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Sunday, 30 September 2018

Cronologia da morte e ressurreição do Senhor

Observação: Apêndice de um estudo detalhado sobre as Sete Solenidades de Levítico cap. 23. As considerações abaixo só farão sentido se lembrarmos que o “dia” judaico começa com o pôr-do-sol. Assim o dia 14 de Nisan (dia da Páscoa) termina quando o Sol se põe (18h00 mais ou menos), e aquela noite já é considerada o dia 15.

Se tivéssemos apenas os evangelhos sinópticos, entenderíamos que quando a Ceia do Senhor foi instituída o Senhor Jesus participava da ceia da Páscoa com Seus discípulos, na mesma noite em que todos os judeus estariam celebrando esta festa. O cordeiro da Páscoa teria sido morto na tarde do dia 14, e naquela noite, 15 de Nisan, era celebrada a ceia da Páscoa; o Senhor seria crucificado na tarde do dia 15.

Sunday, 17 June 2018

As Sete Solenidades do Senhor

Levítico cap. 23 começa assim: “As solenidades do Senhor, que convocareis, serão santas convocações; estas são as Minhas solenidades”. Em seguida são listadas sete datas especiais que Israel deveria celebrar todo ano. Pode parecer só uma lista de festividades antigas, que não tem nada a nos ensinar — mas temos aqui um tesouro de ensino!

(Ouça uma série de pregações sobre este assunto clicando aqui)

Tuesday, 16 September 2014

O maná e a vida de Cristo

Muito já foi escrito acerca das diversas lições que o maná nos ensina sobre Cristo. Nesta pequena meditação quero destacar a maneira como o maná foi chamado na Bíblia (seja pelos homens, seja por Deus). Temos sete nomes diferentes para descrever o maná:

  1. Pão dos Céus (Êx 16:4);
  2. Maná (Êx 16:15);
  3. Pão vil (Nm 21:5);
  4. Trigo do Céu (Sl 78:24);
  5. Pão dos anjos (Sl 78:25);
  6. Comida espiritual (I Co 10:3);
  7. Maná escondido (Ap 2:17).

O mais impressionante desta lista é perceber como estes títulos, na ordem em que aparecem nas Escrituras, apresentam um resumo cronológico do relacionamento de Cristo com os homens. Os primeiros quatro descrevem Sua trajetória dos Céus até o Calvário, e os últimos três resumem Seu ministério presente. Como são perfeitas as Escrituras! Quando Deus inspirou Moisés a escrever Êxodo cap. 16, Ele já tinha em vista o texto de Apocalipse 2, e distribuiu estes sete títulos pela Sua Palavra desta forma tão perfeita.

Sem tomar muito espaço para desenvolver este assunto, repare resumidamente os paralelos entre a lista de sete títulos acima e a vida do Senhor Jesus.

O primeiro título, Pão dos Céus, lembra-nos que Cristo veio dos Céus para habitar entre nós. Para muitos Ele era de Nazaré; alguns poderiam afirmar que Ele viera de Belém; na realidade, Ele veio do Céu.

O segundo título (“maná”) indica espanto e surpresa. A exclamação dos judeus quando viram o maná pela primeira vez (“Que é isto?”, Êx 16:15) é, no hebraico, “Maná?” Surpresos ao ver algo totalmente diferente, eles disseram: “Maná?”, ou, em português: “Que é isto?”, e esta expressão acabou se tornando o nome mais conhecido deste alimento. O espanto dos judeus é, até certo ponto, normal (afinal, nunca antes alguém vira maná), mas é também, injustificável (pois Deus havia avisado no dia anterior que lhes daria pão do Céu). A verdade é que, por esquecimento, ou por desprezo, ficaram espantados quando viram o maná.

