Wednesday, 13 January 2021

Sou um cristão; por que eu deveria tomar a vacina da COVID-19?

Por David K Valance, M.D.

O irmão David formou-se em medicina no Michigan em 1988, e trabalha como médico especializado em reumatologia. Ele reúne com a igreja local em Stark Road, Michigan, onde serve como presbítero. Ele gentilmente concedeu permissão para a tradução do artigo originalmente publicado em WebTruth. O artigo não é pequeno — sugiro, porém, que vale a pena lê-lo cuidadosamente.




Eu escrevi este artigo para tratar de perguntas que muitos cristãos têm apresentado a mim sobre as novas vacinas da COVID-19. Eu recomendo que você tome uma vacina da COVID-19 assim que puder (a não ser que você já teve alguma reação alérgica séria a alguma vacina no passado). A vacinação, além de ser coerente com uma boa mordomia do seu corpo, é também um auxílio vital para um mundo numa crise pandêmica. A sociedade precisa de ajuda urgentemente, e os cristão devem dar o exemplo. Pode resultar num braço dolorido por um dia, mas a vacina irá beneficiar você, proteger outros, e encurtar a pandemia. E abraçar esta terapia é também o caminho mais eficaz para retornarmos logo ao pleno desfrute da adoração e serviço coletivos; sem vacinação, o vírus continuará a prejudicar as atividades das igrejas locais por alguns anos.

O novo coronavírus SARS-CoV-2 causa a COVID-19, a infecção pandêmica que incomodou o mundo durante o ano passado. A maioria das pessoas que contrai a COVID-19 se recupera. Muitos têm apenas sintomas leves; alguns não tem nenhum sintoma. Mesmo que muitos acabam morrendo, a taxa de mortalidade da COVID-19 é consideravelmente menor que outras doenças epidêmicas como a febre hemorrágica Ebola ou a peste pulmonar. Por estas razões, muitos acreditam que a COVID-19 foi muito exagerada. “Não é pior do que a gripe”, dizem, e questionam a necessidade de uma vacina.

Esta perspectiva está distorcida. O que falta ao vírus em letalidade comparado com outras infecções, ele compensa com transmissibilidade. Enquanto escrevo, pessoas no mundo todo estão morrendo da COVID-19 à taxa de mais ou menos uma por minuto, e o total de mortes no mundo ultrapassa 1.7 milhão. Isto é apenas o começo, porém, porque mais de 90% da população mundial — completamente sem defesa — ainda estão esperando a sua vez de encontrar-se com o vírus. Portanto, a não ser pela vacinação, a COVID-19 continuará a se espalhar por meses e anos, sendo a causa direta de doenças e morte, e indireta de devastação econômica, fome em países do terceiro mundo, isolamento social e suicídio. Porque a COVID-19 é tão séria, aceitar uma vacina é sua obrigação moral (a não ser que você tenha alguma contra-indicação de saúde). Se compararmos o risco de efeitos adversos com o benefício urgentemente necessário, a opção claramente deve ser pelo benefício.

O que acabo de escrever é controverso — eu sei. Neste artigo irei discutir alguns fatos sobre a COVID-19 e defender a vacinação, usando a ciência e as Escrituras. Porém, minha preocupação vai além da COVID-19, pois esta pandemia tem realçado outros problemas persistentes da atualidade que deveriam preocupar os seguidores de Cristo, que é a Verdade. Quero alertar sobre a aceitação não-crítica de (des)informação, sobre a desconfiança exagerada nas instituições, a resistência não-bíblica aos governos, e o desprezo egoísta de responsabilidades sociais. Assuntos sérios como estes exigem um artigo sério e detalhado. Ao mesmo tempo, quero falar a verdade em amor (Ef 4:15), argumentando com cortesia e empatia. Se você perceber algum tom rude ou condescendente no artigo, peço que me perdoe.

