; mas é a melhor maneira de expandir. Uma igreja, por exemplo, com sessenta membros, pode muito bem se tornar em duas igrejas, cada uma com aproximadamente trinta membros, reunindo em dois bairros diferentes da cidade. Permaneceriam plenamente unidas, cooperando uma com a outra, mas seriam agora duas igrejas locais distintas. Um novo bairro daquela cidade teria a bênção de possuir um testemunho ao nome de Deus (os incrédulos daquele bairro não iriam apreciar isto, mas haveria uma luz brilhando ali). Outras pessoas teriam a oportunidade, não apenas de ouvir o Evangelho pelas pregações, mas de ver o Evangelho pela vida da igreja. E, com o tempo, estas duas igrejas teriam crescido o suficiente para se dividirem novamente, produzindo, pela divisão pacífica e dirigida pelo Espírito Santo, uma verdadeira multiplicação.
Se estamos gozando das bênção do Espírito Santo na nossa igreja, vamos olhar para os lados. Há muitas terras aí fora, mesmo em nossas próprias cidades e regiões, aonde Deus quer acender um candeeiro, espalhando as bênçãos que só o Espírito Santo distribui, trazendo vida a mares mortos, trazendo luz a noites escuras. Que o rio que sai do nosso jardim, da nossa igreja, possa se dividir em quatro, oito, vinte braços, para que, por todos os cantos deste imenso país, possa resplandecer e brilhar a glória de Deus, através do testemunho do Seu povo.
d. Conclusão
Deus plantou o jardim do Éden para nele ter comunhão com o homem. Adão e Eva abusaram deste privilégio, e foram expulsos dali. Depois desta tentativa de comunhão, fracassada por culpa do homem, Deus habitava no meio no Seu povo nas habitações construídas conforme as Suas instruções (no Tabernáculo e nos Templos). Hoje, “entretanto, não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas” (At 7:48), pois nesta dispensação Ele habita no cristão, individualmente (I Co 6:19), e na igreja, coletivamente (I Co 3:16-17).Quantas vezes, porém, sentimos que estamos transformando a casa de Deus em nossa própria casa, onde as nossas leis são obedecidas, as nossas pregações são anunciadas, as nossas músicas são apresentadas, e a nossa honra é buscada. “Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado”.
Que o Senhor mostre cada vez mais aos nossos corações a santidade e preciosidade duma igreja local. É um paraíso de Deus aqui na Terra. Que possamos estudar a Palavra de Deus, para saber “como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” (I Tm 3:15).
© W. J. Watterson
Monday, 25 August 2014
Os sete candeeiros de ouro
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| Autor desconhecido (favor informar se souber) |
Por quê? Se lembramos que os candeeiros são figuras das sete igrejas (que, por sua vez, são representativas de todas as igrejas locais desta dispensação), então percebemos como é destacada a importância do testemunho de uma igreja local. Os candeeiros só estavam ali porque o Senhor estava ali, e só chamaram a atenção de João momentaneamente; mas foram mencionados primeiro. Não era possível olhar para os candeeiros e não ver o Senhor, e não era possível olhar para o Senhor sem que seu olhar passasse pelos candeeiros. Da mesma forma, sabemos que uma igreja local só existe enquanto o Senhor está ali, e toda a importância e glória da igreja está nEle; mas a igreja tem uma importância enorme, pois ela é um dos meios pelos quais Cristo pode ser conhecido do pecador hoje em dia; ela é um testemunho dEle.
Repare que eram sete candeeiros, não um candelabro com sete lâmpadas como no Tabernáculo. O candelabro destacava a união do povo de Israel, mas estas sete peças individuais, separadas, destacam a autonomia de cada igreja local. Não estão ligadas uma à outra; o único elo que unia estes candeeiros era o Senhor no meio.
Eram sete candeeiros (a melhor tradução da palavra grega luchnia), isto é, um suporte para lâmpadas que consomem óleo, e não velas. A figura é importante. As igrejas não são apresentadas sob a figura de velas (isto é, algo que produz luz enquanto consome-se a si mesmo), mas sim como lâmpadas ou lamparinas (isto é, algo que produz luz ao queimar óleo). Assim é destacada a importância do óleo, que nas Escrituras é uma figura do Espírito Santo. As igrejas só podem iluminar através da operação do Espírito Santo.
Eram sete candeeiros de ouro! O ouro fala-nos de algo precioso e puro, assim como uma igreja local é preciosa aos olhos de Deus. Pode ser (e muitas vezes é) desprezada pelo mundo, e até por muitos cristãos, mas é preciosa ao Senhor. No passado Deus podia dizer de Israel: “Aquele que tocar em vós toca na menina do Seu olho” (Zc 2:8). Hoje, o mesmo Deus afirma, falando duma igreja local: “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (I Co 3:17).
Esta visão dos sete candeeiros de ouro, portanto, nos fala sobre:
- O alvo das igrejas — direcionar as atenções para Cristo;
- A autonomia das igrejas — decorrente da autoridade de Cristo;
- A atuação das igrejas — depende da ação do Espírito Santo;
- A avaliação das igrejas — destacando a apreciação de Deus.
Que privilégio fazer parte de uma igreja local, separada dos sistemas e organizações do Cristianismo professo.
© W. J. Watterson
Thursday, 3 July 2014
A grande comissão
Uma breve consideração sobre a comissão do Senhor Jesus Cristo, registrada em dois dos Evangelhos. Baseada em uma pregação numa conferência alguns anos atrás.
Leitura: Mateus 28:18-20 e Marcos 16:15-20
Os versículos acima apresentam aquilo que é chamado de A Grande Comissão — a última ordem do Senhor Jesus Cristo aos Seus servos antes de deixar este mundo. Certamente devemos prestar atenção ao que Ele disse, e nos familiarizarmos bem com esta comissão.