É exatamente isto que aconteceu com o Senhor quando Ele veio ao mundo. Apesar da Sua vinda ter sido amplamente profetizada, e do povo de Israel aguardar ansiosamente a vinda do Messias, quando Ele finalmente veio, ficaram espantados. Os principais dos judeus admiraram a Sua inteligência e respostas quando Ele tinha doze anos (Lc 2:47). Os habitantes de Nazaré, que conviveram com Ele durante toda a Sua infância e juventude, quando O ouviram pregar pela primeira vez “se maravilhavam … e diziam: Não é este o Filho de José?” (Lc 4:22). A maneira como Ele nasceu e viveu, a maneira como Se comportou, a maneira como pregava, as pessoas com quem andava, tudo foi motivo de espanto para aqueles que deveriam estar preparados para recebê-lO.

Quando passamos para o terceiro título (“Pão vil”) somos lembrados que os homens rapidamente passaram do espanto para o ódio, e clamaram pedindo a Sua crucificação.

O quarto título, porém, nos lembra que aquele que os homens odiaram e crucificaram produziu muito fruto para Deus pela Sua ressurreição. Quando Deus chama o maná de “trigo dos Céus”, a substituição da palavra “pão” pela palavra “trigo” muda a ênfase do alimento, não mais enfatizando o sustento que ele traz, mas sim o fruto que ele produz (o trigo é muitas vezes usado nas Escrituras como símbolo de fruto; veja Jo 12:24).

O quinto título (“pão dos anjos”) nos lembra que hoje Ele está rodeado dos anjos, sendo adorado na glória celeste, enquanto que o sexto (“alimento espiritual”) lembra-nos da nossa necessidade de alimentar-nos dEle enquanto atravessamos o deserto em que estamos hoje.

E, por fim, o próprio Senhor fala do “maná escondido”. Em Êx 16:32-34 encontramos a ordem do Senhor para guardar um ômer de maná perante o Senhor, e este ômer de maná foi escondido dentro da arca da aliança (Hb 9) no Santo dos Santos. Tudo no Tabernáculo fala de Cristo; as coisas “escondidas”, porém, aquelas que ficam além do véu, sem dúvida falam daquilo que Cristo representa para o Pai, das belezas e glórias dEle que estão ocultas ao olho humano. Creio que o Senhor está dizendo que o vencedor poderá apreciar belezas da glória de Cristo que apenas o Pai conhece. Quão grande seria este privilégio! Não apenas conhecê-lO como Seus santos O conhecem, mas conhecê-lO como o Pai O conhece! Lembrando que I Co 2:9-10 nos fala de coisas inescrutáveis para o homem natural, mas que são reveladas hoje aos que O amam, podemos crer que este privilégio pode ser nosso hoje!

Assim, os sete títulos falam de como Cristo encarnou-Se (“pão dos Céus”), foi recebido com espanto (“maná — que é isto?”) e ódio (“pão vil”), mas pela Sua morte e ressurreição produziu muito fruto para Deus (“trigo do Céu”). Elevado à glória celeste, Ele hoje é o “pão dos anjos” quanto ao Céu, e o “alimento espiritual” para Seu povo aqui na Terra. Como seria bom se também estivéssemos nos alimentando do maná escondido, que tanto agrada ao coração do Pai!

Levantemos cedo de nossas camas, então, ansiosos por colher o Maná diário do qual tanto precisamos!

© W. J. Watterson

Wednesday, 30 April 2014

Correção sobre a cronologia neobabilônica

Prezados irmãos,

O lema da família Watterson, desde o século XIII, é “Veritas vincit omnia” (“A verdade vence sempre”). O que importa mesmo, no final das contas, não é o que eu penso ou prefiro, mas sim a verdade. Sendo assim, devemos estar sempre prontos a rever nossas convicções, e corrigi-las sempre que necessário.

Neste post, desejo reconhecer que eu estava errado em relação àquilo que tenho afirmado (por escrito e do púlpito) sobre a cronologia do período neobabilônico. É um detalhe que só vai interessar um grupo muito pequeno da audiência (muito pequena) deste blog; mas um detalhe que, para quem se interessa pelo assunto, é importante. Entendendo que eu posso ter influenciado alguém a crer em algo que considero errado, é minha responsabilidade tentar corrigir este erro.

Primeiro, apresento a correção, resumidamente; depois, para quem estiver interessado, uma explicação um pouco mais detalhada.