Encontrar a verdade nunca foi fácil, e o fato de vivermos numa era pós-moderna, pós-verdade, torna esta busca ainda mais difícil. Muitas pessoas — especialmente cristãos — têm percebido a ênfase materialista e o ativismo de esquerda da maior parte da mídia, e por isso rejeitaram completamente estas fontes de informação. Mas, ao invés de buscar orientação em livros (o que seria mais sábio), um número cada vez maior têm migrado às mídias sociais em busca de respostas. Em termos gerais, porém, as informações que eles encontram acabam sendo ainda mais suspeitas e preconceituosas — especialmente em relação à ciência. As mídias sociais criaram um espaço egocêntrico onde qualquer pessoa pode ser um “expert” e a opinião de todos conta. Sendo “curtida” e compartilhada, a desinformação torna-se viral, viajando numa velocidade e escala jamais vistas na História. Com demasiada frequência, teorias conspiratórias continuam se espalhando, enquanto o trabalho sério de cientistas médicos e funcionários públicos é questionado.

Bombardeado por vozes conflitantes, muitas pessoas equilibradas não tem certeza sobre o que pensar em relação à pandemia e às vacinas. Quero defender que temos informações sólidas sobre a eficácia e segurança das vacinas da COVID-19, e que os fatos conhecidos atualmente exigem que escolhamos a vacinação. Porque escrevo para gerações que não tem, na sua memória coletiva, lembrança de epidemias passadas, quero enfatizar a maldição das doenças infecciosas na História. Quero destacar o sucesso estrondoso e a segurança surpreendente das vacinas — sem dúvida, a maior contribuição individual da ciência para o bem-estar do mundo. Lembrando que “nenhum de nós vive para si” (Rm 14:7) — que temos obrigações em relação ao Senhor e ao próximo — defenderei que ser vacinado é servir aos outros e sujeitar-se à autoridade divina. Em seguida, tratarei de algumas objeções comuns às vacinas, algumas com status de teoria conspiratória. Encerrarei destacando como a cosmo-visão cristã deu origem à medicina científica.

Sou cristão: por que eu deveria tomar a vacina da COVID-19?


1. Porque o custo de doenças infecciosas é assustador.

“Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até gora” (Rm 8:22); “A sogra de Simão estava enferma com muita febre, e rogaram-lhe por ela” (Lc 4:38); “E aconteceu estar de cama enfermo de febre e disenteria o pai de Públio, que Paulo foi ver, e, havendo orado, pôs as mãos sobre ele, e o curou” (At 28:8).

Durante os quatro anos da Guerra Civil Americana, dois por cento da população dos Estados Unidos morreu — 620.000 homens. A maioria, porém, morreu de infecções, não combate. Para cada três soldados mortos em batalha, cinco morreram de doenças como disenteria, tifóide e sarampo. Durante a primeira metade do século vinte, a varíola matou 300-500 milhões de pessoas no mundo todo. Um surto de cólera na India em 1899 deixou um saldo de 800.000 vítimas. A pandemia de influenza H1N1 de 1918 matou até 100 milhões de pessoas no mundo todo — cerca de cinco porcento da população mundial. E a “roleta” da poliomielite girava ano após ano: apesar da maioria das crianças recuperarem, a doença matou dez por cento das pessoas que paralisou, e deixou o resto aleijado.

Hoje, porém, todas esta infecções — além de difteria, tétano, coqueluche, Haemophilus influenzae B, sarampo, cachumba, rubéola, febre tifoide, febre amarela, rotavírus, hepatite B, e outras — podem ser prevenidas ou controladas por vacinação. De fato, a vacina da varíola erradicou a doença do planeta, e vacinas têm eliminado dois dos três tipos de poliovírus. Acesso a água limpa é a única coisa que salvou mais vidas que vacinação.

Lamentavelmente, a vacinação foi vítima do seu próprio sucesso. Em 1955, o medo da morte e da paralisia provocado pela “paralisia infantil” era tão grande que, quando o governo dos Estados Unidos apresentou a vacina Salk para polio, as pessoas saíram em procissões com bexigas, e esperavam em longas filas para serem vacinadas. A vacinação provocou celebração! Os anos passaram, e as pessoas de hoje são diferentes. Assim, as vacinas da COVID-19 em 2021 não são recebidas com festa. Pessoas privilegiadas do primeiro mundo nunca entraram numa ala de polio cheia de pulmões de aço, ouvindo o barulho ritmado dos seus foles, e vendo o medo nos olhos das pessoas cujas cabeças brotavam destes ninhos de metal. Nunca entraram num cemitério de difteria, nem viram as chamas da queima de um pilha de corpos resultantes da cólera. Bem preservados do terror e devastação de pragas incontroláveis, suspeitando das companhias farmacêuticas, cínicos em relação a governos, e céticos quanto à ciência, muitos ocidentais preferem esperar esta pandemia passar.