Em primeiro lugar, repare que esta comissão tem dois componentes distintos, cada um apresentado por um dos evangelistas. Em Mateus lemos: “Ide, fazei discípulos de [literalmente, “discipulai”] todas as nações”, e em Marcos: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura”. As duas ocorrências do verbo “ide” nestes dois trechos estão no particípio (no grego), e os únicos verbos que estão na voz imperativa nestas duas comissões são “fazei discípulos [discipulai]” em Mateus e “pregai” em Marcos. Hoje em dia ouvimos muita ênfase sendo colocada no verbo “ide”, mas precisamos lembrar que, apesar de toda a importância de irmos ao mundo inteiro, a ênfase nestes dois trechos não é no “ir”, mas no “pregar” e “discipular”.
A comissão, portanto, é dupla, e poderia ser traduzida assim: “Indo por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura, e discipulai todas as nações”. Mateus apresenta um aspecto dela (o discipulado), Marcos outro (a evangelização), e os outros dois evangelistas a omitem totalmente.
Estas diferenças entre os quatro evangelistas são de suma importância para entendermos corretamente a mensagem de cada um destes relatos inspirados. São quatro retratos da mesma Pessoa e da mesma vida, mas vistos de quatro pontos de vista diferentes. Muitos já tem comparado os quatro relatos com os quatro seres viventes de Ezequiel cap. 1 e Apocalipse cap. 4, seguindo a mesma ordem apresentada em Apocalipse:
Por que Deus nos revelou o Seu Filho assim? Como Andrew Jukes escreve, isto facilita a nossa compreensão da multiforme beleza do nosso Senhor. Com nossa visão limitada, só conseguimos ver as diferentes cores que compõe um feixe de luz quando um prisma é usada para separar estas cores uma das outras. Assim o Senhor, conhecendo a nossa limitação, nos deu estas quatro revelações complementares do Seu Filho. Na glória dos Céus poderemos vê-lO como Ele é, mas hoje é necessário termos estes retratos diferentes. O jardim do Éden, com suas condições perfeitas, podia comportar um rio. Mas quando aquele rio saia do Éden e alcançava as terras comuns que rodeavam o Jardim de Deus, era necessário que ele se dividisse em quatro braços. Assim também com Cristo.
Outro rio do VT nos ajuda aqui. Em Ez 47 lemos de um rio que saia do Templo e atingia o deserto, levando vida e bênção a todos. Quatro vezes Ezequiel é chamado a atravessar o rio, que vai se tornando progressivamente mais profundo. Assim Mateus apresenta um retrato do Senhor que é mais simples de compreender: Ele é o Rei, exatamente como os judeus esperavam que seu Messias fosse. Marcos, falando-nos de como o Rei se fez Servo, apresenta algo que confunde o ser humano — temos dificuldade de entender um amor que faz alguém se humilhar tanto. Em Lucas, porém, as águas são mais profundas: o Rei eterno não se fez apenas servo, Ele tomou a forma humana. Quem pode compreender o mistério da encarnação? Quando chegamos em João, porém, encontramos aquele “rio que eu não podia atravessar”, como escreve Ezequiel. João nos revela detalhes do relacionamento divino entre o Pai e o Filho que estão ausentes nos outros Evangelhos, e nos levam até às portas do Céu.
Lembrando que cada um dos Evangelistas apresenta a mesma história, mas de pontos de vistas diferentes, devemos prestar atenção aos diferentes aspectos da comissão do Senhor Jesus que são apresentados por Mateus e por Marcos. É uma comissão só, com dois componentes principais (evangelizar e discipular) — mas não é à toa que esta única comissão é apresentada em dois relatos bem distintos.
Consideremos, então, resumidamente, os dois componentes da comissão do Senhor Jesus.
Há três elementos desta comissão que podemos destacar: o ato (pregar), seu assunto (o Evangelho) e seu alcance (todo o mundo e toda criatura).
a) O ato (pregai). O verbo que é usado aqui pelo Senhor quer dizer, literalmente, “proclamar como um arauto” (o dicionário de Thayer acrescenta: “sempre com uma sugestão de formalidade, solenidade e autoridade que exigem atenção e obediência”). Em tempos antigos, o arauto era um funcionário escolhido pelas autoridades para transmitir ao povo comunicados importantes. Vestido com vestes oficiais, ele lia, em voz alta e em locais públicos, aquilo que o governante lhe havia entregado para declarar. Ele não tinha a função de explicar o porquê daquela mensagem, nem exortar os ouvintes a obedecê-la — a sua responsabilidade era apenas proclamá-la.
“Pregar” não é dialogar, nem discutir, nem ensinar por métodos indutivos, mas é declarar, anunciar, dar um recado. Veja a diferença apresentada por Paulo em Gl 2:2: “E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios” (Gl 2:2). Aos irmãos ele “expôs” aquilo que “pregava” entre os gentios — “expor” e “pregar” não são sinônimos.
Irmãos, a pregação é o método escolhido por Deus para salvar pecadores (I Co 1:21). É claro que Ele também salva usando o Evangelho exposto de outras formas (como a conversa particular entre Filipe e o eunuco, por exemplo) — mas tanto I Co 1:21, quanto a comissão do Senhor, enfatizam a importância de se pregar o Evangelho! Há uma solenidade e autoridade associadas à pregação que faltam em outras formas de apresentar esta mensagem gloriosa, e toda igreja local deve dar importância à pregação. Os salvos podem (e devem) proclamar o Evangelho de todas as formas ao seu alcance: distribuindo folhetos, conversando em particular com aqueles que mostram interesse, etc., mas nunca em detrimento da pregação pública do Evangelho. Em outras palavras, nunca falte de uma reunião onde o Evangelho será pregado publicamente para distribuir folhetos, ou fazer um estudo, ou algo semelhante. Como igreja local, devemos dar prioridade à pregação do Evangelho, com reuniões semanais para este fim, e, sempre que possível, séries de reuniões de evangelização.