Correção

Até poucos dias atrás eu aceitava a cronologia do período neobabilônico exposta por Martin Anstey (The Romance of Bible Chronology. London, Marshal Brothers, 1913). Duas datas-chave desta cronologia são:
  • Destruição de Jerusalém — 504 a.C.
  • Primeiro ano de Ciro — 454 a.C.
Descobertas arqueológicas no último século, porém, provaram que Anstey estava errado, e que a cronologia recebida (deste período) estava certa. Sendo assim, tenho que reconhecer que as datas citadas acima deveriam ser modificadas da seguinte forma:
  • Destruição de Jerusalém — 586 a.C.
  • Primeiro ano de Ciro — 539 a.C.
Conforme o tempo permitir, pretendo examinar este blog e corrigir qualquer data relacionada a este período, baseado nestes dados.

Explicação

Por que eu seguia Anstey? E por que mudei de opinião?

Os argumentos apresentados por Anstey eram muito coerentes diante dos fatos conhecidos na época em que o livro dele foi escrito (1913). Naquela época, a cronologia secular do período em questão era baseada nos escritos de Ptolemy (ou Ptolomeu), principalmente numa lista de reis da Babilônia e Persa (o Cânon Real) preparada muitos séculos depois dos fatos. Como os dados apresentados por Ptolemy não combinavam com a forma como Anstey interpretava algumas profecias do Velho Testamento (principalmente a profecia das setenta semanas de Daniel cap. 9), Anstey afirmou (e eu repeti) que a palavra do profeta inspirado era mais confiável do que a palavra dum astrônomo egípcio. Não haviam outras fontes daquele período que poderiam confirmar os dados de Ptolemy, ele não era contemporâneo dos reis que descrevia, então não parecia sábio seguir cegamente um aparato cronológico escrito por um astrônomo que viveu tanto tempo depois dos fatos em questão.

Hoje em dia, porém, a realidade é outra. Milhares de documentos da Babilônia antiga foram descobertos no século XIX e XX, e conforme vão sendo traduzidos e publicados (um processo lento) vai se percebendo que os dados cronológicos apresentados por Ptolemy são altamente confiáveis. Eis alguns exemplos:
  • Há um “diário astronômico” conhecido como VAT 4956 que descreve, em diversas ocasiões diferentes, a posição da Lua e dos cinco planetas conhecidos naquela época. Cerca de trinta destas descrições estão bem preservadas, e são datadas no diário (é dada a hora da observação, o dia, o mês, e o ano: todas as observações são do início do 37º ano ao início do 38º ano de Nabucodonosor). Com os conhecimentos astronômicos que temos hoje em dia, a posição da Lua e dos planetas em qualquer data pode ser facilmente calculada. Astrônomos afirmam que, contando para trás a partir dos dias atuais, as posições relativas ocupadas pela Lua e pelos planetas conforme descritos no diário aconteceram no ano de 568/567 a.C. (da primavera de 568 à primavera de 567). Assim fica estabelecido, pelo curso dos corpos celestes (e não simplesmente por tabelas cronológicas de antigos), que o 37º ano de Nabucodonosor começou em 568 a.C.
  • Além disto, milhares de contratos comerciais daquela época foram descobertos nos últimos anos (da firma conhecida como “Egibi e filhos”, por exemplo). Estes contratos são todos datados, trazendo a inscrição: “ano XX do rei XXXXX”. Nestes milhares de contratos descobertos existe menção feita a todos os anos de todos os reis mencionados na lista dos reis de Ptolemy (por exemplo, se Ptolemy afirma que um determinado rei reinou durante vinte anos, existem contratos datados do 1º ano, outros do 2º ano, e assim sucessivamente, até ao 20º ano deste rei). Todos estes milhares de contratos concordam perfeitamente com a lista de Ptolemy.
Diante de tais fatos, não é coerente afirmar mais que a cronologia recebida do período neobabilônico esta errada; é a interpretação de Anstey (e, por consequência, a minha), que estava errada.