2. Porque deixar a natureza seguir seu curso vai custar milhões de vidas.

“Então Jesus lhes disse: Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos sábados fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar?” (Lc 6:9).

Como já disse, o total atual de mortes pela COVID-19 ultrapassa 1.7 milhões, pessoas estão morrendo à taxa de cerca de uma por minuto, e mais de 90% da população mundial ainda está sujeita a ser infectada. Se resolvermos simplesmente esperar a doença se espalhar pelo mundo até atingirmos a “imunidade de rebanho”, então teremos que esperar meses — alguns acreditam que seja anos — até que possamos, com segurança, tirar as máscaras e nos abraçarmos novamente. E quando este dia finalmente chegar, muitos de nós não estarão aqui para participar disto.

Além do que, se o SARS-CoV-2 se comportar como outros vírus semelhantes, ele continuará aparecendo. A diminuição da imunidade natural em pessoas já infectadas e o nascimento de novas pessoas irão gradualmente diminuindo a proteção da população. Sem vacinação, a única opção para os sobreviventes que perderam sua imunidade será ser infectado novamente — e talvez morrer nesta segunda vez! Apesar de hoje ser uma pandemia mundial, a expectativa é que a COVID-19
se torne endêmica — sempre rondando a população, frequentemente manifestando-se numa epidemia regional, e por fim deixando um rastro de milhões de mortos e debilitados. Com as vacinas da COVID-19, porém, podemos reduzir drasticamente a história natural desta pandemia, e prevenir tais manifestações futuras. Como o passado nos ensina, a vacinação é um método comprovado de “fazer bem” e “salvar a vida” (Lc 6:9).

3. Porque o desenvolvimento da vacina não foi apressado, e ela é segura no seu contexto.

“Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades” (I Tm 5:23); “Os pensamentos do diligente tendem só para a abundância, porém os de todo apressado, tão somente para a pobreza” (Pv 21:5).

Cerca de um em cada cinco pacientes com dissecção da aorta (um rasgo no vaso que leva sangue do coração) morre até dez dias depois da cirurgia reparadora. Mesmo assim, as pessoas costumam concordar com esta operação de alto risco, porque não fazer nada resulta em morte na certa. Nesta situação, decidir não operar é mais arriscado.

Mesmo que a maioria das decisões médicas impliquem em menos drama, ainda exigem que pesemos os benefícios em relação aos riscos. O benefício esperado só virá com o tratamento — não temos expectativa de prevenir, melhorar, ou curar qualquer doença fazendo nada! O risco, porém, tem dois lados: precisamos pensar no risco que o tratamento oferece e no risco que resultará de rejeitar o tratamento, e ver qual é maior.

Tomar uma vacina implica num pequeno risco de um efeito adverso — talvez um braço dolorido, ou um dia de indisposição. Muito raramente, uma reação alérgica mais séria ocorre. Exigir segurança absoluta — total falta de risco — antes de aceitar uma intervenção médica é o mesmo que niilismo terapêutico. Nenhuma vacina ou remédio é “seguro” neste sentido absoluto e absurdo — se fosse exigido isto, nenhum tratamento poderia ser receitado para nenhuma doença! Chamar algo de “seguro” exige algum contexto; um tratamento é descrito como “seguro” no contexto do seu uso. Quanto maior for o perigo de não tratar uma doença, mais justificativa existe para um tratamento ficar aquém de segurança absoluta. No contexto de uma terrível pandemia global, podemos certamente afirmar que as vacinas atuais são seguras. Autoridades médicas qualificadas no mundo inteiro afirmam, sem hesitação, que o grande benefício da vacinação, para si próprio e para a sociedade, supera em muito o pequeno risco de efeitos adversos, e que o risco de recusar a vacinação é muito maior.

Quais são os riscos de recusar? Primeiro, você corre perigo pessoal de ficar doente ou morrer pela COVID-19 — contrair a doença é muito mais perigoso até do que os mais exagerados riscos atribuídos à vacina. Além disto, como potencial hospedeiro do SARS-CoV-2, você continuará colocando em risco outros, e prejudicará a caminhada rumo à imunidade coletiva. Você continuará sendo um vetor capaz de transmitir o vírus a outros — sua família, igreja, local de trabalho, e vizinhança. Baseado na sua capacidade de infecção, estima-se que pelo menos 75% de nós precisamos estar e permanecer imunes à COVID-19 antes de podermos conter a multiplicação do vírus sem máscaras e distanciamento social, e conseguirmos dar um fim a esta pandemia. Pessoas não vacinadas atrapalham este importante esforço conjunto.