Num dia em que muitas igrejas estão preocupadas em tornar o Evangelho mais acessível, menos formal e solene, que nós possamos entender que a solenidade da pregação é enfatizada na comissão do Senhor Jesus Cristo.
b) O assunto (o Evangelho). É importante pregar; mas é fundamental pregar o Evangelho, não qualquer outra coisa! Temos um resumo do Evangelho em I Co 15:1:4: “Também vos notifico, irmãos, o Evangelho … Que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. Resumidamente, portanto, podemos afirmar que toda pregação do Evangelho irá apresentar a razão da morte de Cristo (Ele morreu por nossos pecados) e o resultado da morte de Cristo (Ele ressuscitou ao terceiro dia). É necessário mostrar que o pecado é tão grave que exigiu a morte do próprio Filho de Deus, e que a morte de Cristo é o sacrifício eficaz e suficiente para a nossa salvação (a ressurreição é a prova da eficácia da Sua morte, At 17:31). Como diz Rm 4:25, o Senhor Jesus Cristo “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação”.
É assim que pregamos? Ou gastamos a reunião inteira exortando o pecador quanto à brevidade da vida, quanto à necessidade de crer, mas não apresentamos Cristo crucificado como o meio de salvação? Podemos dizer, como Paulo: “Nós pregamos a Cristo crucificado”?
Vamos pregar, e pregar o Evangelho!
c) O alcance (todo o mundo, toda a criatura). Duas expressões semelhantes que mostram a abrangência da pregação do Evangelho. Em todo lugar aonde formos, e para qualquer pessoa com quem nos encontrarmos, devemos pregar.
Isto não quer dizer que cada um dos salvos precisa ir, literalmente, ao mundo inteiro e pregar, literalmente, a toda criatura — isto seria impossível. Mas devemos entender estas palavras como um alerta para não fazermos nenhuma discriminação. Não pode existir um lugar do mundo, do qual eu diga (ou pense): “Lá eu não quero ir pregar”, e não deve existir nenhum tipo de pessoa do qual eu diga (ou pense): “Para ele eu não quero pregar”. Todas as nações precisam do Evangelho, e todo tipo de pessoas dentro destas nações precisa do Evangelho. Seja rico ou pobre, religioso ou ateu, honesto ou criminoso, honrável ou imundo, devemos estar dispostos a pregar a todos.
Portanto, devemos pregar (com toda a solenidade e autoridade que esta palavra indica) o Evangelho (as boas novas da morte e ressurreição de Cristo) a todos (sem qualquer discriminação).
Em Marcos, o Senhor que lhes comissiona é apresentado, na Sua glória, de duas formas diferentes:
a) Recebido no Céu. Este verbo está na voz passiva, e enfatiza a maneira como o Céu se alegrou em receber aquele que venceu na cruz. É interessante notar que a ascensão do Senhor Jesus é descrita de quatro formas diferentes no NT, como dois verbos na voz passiva e dois na ativa, sempre associados à palavra “Céu”. Quanto à viagem daqui da Terra até o Céu, lemos que Ele foi elevado ao Céu (Lc 24:51 — voz passiva), mas também que Ele foi ao Céu pelo seu próprio poder e autoridade (At 1:11 e I Pe 3:22, traduzido “subido”, ambos os verbos na voz ativa). Quanto à entrada dEle do Céu, ao final da viagem, lemos que Ele foi recebido no Céu (aqui e em At 1:11, ambos os verbos na voz passiva), mas também lemos que entrou no Céu (Hb 9:24, voz ativa). O NT deixa claro, portanto, estes dois lados da moeda: o Céu abriu as portas para aquele que o mundo rejeitou, e Ele, pelo Seu próprio poder e autoridade, entrou ali.
b) Assentou-Se. Nesta segunda parte da descrição do Senhor, novamente vemos a Sua autoridade. O Céu abriu as portas para recebê-lO, e Ele, entrando, assentou-Se à direita de Deus. Esta é uma afirmação muito clara da divindade do Senhor Jesus Cristo. Quando o anti-cristo se assentar no Templo de Deus, a Bíblia diz que ele estará com isto “querendo parecer Deus” (II Ts 2:4) — mas o próprio Cristo se assenta, não só no Templo, mas no Céu, à direita de Deus, com toda a autoridade e glória que só Deus pode ter.
Irmãos, é este o Senhor que nos manda pregar: aquele que foi pregado numa cruz e morreu pelos nossos pecados — mas também aquele para quem os Céus abriram as suas portas, aquele que entrou vitorioso no Seu lar e assentou-se no Seu próprio trono, o trono de Deus. Aquele do qual diz o Sl 24: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da glória”.
O Rei da glória, antes de entrar pelos portais eternos e assentar-Se à destra do Deus eterno, nos mandou pregar o Evangelho. Estamos obedecendo?
Lemos que os discípulos obedeceram à comissão do Senhor: eles partiram, e pregaram por todas as partes. Enquanto obedeciam ao Senhor, tiveram o enorme privilégio de desfrutar da Sua cooperação — a cooperação do Rei da glória, assentado à destra de Deus! Em II Co 6:1, aprendemos que não apenas estes primeiros discípulos, mas todos quantos nos envolvemos no serviço glorioso de pregar o Evangelho (publicamente ou não), somos também cooperadores de Deus. Que privilégio imenso!
Além disto, lemos que o Senhor confirmou a palavra que eles pregavam, e fez isto através dos sinais que se seguiram. Sem tomar aqui o espaço necessário para desenvolver o assunto, convém lembrar que estes sinais seguiram aqueles primeiros discípulos, mas depois cessaram. Em I Coríntos (escrito mais ou menos no ano 55 a.D.) lemos dos dons sinais — porém Romanos cap. 12 e Efésios cap. 4, que foram escritos alguns anos depois, apresentam listas de dons espirituais (como I Coríntios), mas não incluem nenhum dom sinal nestas listas. E Marcos, escrevendo mais ou menos no ano 63 a.D., refere-se a estes sinais no passado (“sinais que se seguiram”, e não “que seguem”). Podemos deduzir que estes sinais cessaram antes do ano 60 desta nossa era.