Gostaria de ressaltar que trata-se de rejeitar uma interpretação humana, não as palavras inspiradas de Deus. Nunca terei vergonha de discordar das interpretações dos homens (não importa quão sábios sejam estes homens) quando estas interpretações discordarem da Palavra de Deus. Um bom exemplo disto é a teoria da evolução; os sábios deste mundo interpretam o registro dos fósseis como sendo prova de que tudo veio do nada, enquanto que a Bíblia afirma que Deus criou tudo. Acredito no que Deus diz na Sua Palavra, e prefiro ver os fósseis como o registro de transformações cataclísmicas controladas por Deus.

Como escrevi acima, nunca terei vergonha de discordar das interpretações dos homens quando eles discordarem da Palavra de Deus, mas não posso defender uma interpretação minha quando ela contradiz fatos históricos que não podem ser negados.

Fica o registro, portanto, da correção, acompanhada da oração para que Deus nos ajuda mais e mais a compreender a Sua Palavra e a Sua vontade.

© W. J. Watterson

Thursday, 20 March 2014

Diferenças entre as listas de Esdras e Neemias

Apresento abaixo uma tabela comparativa das listas dos filhos de Israel que voltaram do Cativeiro na Babilônia. Há duas listas nas Escrituras; uma em Esdras cap. 2, a outra em Neemias cap. 7, e há duas coisas sobre estas listas que devem ser mencionadas:


O total não combina com os detalhes

No final de cada lista é dado o número total dos que voltaram do cativeiro, e este número é idêntico nas duas listas: 42.360. O problema é que a soma das famílias mencionadas nas listas é bem menor do que 42.360: na lista de Esdras há somente 29.818 pessoas mencionadas, e na de Neemias, 31.089. Restam, portanto, mais de dez mil pessoas (12.542 em Esdras, e 11.271 em Neemias). Há duas possíveis explicações para esta diferença:

• A literatura judaica antiga (Seder Olam Rabah, c. 29, p. 86) afirma que este excesso era de Israelitas das dez tribos, aquelas que foram levadas ao cativeiro na Assíria, e não na Babilônia. Os que voltaram de Judá e Benjamin foram identificados pelas suas famílias, mas alguns das outras tribos ouviram do retorno de seus irmãos do Exílio, e se juntaram a eles; estes não foram mencionados por nome.

• Há uma diferença nas palavras usadas. O início das listas usa a palavra enowsh (“homem”), enquanto que o total é relacionado à palavra qahal (“multidão”): “O número dos homens do povo de Israel … Toda esta congregação junta …” (Ed 2:2, 64; Nm 7:7, 66). É possível, portanto, que apenas os homens foram listados por nomes, e as mulheres [Nota 1] e crianças constituem o número excedente.

Qualquer uma das duas sugestões é possível; a primeira me parece mais provável.

Os detalhes não combinam entre si

Esdras e Neemias apresentam números diferentes para várias das famílias. Na tabela abaixo, todas as linhas destacadas com a cor amarela contém alguma diferença entre os números fornecidos em Esdras e os de Neemias (são vinte e oito registros iguais, e vinte diferentes). Antes de pensar nas possíveis razões para este fato, quero destacar que este fato confirma a autenticidade e a veracidade das duas listas:

• Confirma sua autenticidade — Alguns sugerem que as diferenças existem porque as duas listas são fabricadas, mas as diferenças entre elas realmente provam o contrário. Lembrando que Esdras e Neemias eram um só livro até o século III, não é coerente imaginar que algum judeu teria o trabalho de fabricar duas cópias de uma lista falsa, e não se preocupar em fazer com que fossem idênticas. Pelo que conhecemos da natureza humana, sabemos que isto é impossível. Alguém trabalhando com pressa poderia cometer um ou outro deslize, mas mesmo um falsificador medíocre não permitiria tantos erros (vinte erros num total de quarenta e oito registros!) em duas listas que ele afirma serem iguais. As diferenças entre as duas listas provam que elas são documentos diferentes e autênticos, e não uma falsificação feita por um enganador.