Como vacinas costumam ser aplicadas em pessoas saudáveis, reguladores definem parâmetros de segurança excessivamente altos. Qualquer risco precisa ser extremamente baixo. Baseados no tipo de vacina de RNA e dados preliminares de testes em animais, cientistas esperavam que o risco das vacinas de COVID-19 atuais fossem extremamente pequenos, e mais de 60.000 voluntários confirmaram esta expectativa em testes de segurança realizados em 2020. Nos testes da Pfizer-BioNTech, a vacina causou apenas pequenos e raros efeitos: cansaço em 3.8% e dor de cabeça em 2%. Dor no local da injeção, dor muscular, calafrios e outras reclamações ocorreram em menos de 2% — nenhuma diferença em relação à porcentagem do grupo de controle que recebeu injeções de placebo. E nenhum dos que sentiu sintomas no início teve efeitos duradouros.

Imunização funciona quando pessoas — a maioria — não sentem reações adversas após as injeções. Porém, visto que vacinas são projetadas para provocar uma resposta imune, o sistema imunológico pode produzir alguns efeitos — uma evidência a mais de que a vacina funcionou. Os céticos agarram-se em relatos de efeitos mais sérios que ocorreram em menos de 1% dos participantes dos testes, mas estes acabam sendo eventos médicos que ocorrem rotineiramente na população em geral com frequência semelhante — eventos que ocorreram com frequência estatisticamente idêntica nos voluntários que receberam injeções de placebo. Lembre: correlação não indica causalidade. Na vasta maioria dos casos relatados de eventos adversos sérios, analistas não conseguiram estabelecer nenhuma relação plausível com a vacina.

Vacinas normalmente levam anos para serem produzidas; assim, quando as vacinas da COVID-19 chegaram em poucos meses, as pessoas deduziram que etapas haviam sido puladas, e que tudo fora feito de forma afoita. Em circunstâncias normais, quem produz uma vacina segue um longo processo: projeto, testes de segurança fase-1, testes de eficácia fase-2, testes com voluntários fase-3, licenciamento, marketing, e depois produção. Mas os produtores das vacinas da COVID-19, ajudados e autorizados por programas governamentais, comprimiram o processo como uma luneta de pirata. Ele foram liberados de muitos processos burocráticos, eliminaram períodos de espera, e realizaram os testes de segurança e eficácia, e a linha de produção das vacinas, ao mesmo tempo, ao invés de um após o outro. Padrões de segurança estabelecidos foram tão rigorosos quanto com qualquer vacina anterior — nada foi diminuído.

Mesmo que eventos adversos raros não foram detectados nas mais de 60,000 pessoas que receberam as vacinas da Pfizer/BioNTech, Moderna e Oxford/AstraZeneca antes do lançamento delas, é possível que ainda ocorram. Qualquer nova terapia pode introduzir problemas que só o tempo revelará. Depois de décadas de observação, por exemplo, a vacina contra a gripe sazonal foi ligada plausivelmente com um chance em um milhão de contrair a síndrome de Guillain-Barre. Contudo, o risco de contrair esta doença grave pela infecção do próprio vírus da influenza A é pelo menos mil vezes maior do que contraí-la pela vacina. É preciso milhões de pessoas e muitos anos para detectar problemas extremamente raros. Mas isto apenas enfatiza a segurança geral das vacinas — ir de carro ao supermercado é mais perigoso.