Que o consolo destes versículos nos anime hoje: o Rei da glória nos manda pregar, mas Ele não nos deixa sozinhos — Ele mesmo estará conosco, cooperando com todo trabalho feito para Ele.
a) Abnegado (3:20 e 6:31) —tão dedicado que algumas vezes não tinha tempo para comer!
b) Atencioso. A palavra grega eutheos (“imediatamente”) ocorre 80 vezes no NT, e exatamente metade destas ocorrências estão neste pequeno livro de Marcos! Nenhum autor do NT usa tanto esta palavra quanto Marcos, descrevendo um serviço pronto feito por um Servo prestativo.
c) Amoroso. Mais do que os outros evangelistas, Marcos nos revela, muitas vezes, os sentimentos compassivos deste Servo perfeito (1:41; 6:34; 10:21, etc.).
Que nosso serviço seja semelhante ao serviço do nosso Mestre, o Servo perfeito.
Há três elementos desta comissão que podemos destacar:
a) O ato (discipular). “Fazei discípulos” é uma só palavra no texto original, e quer dizer “discipular”. Estamos conscientes de que a comissão do Senhor não foi apenas para pregarmos, mas também para discipularmos? Se estamos dando ênfase à pregação do Evangelho, ótimo — continuemos neste caminho. Mas tomemos cuidado para não estarmos tão ocupados com um aspecto da comissão à ponto de esquecermos do outro! Pecadores precisam ser salvos, mas salvos também precisam ser discipulados! Temos esta dupla preocupação aqui na comissão, e vemos o mesmo sendo ilustrado em Atos. No final da primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé passam de novo pelas cidades onde haviam pregado o Evangelho, agora com a intenção de confirmar o ânimo dos discípulos (At 14). A segunda viagem missionária foi iniciada com a intenção de visitar os irmãos em todas as cidades onde já haviam anunciado a Palavra do Senhor (At 15).
Este deve ser o padrão ainda hoje: pregar o Evangelho aos perdidos, e ensinar aqueles que crêem.
b) O alcance (todas as nações). Repare que a abrangência desta parte da comissão é idêntica à que já consideramos: todas as nações. Nenhum preconceito.
A diferença nas expressões é interessante. Em Marcos, onde lemos do Servo perfeito de Deus, e ênfase está nas pessoas como indivíduos (devemos pregar a toda criatura). Aqui, onde lemos do Rei dos reis, a ênfase está nas nações. O Rei tem autoridade sobre todas as nações, não importa quão poderosas ou influentes elas possam ser.
c) Os acessórios (batizar e ensinar). O Senhor menciona duas coisas que estão relacionadas com este ato de discipular:
i) Batismo. O NT deixa bem claro que todos os salvos devem ser batizados. Batismo não é necessário para a salvação, mas é estranho, no contexto do NT, um salvo não batizado. Certamente podem haver exceções (falta de tempo, como no caso do ladrão na cruz, ou alguma deficiência física grave, etc.), mas a regra é clara: quem crê, seja batizado. Se você já nasceu de novo e não foi batizado ainda, permita-me perguntar: o que você está esperando?
ii) Ensino. O que vamos ensinar? Todas as coisas que o Senhor mandou! Certamente isto inclui o ensino dados pelos apóstolos do Senhor após a Sua ascensão, ensinos que estão registrados nas epístolas. Inclui o ensino sobre a igreja local (a necessidade de reunir ao nome do Senhor Jesus, separadamente das denominações, e os princípios que governam uma igreja local). Vivemos dias em que os homens não suportam a sã doutrina, e muitos dentre o povo de Deus estão indo atrás de ventos de doutrina. Ensinar toda a verdade não nos tornará populares, mas é o mandamento do Senhor.
A palavra traduzida “poder” aqui refere-se a “poder” no sentido de “autoridade”, não de “capacidade”. A afirmação aqui não é que o Senhor consegue fazer qualquer coisa (uma verdade apresentada em outras partes da Bíblia), mas que Ele tem direito de fazer qualquer coisa.
Mateus é o Evangelho do Rei — nada mais apropriado, portanto, do que ver a autoridade que o Senhor apresenta para a Sua comissão. Quem é que nos manda fazer discípulos de todas as nações? Quem é este que tem autoridade para nos mandar interferir na cultura e nos costumes de todos os povos da Terra? Quem é este que Se coloca acima de todos os governos humanos? Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, aquele que recebeu toda a autoridade no Céu e na Terra. Não há ninguém que escapa da Sua autoridade —Ele controla tudo e todos. Ele foi colocado acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro, e tudo foi sujeito debaixo dos Seus pés (Ef 1:21-22).
Tal é a autoridade daquele que nos comissiona a ensinar todas as nações.
Marcos apresenta o que aconteceu quando os discípulos obedeceram à comissão do Senhor, mas Mateus apresenta uma promessa do que vai acontecer (e está acontecendo).
O Senhor promete estar conosco sempre, todos os dias, até a consumação dos séculos. A promessa não era somente até o final da vida dos apóstolos, mas até o final desta dispensação — a promessa é para nós. Todos os dias: mesmo quando esquecemos desta promessa; mesmo quando parece que ela não está sendo cumprida; mesmo quando gostaríamos que ela falhasse. Todos os dias, o Senhor sempre estará conosco — que precioso!
É interessante contrastar esta promessa incondicional com a promessa condicional de Mt 18:20. Ambas tem uma notável semelhança, mas também uma diferença importante: as duas promessas dizem respeito à presença do Senhor conosco, mas a promessa de 28:20 é incondicional, enquanto a de 18:20 é condicional. Ou seja, individualmente, o Senhor está com cada um dos Seus, sempre, todos os dias. Coletivamente, porém, só podemos saber que o Senhor reconhece nosso ajuntamento, e está no nosso meio, se estivermos reunidos ao Nome dEle!