• Confirma sua veracidade — Alguns afirmam que estas diferenças só podem ser o resultado de erros de transcrição enquanto a Bíblia era copiada através dos séculos, e que não podemos saber quais eram os números originais. Dizem que as duas listas são falsas — não porque foram falsificadas, como tratamos acima, mas porque contém falhas. Se pensarmos um pouco nesta sugestão, porém, veremos que as diferenças entre as listas são numerosas demais, e variadas demais, para que isto seja possível. Sabemos que, ao copiar uma lista de nomes e números, é muito fácil cometer um erro. Mesmo com todo o cuidado que os judeus tinham ao copiar as Escrituras do Velho Testamento (uma pesquisa sobre este assunto é muito interessante), temos que admitir que, se fosse apenas uma obra humana, erros seriam inevitáveis. Mas as diferenças entre estas duas listas são muitas (mais de 40% dos números contém variações), e são extremamente variadas. Quando há variações devido a erros de copistas, geralmente se entende por que o erro aconteceu (troca de um dígito, ou algo semelhante), mas as variações nestas duas listas não seguem nenhum padrão que possa ser explicado pela negligência dos copistas.[Nota 2]

Assim, as diferenças entre as duas listas provam que o que temos hoje em nossas Bíblias é o que Esdras e Neemias escreveram tantos séculos atrás. Se os judeus quisessem ter nos enganado fabricando duas listas, teriam feito esta falsificação com mais cuidado; se os judeus tivessem sido omissos ao copiar as Escrituras e permitido erros de copistas, as diferenças entre as listas não seriam tantas, nem tão variadas.

As considerações acima confirmam que as duas listas devem ser tratadas como livres de falsificação e livres de falhas, mas não explicam as diferenças entre as duas listas. Se o que temos hoje em Esdras 2 e em Neemias 7 é exatamente o que eles escreveram, preservado para nós pelo poder de Deus, porque a lista em Neemias é tão diferente da lista em Esdras? Há três sugestões que já foram apresentadas:

• Muitos autores sugerem que a diferença é devido à época em que as duas listas foram feitas; uma lista poderia ter sido feita quando o povo se preparava para sair da Babilônia, indicando todos os que planejavam fazer a viagem; enquanto que outra poderia mencionar somente aqueles que efetivamente saíram da Babilônia e chegaram em Jerusalém, alguns meses depois[Nota 3]. Alguns talvez deram o seu nome quando souberam da possibilidade de voltar, mas depois desistiram; outros talvez resolveram ir somente na última hora. Diante de viagem tão longa, com perspectivas de aventura e perigo, bem pode ser que muitos mudariam de opinião na última hora.

• Alguns sugerem que somente a lista de Esdras é a correta, e que Neemias encontrou uma cópia adulterada desta lista. Neemias diz: “Achei o livro da genealogia dos que subiram primeiro, e nele estava escrito o seguinte …” Sendo assim, o que Neemias escreveu no seu livro foi uma cópia fiel e verdadeira do documento que ele tinha em mãos, mas este documento estava corrompido. Quem sugere isto crê na inerrância das Escrituras, atribuindo a diferença entre as listas ao documento que Neemias cita. É um fato que a Bíblia registra coisas que outros disseram e escreveram e que não são verdadeiras,[Nota 4] mas acho difícil entender que isto aconteceu aqui, visto que Neemias e Esdras foram contemporâneos.

• Alguns comentários (Davidson, JFB, TSK[Nota 5]) citam uma explicação dada por alguém chamado “Alting”. Este autor mostra que Esdras menciona 494 pessoas que Neemias não menciona[Nota 6], enquanto que Neemias menciona 1765 que não são mencionados em Esdras. Ora, se adicionarmos aos 29.818 de Esdras os 1.765 excedentes de Neemias, teremos 31.583. Se adicionarmos aos 31.089 de Neemias os 494 excedentes de Esdras, teremos 31.583 —exatamente os mesmos valores. Alting é citado por Davidson na sua obra, que por sua vez é citado por JFB, TSK, etc., como se este detalhe fosse a solução do problema. Confesso que é um detalhe interessante, mas infelizmente ele não prova absolutamente nada; é simplesmente uma característica de duas listas quaisquer de números.[Nota 7]

A única desta três alternativas que me parece viável é a primeira. Não posso afirmar que é isto que aconteceu, mas consigo ver que é possível que isto tenha acontecido. Por outro lado, reconheço minha ignorância de todos os fatos, e bem pode ser que o Senhor tinha outras intenções em levar Esdras e Neemias a apresentar contagens diferentes em relação a esta multidão que voltou da Babilônia.