4. Porque as vacinas são altamente eficazes.


As vacinas já aprovadas para a COVID-19, além de satisfazerem padrões de segurança rígidos, são também cerca de 95% eficazes em combater a doença. Cientistas esperavam uma vacina com pelo menos 50% de eficácia — suficiente para produzir o tipo de imunidade parcial “funcional” que vemos com as vacinas da gripe, com 20-60% de eficácia. Vacinação em massa não eliminou a gripe, mas reduziu o peso da doença ao diminuir a taxa de infecção e tornar os sintomas mais leves, e a recuperação mais rápida. Com o tempo, uma vacina da COVID-19 com um efeito modesto semelhante seria suficiente para salvar centenas de milhares de pessoas de problemas crônicos de saúde, e morte. Mas tal vacina com apenas 50% de eficácia não atingiria o patamar desejado para a imunidade de rebanho, mesmo se todos a tomassem. Porém, a impressionante eficiência de 95% das novas vacinas da COVID-19 superaram as expectativas. Se todas as pessoas aptas a aceitarem, uma vacina desta eficácia tornariam virtualmente garantido o controle da doença, e a sua erradicação verdadeiramente possível.

Alguns tem zombado que uma doença que inicialmente matava somente 3% dos infectados — e agora, cerca de 1%, devido aos avanços no tratamento — não merece nossa preocupação (quem perdeu um ente-querido para a COVID-19, porém, não verá nenhum consolo nesta estatística). Um pouquinho de matemática mostrará que esta visão está equivocada. Nos Estados Unidos, cerca de 34.000 morreram devido a influenza na temporada de gripe de 2018/2019 [de setembro 2018 a março 2019], e cerca de 36.000 morreram de acidentes de trânsito em 2019. Mas se a COVID-19 matar de 1% a 3% da população Norte Americana, os números seriam superiores em duas ordens de magnitude: de 3.3 milhões a 9 milhões de mortos.

E qual o efeito sobre estes números de uma vacina com 95% de eficácia? A probabilidade de morrer da doença despencaria de 1% para 0,05% — vinte vezes menos. Num grupo de 100.000 pessoas, as mortes cairiam de 1.000 para 50. E se estas 100.000 pessoas estivessem todas na faixa etária mais arriscada (de 75 a 84 anos), as mortes cairiam de 8.500 para 425.

As vacinas da COVID-19, porém, provavelmente se mostrarão ainda mais eficazes. Primeiro, porque os 5% que não forem totalmente protegidos pela vacina ainda estarão parcialmente protegidos, e assim terão menos problemas de saúde se contraírem a COVID-19. Além disto, os dados de testes distribuídos até agora estão relacionados somente à prevenção dos sintomas, não à prevenção de infecções. Mas como vacinas que são capazes de prevenir sintomas tendem a reduzir drasticamente a infecção e transmissão, o risco de ser infectado irá cair significativamente, juntamente com o risco de ficar doente se for infectado. Assim, se uma quantidade suficiente de pessoas for vacinada, a taxa de mortalidade provavelmente será ainda menor do que as previsões feitas acima. Num cenário ideal, estas vacinas podem frear completamente a COVID-19.

A oferta impressionante de vacina eficazes e seguras meses após o início da pandemia foi o resultado de diligência, não pressa descuidada. Além do trabalho incansável de pessoas talentosas, vários fatores tornaram possível este incrível sucesso. Os cientistas começaram suas pesquisas com informações colhidas de outros surtos de coronavírus (SARS-CoV em 2020, MERS em 2012), e tecnologias de vacinas já sendo desenvolvidas para outros vírus RNA (HIV, Influenza, Ebola, Zika). Dias após o início do surto de COVID-19 em Wuhan, virologistas chineses já tinham decifrado o código genético do SARS-CoV-2, e os criadores de vacina começaram a trabalhar. (Para uma descrição de como foram desenvolvidas as vacinas de RNA da COVID-19, veja o Apêndice.)

5. Porque eu sou o guardador do meu irmão.

“Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2:4-5); “Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5:14).

Para cristãos, tomar a vacina da COVID-19 é a atitude certa porque há uma pandemia, e cada um de nós é guardador do seu irmão — um assunto levantado por Caim em Gênesis 4:8 e mencionado diversas vezes nas Escrituras (por exemplo, Romanos 14). Alguns cristãos, porém, apresentam uma visão diferente: “As pessoas podem tomar a vacina se quiserem; eu não tomo. Sou jovem e saudável. Eu me responsabilizo pelas consequências dos meus atos”. Esta visão é popular especialmente nos Estados Unidos, um país que valoriza a soberania individual. O caminho do cristão, porém, é o sacrifício pessoal para benefício de outros. Se permanecermos pensando em nós mesmos, perderemos esta oportunidade de mostrar amor pelo próximo e de deixar de lado as nossas prioridades para servi-los. As pessoas saudáveis devem ser vacinadas por causa das vulneráveis — bebês novos demais para uma resposta imunológica, pessoas com sistemas imunológicos enfraquecidos por doenças ou drogas, pessoas mais idosas com a limitação imunológica relacionada à idade, e os funcionários da saúde que estão na linha de frente, com grande exposição ao vírus devido ao seu serviço. Na verdade, quanto mais forte você estiver, mais a sua comunidade precisa que você seja vacinado.