Será que realmente apreciamos o privilégio que temos em fazer parte de uma igreja local?
O contexto deste Evangelho é o reino dos céus (uma expressão que ocorre mais de 30 vezes aqui em Mateus, e nunca mais no NT). É o Rei que tem autoridade para nos enviar a outros reinos atrás de novos discípulos. Ele não reconhece as barreiras de cultura, língua e tradições — Ele quer discípulos de todas as nações.
Repare também que este é o único dos quatro Evangelhos que usa a palavra “igreja”. No cap. 16 ela é usada da Igreja (o Corpo de Cristo), e no cap. 18 de uma igreja local. É o desejo do Rei que o reino cresça através do desenvolvimento de igrejas locais, composta de discípulos. Uma das nossas principais responsabilidades aqui na Terra é conseguir discípulos, e ensiná-los a reunir unicamente ao nome do Senhor Jesus Cristo, separados das denominações.
Estamos cumprindo esta comissão? As igrejas locais são caracterizadas por fervor evangelístico e zelo doutrinário? Cada um de nós, dependendo do dom que possuímos, irá se dedicar mais a uma ou outra destas tarefas, mas devemos reconhecer que ambas são igualmente importantes, e que cada igreja local deve preocupar-se com estes dois aspectos do seu serviço: pregar o Evangelho, e discipular os salvos.
Que Deus nos ajude nesta tarefa.
© W. J. Watterson
Leitura: Mateus 28:18-20 e Marcos 16:15-20
Os versículos acima apresentam aquilo que é chamado de A Grande Comissão — a última ordem do Senhor Jesus Cristo aos Seus servos antes de deixar este mundo. Certamente devemos prestar atenção ao que Ele disse, e nos familiarizarmos bem com esta comissão.
Em primeiro lugar, repare que esta comissão tem dois componentes distintos, cada um apresentado por um dos evangelistas. Em Mateus lemos: “Ide, fazei discípulos de [literalmente, “discipulai”] todas as nações”, e em Marcos: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura”. As duas ocorrências do verbo “ide” nestes dois trechos estão no particípio (no grego), e os únicos verbos que estão na voz imperativa nestas duas comissões são “fazei discípulos [discipulai]” em Mateus e “pregai” em Marcos. Hoje em dia ouvimos muita ênfase sendo colocada no verbo “ide”, mas precisamos lembrar que, apesar de toda a importância de irmos ao mundo inteiro, a ênfase nestes dois trechos não é no “ir”, mas no “pregar” e “discipular”.
A comissão, portanto, é dupla, e poderia ser traduzida assim: “Indo por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura, e discipulai todas as nações”. Mateus apresenta um aspecto dela (o discipulado), Marcos outro (a evangelização), e os outros dois evangelistas a omitem totalmente.
Estas diferenças entre os quatro evangelistas são de suma importância para entendermos corretamente a mensagem de cada um destes relatos inspirados. São quatro retratos da mesma Pessoa e da mesma vida, mas vistos de quatro pontos de vista diferentes. Muitos já tem comparado os quatro relatos com os quatro seres viventes de Ezequiel cap. 1 e Apocalipse cap. 4, seguindo a mesma ordem apresentada em Apocalipse:
- O primeiro era semelhante a um leão, um símbolo de realeza (Ap 5:5). Em Mateus, Cristo é apresentado como o Rei de Israel.
- O segundo era semelhante a um bezerro, figura de serviço (I Co 9:9; Pv 14:4). Em Marcos, Cristo é apresentado como o Servo perfeito.
- O terceiro animal tinha o rosto de homem, lembrando-nos da compaixão humana (Os 11:4). Lucas, o médico amado, nos apresenta o Homem perfeito.
- O quarto era semelhante a uma águia voando, lembrando-nos daquilo que é do Céu, alto demais para a nossa compreensão (Pv 30:18-19). João nos apresenta a perfeição do Filho de Deus.
Por que Deus nos revelou o Seu Filho assim? Como Andrew Jukes escreve, isto facilita a nossa compreensão da multiforme beleza do nosso Senhor. Com nossa visão limitada, só conseguimos ver as diferentes cores que compõe um feixe de luz quando um prisma é usada para separar estas cores uma das outras. Assim o Senhor, conhecendo a nossa limitação, nos deu estas quatro revelações complementares do Seu Filho. Na glória dos Céus poderemos vê-lO como Ele é, mas hoje é necessário termos estes retratos diferentes. O jardim do Éden, com suas condições perfeitas, podia comportar um rio. Mas quando aquele rio saia do Éden e alcançava as terras comuns que rodeavam o Jardim de Deus, era necessário que ele se dividisse em quatro braços. Assim também com Cristo.
Outro rio do VT nos ajuda aqui. Em Ez 47 lemos de um rio que saia do Templo e atingia o deserto, levando vida e bênção a todos. Quatro vezes Ezequiel é chamado a atravessar o rio, que vai se tornando progressivamente mais profundo. Assim Mateus apresenta um retrato do Senhor que é mais simples de compreender: Ele é o Rei, exatamente como os judeus esperavam que seu Messias fosse. Marcos, falando-nos de como o Rei se fez Servo, apresenta algo que confunde o ser humano — temos dificuldade de entender um amor que faz alguém se humilhar tanto. Em Lucas, porém, as águas são mais profundas: o Rei eterno não se fez apenas servo, Ele tomou a forma humana. Quem pode compreender o mistério da encarnação? Quando chegamos em João, porém, encontramos aquele “rio que eu não podia atravessar”, como escreve Ezequiel. João nos revela detalhes do relacionamento divino entre o Pai e o Filho que estão ausentes nos outros Evangelhos, e nos levam até às portas do Céu.