Conclusão

Minha intenção com este pequeno artigo não é explicar o porquê da diferença, mas somente:

i) Tentar anotar todos os detalhes das diferenças entre as duas listas (pois a solução de um problema começa pelo entendimento do problema);

ii) Tentar mostrar que existem explicações lógicas e possíveis para estas diferenças.

Nenhum de nós conhece toda a verdade, e seria presunção fazer afirmações onde a Bíblia se mantém em silêncio. Mas a atitude do cristão diante da Palavra de Deus deveria ser uma de reverente fé naquilo que está escrito. Posso não entender tudo que leio; posso não saber explicar as aparentes contradições; mas creio que a Bíblia é a Palavra inspirada de Deus, e “digna de toda a aceitação”.




Notas de rodapé

Nota 1 — Alguns acham impossível a proporção de mulheres para homens neste caso (se o número excedente se refere apenas às mulheres, somente um em cada três homens seria casado; se incluirmos crianças nesta contagem, a proporção seria ainda menor). Realmente a proporção não é normal; mas se lembrarmos que muitos preferiram ficar na Babilônia do que enfrentar a longa e perigosa viagem de volta a uma terra deserta e abandonada, não seria difícil imaginar que haveria muito mais homens jovens e solteiros (com menos preocupações e impedimentos) dispostos a fazer esta primeira viagem de volta à terra prometida, enquanto que a maioria dos casados e com família teriam mais receio de enfrentar uma viagem destas.

Nota 2 — Por exemplo, na primeira diferença entre as duas listas, Neemias fala de 123 pessoas a menos do que Esdras, enquanto que na segunda ele menciona 6 pessoas a mais. Trocar 2812 por 2818 (a segunda diferença na lista) é fácil de acontecer (basta um pequeno descuido para trocar o último “2” por um “8”, repetindo o dígito “8” que já apareceu no número), mas trocar 775 por 652 (a primeira troca) já é uma mudança que dificilmente poderia ser explicada por um mero descuido do copista. Ilustrei este detalhe usando os dígitos em português, ciente de que no hebraico as diferenças seriam outras; mas o princípio é o mesmo para todas as línguas: mudanças que são fruto de erros de copistas seguem um padrão que pode ser explicado por uma falha de atenção, mas mudanças tão variadas uma das outras, como as destas listas, precisam de outra explicação.

Nota 3 — A viagem era longa — Esdras, por exemplo, demorou quatro meses (Ed 7:8-9).

Nota 4 — Por exemplo, a serpente disse a Eva: “É certo que não morrerás”. A Bíblia contém este registro, não porque as palavras da serpente são a verdade, mas porque é verdade que a serpente disse estas palavra.

Nota 5 — DAVIDSON, Samuel. Sacred Hermeneutics develped and applied. Edinburgh: Thomas Ckark, 1843, pág. 554. “JFB” refere-se ao comentário de Jamieson, Fausset e Brown, e “TSK” refere-se ao Treasure of Scripture Knowledge.

Nota 6 — Demorei para conseguir entender isto, então explico aqui o que ele quis dizer; pode ajudar outra pessoa. Se compararmos a lista de Esdras com a de Neemias, e em todo registro em que Esdras é maior do que o correspondente registro em Neemias, anotarmos à parte quantas pessoas Esdras menciona à mais do que Neemias, veremos que a soma de todas estas anotações será igual a 494. Comparando Esdras com Neemias, teremos estes acréscimos em Esdras: os filhos de Ará, 123 a mais (775-652); os filhos de Zatu, 100 a mais (945-845); os homens de Betel e Ai, 100 a mais (223-123); os filhos de Magbis, 156 a mais (156-0); os filhos de Jericó, 4 a mais (725-721); os filhos dos porteiros, 1 a mais (139-138); os filhos de Dalaías, Tobias e Necoda, 10 a mais (652-642). Somando todos estes acréscimos, temos: 123+100+100+156+4+1+10=494. Para o segundo número (1765) fazemos a mesma coisa, mas agora somando todos os “excedentes” da lista de Neemias em relação à de Esdras.