Mais do que uma questão de saúde, a vacinação afeta nosso testemunho público. A vacinação é um projeto comunitário para o bem comum, e cada um deve contribuir para ser parte da solução, não do problema. O Senhor disse: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At 20:35). Então como pode ser correto não tomar a vacina e aproveitar-se dos outros, que ao aceitarem a vacina (com seu minúsculo risco) criam um escudo humano em torno de você? “Enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6:10). Como podemos conciliar este versículo com a atitude de escolher permanecer como transmissor em potencial do vírus por recusar a vacina? E como ficará seu testemunho se seu filho, não vacinado, transmitir a uma criança vizinha com imunidade baixa uma doença que poderia ter sido evitada pela vacina, resultando na morte daquela criança?

6. Porque devemos nos submeter às diretrizes do governo.

“Sujeitai-vos, pois, a toda a ordenação humana por amor do Senhor” (I Pe 2:13).

Paulo escreveu aos romanos: “Toda a alma esteja sujeita à potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus” (Rm 13:1). O apóstolo continuou, e mostrou que as autoridades são ministros de Deus para o nosso bem (13:4). Os governos de países pelo mundo todo estão pedindo que toda pessoa apta aceita a vacina da COVID-19, e os cristãos deveriam ser os primeiros a concordar — especialmente nestes dias cínicos em que vivemos. A obediência é, afinal de contas, “por amor do Senhor” (I Pe 2:13). Se, pelo contrário, escolhermos exibir uma atitude antigoverno, estaremos ofendendo funcionários públicos, desanimando funcionários de saúde da linha de frente, irritando o público, e desonrando o Senhor.

7. Porque receber a vacina não significa apoiar o aborto.

“Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida” (Gn 50:20).

As pesquisas médicas dependem muito de culturas celulares — populações de células removidas de um organismo vivo e cultivadas artificialmente. Nas condições adequadas, estas células vivem e se propagam por décadas, e estão comercialmente disponíveis para uso científico. Lamentavelmente, as células originais de algumas destas culturas foram colhidas de abortos realizados nas décadas de 60 e 70. Apesar de a Pfizer-BioNTech e Moderna não terem usado culturas celulares provenientes de abortos para produzir as suas vacinas da COVID-19, outras empresas usaram. Pesquisadores estudando o SARS-CoV-2 na Johnson&Johnson e Astra-Zeneca usaram HEK-293, uma linhagem que teve sua origem numa menina abortada na Holanda em 1973.

Os tecidos fetais que deram origem a culturas celulares com nomes como HEK-293, MRC-5 e WI-38 foram obtidos numa época em que o conceito moderno de consentimento informado não existia. As leis atuais (nos Estados Unidos) não permitem este tipo de colheita hoje. Além disto, as mães envolvidas nestes casos escolheram abortar por motivos pessoais (não justificados), não com a intenção de doar o tecido fetal para pesquisas. Elas não imaginavam que cientistas iriam cultivar linhagens de células dos seus bebês que seriam tão largamente usados em muitos avanços da biologia e medicina, incluindo vacinas que salvam vidas e agentes biológicos revolucionários que são largamente usados hoje em todas as especialidades médicas.

Como cristãos, cremos na santidade da vida, e condenamos o aborto e a indústria que se beneficia dela. A passagem de décadas não removeu a mancha moral desta linhagens celulares fetais, e grupos pró-vida tem razão ao pressionar os centros de pesquisa e as companhias de biotecnologia a usarem apenas culturas celulares que foram iniciadas de maneira ética. Apesar das nossas preocupações, porém, estaremos errados se insistirmos que usar estas linhagens celulares implica em aceitar uma lógica de os-fins-justificam-os-meios — uma ética inaceitável para os salvos (Rm 3:8). Estes abortos não foram feitos como um meio para qualquer fim — eles teriam sido feitos independentemente de qualquer interesse científico em células fetais.