Lembrando que cada um dos Evangelistas apresenta a mesma história, mas de pontos de vistas diferentes, devemos prestar atenção aos diferentes aspectos da comissão do Senhor Jesus que são apresentados por Mateus e por Marcos. É uma comissão só, com dois componentes principais (evangelizar e discipular) — mas não é à toa que esta única comissão é apresentada em dois relatos bem distintos.
Consideremos, então, resumidamente, os dois componentes da comissão do Senhor Jesus.
Pregai (Marcos)
Comecemos com Marcos, pois no nosso serviço para o Senhor “pregar” vem antes de “discipular”. Consideremos quatro coisas neste trecho: a comissão, a forma como o Comissionador (Cristo) é apresentado, a companhia do Senhor com os discípulos, e o contexto da comissão.A comissão
“Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura”Há três elementos desta comissão que podemos destacar: o ato (pregar), seu assunto (o Evangelho) e seu alcance (todo o mundo e toda criatura).
a) O ato (pregai). O verbo que é usado aqui pelo Senhor quer dizer, literalmente, “proclamar como um arauto” (o dicionário de Thayer acrescenta: “sempre com uma sugestão de formalidade, solenidade e autoridade que exigem atenção e obediência”). Em tempos antigos, o arauto era um funcionário escolhido pelas autoridades para transmitir ao povo comunicados importantes. Vestido com vestes oficiais, ele lia, em voz alta e em locais públicos, aquilo que o governante lhe havia entregado para declarar. Ele não tinha a função de explicar o porquê daquela mensagem, nem exortar os ouvintes a obedecê-la — a sua responsabilidade era apenas proclamá-la.
“Pregar” não é dialogar, nem discutir, nem ensinar por métodos indutivos, mas é declarar, anunciar, dar um recado. Veja a diferença apresentada por Paulo em Gl 2:2: “E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios” (Gl 2:2). Aos irmãos ele “expôs” aquilo que “pregava” entre os gentios — “expor” e “pregar” não são sinônimos.
Irmãos, a pregação é o método escolhido por Deus para salvar pecadores (I Co 1:21). É claro que Ele também salva usando o Evangelho exposto de outras formas (como a conversa particular entre Filipe e o eunuco, por exemplo) — mas tanto I Co 1:21, quanto a comissão do Senhor, enfatizam a importância de se pregar o Evangelho! Há uma solenidade e autoridade associadas à pregação que faltam em outras formas de apresentar esta mensagem gloriosa, e toda igreja local deve dar importância à pregação. Os salvos podem (e devem) proclamar o Evangelho de todas as formas ao seu alcance: distribuindo folhetos, conversando em particular com aqueles que mostram interesse, etc., mas nunca em detrimento da pregação pública do Evangelho. Em outras palavras, nunca falte de uma reunião onde o Evangelho será pregado publicamente para distribuir folhetos, ou fazer um estudo, ou algo semelhante. Como igreja local, devemos dar prioridade à pregação do Evangelho, com reuniões semanais para este fim, e, sempre que possível, séries de reuniões de evangelização.
Num dia em que muitas igrejas estão preocupadas em tornar o Evangelho mais acessível, menos formal e solene, que nós possamos entender que a solenidade da pregação é enfatizada na comissão do Senhor Jesus Cristo.
b) O assunto (o Evangelho). É importante pregar; mas é fundamental pregar o Evangelho, não qualquer outra coisa! Temos um resumo do Evangelho em I Co 15:1:4: “Também vos notifico, irmãos, o Evangelho … Que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”. Resumidamente, portanto, podemos afirmar que toda pregação do Evangelho irá apresentar a razão da morte de Cristo (Ele morreu por nossos pecados) e o resultado da morte de Cristo (Ele ressuscitou ao terceiro dia). É necessário mostrar que o pecado é tão grave que exigiu a morte do próprio Filho de Deus, e que a morte de Cristo é o sacrifício eficaz e suficiente para a nossa salvação (a ressurreição é a prova da eficácia da Sua morte, At 17:31). Como diz Rm 4:25, o Senhor Jesus Cristo “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação”.
É assim que pregamos? Ou gastamos a reunião inteira exortando o pecador quanto à brevidade da vida, quanto à necessidade de crer, mas não apresentamos Cristo crucificado como o meio de salvação? Podemos dizer, como Paulo: “Nós pregamos a Cristo crucificado”?
Vamos pregar, e pregar o Evangelho!
c) O alcance (todo o mundo, toda a criatura). Duas expressões semelhantes que mostram a abrangência da pregação do Evangelho. Em todo lugar aonde formos, e para qualquer pessoa com quem nos encontrarmos, devemos pregar.
Isto não quer dizer que cada um dos salvos precisa ir, literalmente, ao mundo inteiro e pregar, literalmente, a toda criatura — isto seria impossível. Mas devemos entender estas palavras como um alerta para não fazermos nenhuma discriminação. Não pode existir um lugar do mundo, do qual eu diga (ou pense): “Lá eu não quero ir pregar”, e não deve existir nenhum tipo de pessoa do qual eu diga (ou pense): “Para ele eu não quero pregar”. Todas as nações precisam do Evangelho, e todo tipo de pessoas dentro destas nações precisa do Evangelho. Seja rico ou pobre, religioso ou ateu, honesto ou criminoso, honrável ou imundo, devemos estar dispostos a pregar a todos.
Portanto, devemos pregar (com toda a solenidade e autoridade que esta palavra indica) o Evangelho (as boas novas da morte e ressurreição de Cristo) a todos (sem qualquer discriminação).