Nota 7 — Monte duas listas com cinco ou seis registros cada, e preencha-as com números aleatórios. O total da primeira lista acrescido de todos os excedentes da lista paralela, será sempre igual ao total da segunda lista acrescido de todos os excedentes da primeira.




© W. J. Watterson

Thursday, 6 February 2014

Linha do Tempo resumida do VT

O relato histórico apresentado no Velho Testamento não é uniforme — às vezes a narrativa passa voando por centenas de anos em poucos versículos, às vezes ela diminui a velocidade e ocupa um livro inteiro para falar de um período de trinta dias. É fundamental entender este fato, e procurar perceber a velocidade da narrativa ao estudar o VT.

O gráfico abaixo apresenta uma visão global dos livros históricos do VT (de Gênesis a Ester) colocados numa linha do tempo que vai da Criação do mundo até o nascimento do Messias, o Senhor Jesus Cristo. Alguns acontecimentos principais (como o Dilúvio, o Êxodo, etc.) estão marcados na linha do tempo, mas a principal finalidade do gráfico é mostrar o período de tempo ocupado por cada livro, e a relação entre os livros em relação ao tempo.



Há uma barra verde para cada um dos dezessete livros históricos (alternando entre dois tons de verde, para distinguir os livros um do outro), com exceção de Levítico e Deuteronômio — estes dois livros narram os acontecimentos de um período de 1 mês apenas (cada um), e são representados na linha do tempo por uma linha vermelha. As barras que representam cada livro da Bíblia estão em escala (quanto maior a barra, mais tempo o livro ocupa na História do VT). Se a tabela for impressa numa folha A3 (420 x 297 mm), cada milímetro será equivalente a dez anos (Juízes descreve um período de 400 anos, e sua barra mede 40 mm). No caso de diversos livros (começando com Êxodo) não há espaço na barra colorida para incluir os dados do livro — nestes casos, os dados são incluídos abaixo, e ligados à barra por uma linha sólida.

Para montar o gráfico usei os dados cronológicos publicados por M. Anstey (ANSTEY, Martin. Chronology of the Old Testament complete in one volume. Grand Rapids, Kregel Publications, 1973. ISBN 0-8254-2112-8). Qualquer um que tenha tentado estudar a cronologia do VT sabe que há alguns períodos que representam grande dificuldade — por isso, preciso alertar a todos que consultarem o gráfico que outros cronólogos poderão sugerir datas ligeiramente diferentes para alguns acontecimentos. Muitos entendem que a data do Dilúvio, por exemplo, é diferente da data que usei no gráfico. Ainda assim, a utilidade do gráfico permanece, pois a relação geral entre as partes do Velho Testamento apresentada aqui não sofrerá grandes mudanças, qualquer que seja o sistema cronológico seguido.

O gráfico permite perceber claramente como Deus Se preocupa, no VT, em nos contar a história de Israel, e não a história da Humanidade. Gênesis, o livro que nos leva da Criação do Homem à formação da nação de Israel, passa rapidamente por um período de mais de dois mil anos — mais do que todo o restante do VT!

Também percebemos que II Samuel descreve o mesmo período apresentado em I Crônicas, e que o segundo livro das Crônicas se ocupa com o mesmo período abrangido pelos dois livros dos Reis.

O livro de Rute se encaixa no período dos Juízes, mas é impossível saber com certeza sua data.

Se alguém tiver alguma pergunta ou sugestão relacionada a este assunto tão interessante, peço a gentileza de se manifestar através dos comentários.

P.S. Atualizado para incluir datas a.C. (antes de Cristo). A primeira versão do gráfico continha apenas as datas a partir da criação de Adão.






© W. J. Watterson

Gideão (1969, conferência em Belfast, Irlanda do norte)

Mensagem dada pelo irmão C. Goldfinch   Podemos, por favor, abrir a Bíblia no livro de Juízes, no capítulo 6, versículo 16? A história d...