Além disto, o uso de linhagens celulares não implica em aceitar a desculpa dos médicos nazistas em Nurenberg que, já que os presos iam morrer mesmo, deveriam ser aproveitados para algum fim. O dr. Mengele e outros decidiram voluntariamente criar uma máquina de matar. A maioria dos seus abomináveis experimentos nos campos de concentração submetiam suas vítimas a torturas antes da sua morte, ou diretamente causavam a sua morte. Em contraste, aceitar os benefícios de pesquisas feitas com linhagens celulares fetais — que incluem muitos remédios “biológicos” impressionantes — não exige nem estimula novos abortos, e não fornece nenhum lucro para a indústria do aborto. Nos Estados Unidos é também ilegal uma mulher ter lucro, de qualquer forma que seja, de um aborto. Além do que, nenhum passo na pesquisa e produção de vacinas tem qualquer ligação direta com uma criança previamente abortada.

Também devemos perceber que nossa posição pró-vida exige que respeitemos qualquer vida. Recusar uma vacina remotamente ligada a um aborto na década de 70 vai colocar em risco não só as nossas vidas, mas as vidas de nossa família e vizinhos. As pessoas que rejeitam a vacina da COVID-19 e assim causam mais mortes não podem ser chamadas “pró-vida” — nem aqueles que acreditam, erroneamente, que a doença deveria simplesmente “correr seu curso” porque “só estão morrendo pessoas velhas”.

Os abortos que deram início a culturas celulares foram erros trágicos. Por outro lado, muito bem tem resultado destas mores, e vidas têm sido salvas. Recusar as bênçãos que surgiram destas linhagens celulares desonra a memória destes bebês. Imagine um cenário: uma menina que levou um tiro fatal está numa UTI sendo mantida viva por aparelhos. Logo que um médico anuncia, solenemente, que ela teve morte cerebral, chega um chamado de que outra criança necessita urgentemente de um transplante de coração. Seria errado doar o coração da menina morta só porque ela foi assassinada? Obviamente não — seria uma forma da morte da menina não ser em vão. Precisamos entender a evidente diferença moral entre este cenário, e propositadamente matar uma pessoa com o fim de colher um órgão para um transplante.

Sabendo que pesquisas sobre vírus e vacinas algumas vezes incluem linhagens celulares inicialmente colhidas de tecido fetal, alguns que são antivacinação afirmam que as vacinas contem “tecido fetal” ou “DNA fetal”. Esta afirmação, que revela sua ignorância sobre culturas de células e como vacinas são produzidas, é parte de uma tática emotiva de “toxinas”. Eles argumentam que vacinas estão carregadas de uma série de venenos, citando mercúrio, alumínio, formaldeído, e outras substâncias químicas com nomes assustadores. Estas “toxinas”, dizem eles, causam câncer, doenças autoimunes, autismo, Alzheimers, e outras. Mas toxicólogos entendem o que disse o médico suíço Paracelsus (1493-1541): “Todas as coisas são veneno, e nada está livre de veneno; somente a dosagem faz algo não ser venenoso”. Assim, mesmo se admitirmos, por exemplo, que traços perceptíveis de formaldeído podem permanecer numa vacina como resultado do processo de fabricação, a quantidade é minúscula demais para produzir algum mal. O simples ato de respirar e comer fornecem uma dose diária de toxinas que excede, em muito, algumas doses de vacina tomadas ao longo da vida.

8. Porque teorias da conspiração são ímpias.

“Mas rejeita as fábulas profanas e de velhas, e exercita-te a ti mesmo em piedade” (I Tm 4:7); “Não chameis conjuração [literalmente, conspiração] a tudo quanto este povo chama conjuração [conspiração]; e não temais o que ele teme, nem tampouco vos assombreis. Ao Senhor dos Exércitos, a Ele santificai; e seja Ele o vosso temor e seja Ele o vosso assombro” (Is 8:12-13).