O Comissionador
“O Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-Se à direita de Deus”.Em Marcos, o Senhor que lhes comissiona é apresentado, na Sua glória, de duas formas diferentes:
a) Recebido no Céu. Este verbo está na voz passiva, e enfatiza a maneira como o Céu se alegrou em receber aquele que venceu na cruz. É interessante notar que a ascensão do Senhor Jesus é descrita de quatro formas diferentes no NT, como dois verbos na voz passiva e dois na ativa, sempre associados à palavra “Céu”. Quanto à viagem daqui da Terra até o Céu, lemos que Ele foi elevado ao Céu (Lc 24:51 — voz passiva), mas também que Ele foi ao Céu pelo seu próprio poder e autoridade (At 1:11 e I Pe 3:22, traduzido “subido”, ambos os verbos na voz ativa). Quanto à entrada dEle do Céu, ao final da viagem, lemos que Ele foi recebido no Céu (aqui e em At 1:11, ambos os verbos na voz passiva), mas também lemos que entrou no Céu (Hb 9:24, voz ativa). O NT deixa claro, portanto, estes dois lados da moeda: o Céu abriu as portas para aquele que o mundo rejeitou, e Ele, pelo Seu próprio poder e autoridade, entrou ali.
b) Assentou-Se. Nesta segunda parte da descrição do Senhor, novamente vemos a Sua autoridade. O Céu abriu as portas para recebê-lO, e Ele, entrando, assentou-Se à direita de Deus. Esta é uma afirmação muito clara da divindade do Senhor Jesus Cristo. Quando o anti-cristo se assentar no Templo de Deus, a Bíblia diz que ele estará com isto “querendo parecer Deus” (II Ts 2:4) — mas o próprio Cristo se assenta, não só no Templo, mas no Céu, à direita de Deus, com toda a autoridade e glória que só Deus pode ter.
Irmãos, é este o Senhor que nos manda pregar: aquele que foi pregado numa cruz e morreu pelos nossos pecados — mas também aquele para quem os Céus abriram as suas portas, aquele que entrou vitorioso no Seu lar e assentou-se no Seu próprio trono, o trono de Deus. Aquele do qual diz o Sl 24: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da glória”.
O Rei da glória, antes de entrar pelos portais eternos e assentar-Se à destra do Deus eterno, nos mandou pregar o Evangelho. Estamos obedecendo?
A companhia
“Cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que seguiram. Amém.”Lemos que os discípulos obedeceram à comissão do Senhor: eles partiram, e pregaram por todas as partes. Enquanto obedeciam ao Senhor, tiveram o enorme privilégio de desfrutar da Sua cooperação — a cooperação do Rei da glória, assentado à destra de Deus! Em II Co 6:1, aprendemos que não apenas estes primeiros discípulos, mas todos quantos nos envolvemos no serviço glorioso de pregar o Evangelho (publicamente ou não), somos também cooperadores de Deus. Que privilégio imenso!
Além disto, lemos que o Senhor confirmou a palavra que eles pregavam, e fez isto através dos sinais que se seguiram. Sem tomar aqui o espaço necessário para desenvolver o assunto, convém lembrar que estes sinais seguiram aqueles primeiros discípulos, mas depois cessaram. Em I Coríntos (escrito mais ou menos no ano 55 a.D.) lemos dos dons sinais — porém Romanos cap. 12 e Efésios cap. 4, que foram escritos alguns anos depois, apresentam listas de dons espirituais (como I Coríntios), mas não incluem nenhum dom sinal nestas listas. E Marcos, escrevendo mais ou menos no ano 63 a.D., refere-se a estes sinais no passado (“sinais que se seguiram”, e não “que seguem”). Podemos deduzir que estes sinais cessaram antes do ano 60 desta nossa era.
Que o consolo destes versículos nos anime hoje: o Rei da glória nos manda pregar, mas Ele não nos deixa sozinhos — Ele mesmo estará conosco, cooperando com todo trabalho feito para Ele.
O contexto
A ordem para pregar se encontra em Marcos, o Evangelho do Servo perfeito. Estamos servindo ao Senhor como Ele serviu? Seu serviço foi:a) Abnegado (3:20 e 6:31) —tão dedicado que algumas vezes não tinha tempo para comer!
b) Atencioso. A palavra grega eutheos (“imediatamente”) ocorre 80 vezes no NT, e exatamente metade destas ocorrências estão neste pequeno livro de Marcos! Nenhum autor do NT usa tanto esta palavra quanto Marcos, descrevendo um serviço pronto feito por um Servo prestativo.
c) Amoroso. Mais do que os outros evangelistas, Marcos nos revela, muitas vezes, os sentimentos compassivos deste Servo perfeito (1:41; 6:34; 10:21, etc.).
Que nosso serviço seja semelhante ao serviço do nosso Mestre, o Servo perfeito.
Discipulai (Mateus)
Aqui também quero considerar quatro assuntos neste trecho: a comissão, a forma como Cristo, o Comissionador, é apresentado, a companhia do Senhor com os discípulos, e o contexto da comissão.A comissão
“Ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as cosias que Eu vos tenho mandado”Há três elementos desta comissão que podemos destacar:
a) O ato (discipular). “Fazei discípulos” é uma só palavra no texto original, e quer dizer “discipular”. Estamos conscientes de que a comissão do Senhor não foi apenas para pregarmos, mas também para discipularmos? Se estamos dando ênfase à pregação do Evangelho, ótimo — continuemos neste caminho. Mas tomemos cuidado para não estarmos tão ocupados com um aspecto da comissão à ponto de esquecermos do outro! Pecadores precisam ser salvos, mas salvos também precisam ser discipulados! Temos esta dupla preocupação aqui na comissão, e vemos o mesmo sendo ilustrado em Atos. No final da primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé passam de novo pelas cidades onde haviam pregado o Evangelho, agora com a intenção de confirmar o ânimo dos discípulos (At 14). A segunda viagem missionária foi iniciada com a intenção de visitar os irmãos em todas as cidades onde já haviam anunciado a Palavra do Senhor (At 15).
Este deve ser o padrão ainda hoje: pregar o Evangelho aos perdidos, e ensinar aqueles que crêem.
b) O alcance (todas as nações). Repare que a abrangência desta parte da comissão é idêntica à que já consideramos: todas as nações. Nenhum preconceito.
A diferença nas expressões é interessante. Em Marcos, onde lemos do Servo perfeito de Deus, e ênfase está nas pessoas como indivíduos (devemos pregar a toda criatura). Aqui, onde lemos do Rei dos reis, a ênfase está nas nações. O Rei tem autoridade sobre todas as nações, não importa quão poderosas ou influentes elas possam ser.
c) Os acessórios (batizar e ensinar). O Senhor menciona duas coisas que estão relacionadas com este ato de discipular:
i) Batismo. O NT deixa bem claro que todos os salvos devem ser batizados. Batismo não é necessário para a salvação, mas é estranho, no contexto do NT, um salvo não batizado. Certamente podem haver exceções (falta de tempo, como no caso do ladrão na cruz, ou alguma deficiência física grave, etc.), mas a regra é clara: quem crê, seja batizado. Se você já nasceu de novo e não foi batizado ainda, permita-me perguntar: o que você está esperando?
ii) Ensino. O que vamos ensinar? Todas as coisas que o Senhor mandou! Certamente isto inclui o ensino dados pelos apóstolos do Senhor após a Sua ascensão, ensinos que estão registrados nas epístolas. Inclui o ensino sobre a igreja local (a necessidade de reunir ao nome do Senhor Jesus, separadamente das denominações, e os princípios que governam uma igreja local). Vivemos dias em que os homens não suportam a sã doutrina, e muitos dentre o povo de Deus estão indo atrás de ventos de doutrina. Ensinar toda a verdade não nos tornará populares, mas é o mandamento do Senhor.
O Comissionador
“É-me dado todo o poder no Céu e na Terra”A palavra traduzida “poder” aqui refere-se a “poder” no sentido de “autoridade”, não de “capacidade”. A afirmação aqui não é que o Senhor consegue fazer qualquer coisa (uma verdade apresentada em outras partes da Bíblia), mas que Ele tem direito de fazer qualquer coisa.
Mateus é o Evangelho do Rei — nada mais apropriado, portanto, do que ver a autoridade que o Senhor apresenta para a Sua comissão. Quem é que nos manda fazer discípulos de todas as nações? Quem é este que tem autoridade para nos mandar interferir na cultura e nos costumes de todos os povos da Terra? Quem é este que Se coloca acima de todos os governos humanos? Ele é o Rei dos reis e Senhor dos senhores, aquele que recebeu toda a autoridade no Céu e na Terra. Não há ninguém que escapa da Sua autoridade —Ele controla tudo e todos. Ele foi colocado acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro, e tudo foi sujeito debaixo dos Seus pés (Ef 1:21-22).
Tal é a autoridade daquele que nos comissiona a ensinar todas as nações.
A companhia
“Eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.”Marcos apresenta o que aconteceu quando os discípulos obedeceram à comissão do Senhor, mas Mateus apresenta uma promessa do que vai acontecer (e está acontecendo).
O Senhor promete estar conosco sempre, todos os dias, até a consumação dos séculos. A promessa não era somente até o final da vida dos apóstolos, mas até o final desta dispensação — a promessa é para nós. Todos os dias: mesmo quando esquecemos desta promessa; mesmo quando parece que ela não está sendo cumprida; mesmo quando gostaríamos que ela falhasse. Todos os dias, o Senhor sempre estará conosco — que precioso!
É interessante contrastar esta promessa incondicional com a promessa condicional de Mt 18:20. Ambas tem uma notável semelhança, mas também uma diferença importante: as duas promessas dizem respeito à presença do Senhor conosco, mas a promessa de 28:20 é incondicional, enquanto a de 18:20 é condicional. Ou seja, individualmente, o Senhor está com cada um dos Seus, sempre, todos os dias. Coletivamente, porém, só podemos saber que o Senhor reconhece nosso ajuntamento, e está no nosso meio, se estivermos reunidos ao Nome dEle!
Será que realmente apreciamos o privilégio que temos em fazer parte de uma igreja local?
O contexto
Mateus é quem nos fala acerca da necessidade de discipular — por quê?O contexto deste Evangelho é o reino dos céus (uma expressão que ocorre mais de 30 vezes aqui em Mateus, e nunca mais no NT). É o Rei que tem autoridade para nos enviar a outros reinos atrás de novos discípulos. Ele não reconhece as barreiras de cultura, língua e tradições — Ele quer discípulos de todas as nações.
Repare também que este é o único dos quatro Evangelhos que usa a palavra “igreja”. No cap. 16 ela é usada da Igreja (o Corpo de Cristo), e no cap. 18 de uma igreja local. É o desejo do Rei que o reino cresça através do desenvolvimento de igrejas locais, composta de discípulos. Uma das nossas principais responsabilidades aqui na Terra é conseguir discípulos, e ensiná-los a reunir unicamente ao nome do Senhor Jesus Cristo, separados das denominações.
Conclusão
Nestes dois trechos temos, portanto, uma única comissão, mas com dois elementos distintos. Aprendemos que o Servo perfeito nos manda pregar o Evangelho a todos, indistintamente, seguindo o Seu exemplo de serviço perfeito e abnegado. Aprendemos também que o Rei nos manda fazer discípulos de todas as nações, batizá-los e ensiná-los a obedecer tudo que Ele nos ensinou.Estamos cumprindo esta comissão? As igrejas locais são caracterizadas por fervor evangelístico e zelo doutrinário? Cada um de nós, dependendo do dom que possuímos, irá se dedicar mais a uma ou outra destas tarefas, mas devemos reconhecer que ambas são igualmente importantes, e que cada igreja local deve preocupar-se com estes dois aspectos do seu serviço: pregar o Evangelho, e discipular os salvos.
Que Deus nos ajude nesta tarefa.
© W. J. Watterson
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