Conspirações existem. A ganância corporativa gerou alguns exemplos famosos — lembre de Big Tobacco, Enron, “Dieselgate”, Bernie Madoff. Mais importante, porém, e mais assustador, é o que Paulo diz: “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é imagem de Deus” (II Co 4:4). Os servos de Satanás, que “se transfiguram em ministros da justiça” (II Co 11:15), tem infiltrado o meio acadêmico, político, empresarial e artístico, atacando a verdade e justiça de Deus. Mateus nos fornece um exemplo antigo — os principais dos sacerdotes inventaram uma conspiração para negar a ressurreição de Cristo: “deram muito dinheiro aos soldados, dizendo: Dizei: Vieram de noite os Seus discípulos e, dormindo nós, O furtaram” (Mt 28:12-13).

Teorias da conspiração lidam com mentiras, e custam vidas. Escrevo com mais firmeza nesta seção porque teorias perigosas precisam ser expostas e repreendidas (Ef 5:11). As pessoas que tecem estas teias estão convencidas que poderes nefastos, humanos ou não, estão ditando as regras no planeta. Em geral, teóricos da conspiração têm fortes suspeitas contra pessoas e instituições poderosas, e buscam explicações simplistas para assuntos complexos. Como os antigos gnósticos, os modernos teóricos da conspiração estão convencidos que somente aqueles no seu círculo têm acesso ao verdadeiro conhecimento. Seus recrutas, uma vez “iluminados”, ficam surpresos que nunca perceberam algo tão óbvio, e agradecidos por terem sido libertos da massa de ovelhas sem noção enganadas pelos perversos.

Teóricos da conspiração são “à prova de bala” — completamente blindados de argumentos vindos de outras fontes — porque simplesmente reinterpretam as evidências que contradizem suas teorias como sendo criadas pela própria conspiração. Esta capacidade ilimitada de “explicar” inconsistências torna suas teorias autoconfirmatórias. Quanto mais críticas recebem, mais convencidos ficam que a conspiração é muito maior do que se imaginava.

Teóricos da conspiração nunca foram fãs de medicina científica. Sua narrativa mais comum alega que governos, escolas de medicina e a indústria farmacêutica uniram-se para promover seu método de tratar doenças (drogas e cirurgia) enquanto perseguem e até criminalizam teorias mais válidas como frenologia, reflexologia, homeopatia e naturopatia. Teóricos mais extremos apresentam as grandes companhias farmacêuticas como gananciosos inescrupulosos que escondem a verdade sobre seus produtos e subornam médicos a receitarem suas drogas e vacinas. Também acusam médicos de esconderem curas conhecidas para aumentar seus lucros mantendo os pacientes doentes. O principal objetivo da medicina, dizem eles, é vacinação obrigatória — um processo prejudicial e desnecessário que bloqueia a imunidade natural, enfraquece o sistema imunológico, e provoca doenças. Além disto, eles falam de autoridades que têm a missão de proteger sua saúde como sendo tiranos abusivos que querem retirar seus direitos inalienáveis.

Pessoas que se opõe a imunização infantil criticam especialmente a VASPR (tríplice viral, contra sarampo, caxumba e rubéola), acusando-a de provocar problemas relacionados ao autismo. Escrevo com compaixão pelos que têm crianças com autismo, e entendo que a maioria que crê nesta ligação são pessoas boas e inteligentes — porém, mal informadas. A história da VASPR-autismo é uma teoria da conspiração. Se pensarmos logicamente, só uma de duas opções opostas pode ser verdadeira: ou 1) a vacina VASPR não causa autismo, ou 2) há uma gigantesca conspiração internacional envolvendo milhares de pesquisadores, acadêmicos, e funcionários públicos da saúde, todos subornados pela indústria farmacêutica e todos mentindo. O fato que estes “conspiradores” vacinam suas próprias crianças não encaixa na conspiração, a não ser que aumentemos a conspiração para alegar que eles conhecem algum meio secreto de prevenir o autismo nos seus filhos.

Parece irônico, mas teóricos da conspiração raramente descobrem conspirações verdadeiras. Estas são normalmente descobertas pelos métodos tradicionais — uma dose saudável de ceticismo, uma filtragem cuidadosa das evidências, e um apego à lógica e coerência. É disto que desesperadamente precisamos nesta “infodemia” — um excesso de informação, verdadeira e falsa, que seguiu a pandemia, e agora a ultrapassa. Tenha cuidado com detetives amadores postando no Facebook, à caça de “curtidas”.

9. Porque a ciência e a terapia médica são bíblicas.

“Porque Deus não é Deus de confusão” (I Co 14:33); “Porventura não há bálsamo em Gileade? Ou não há médico? Por que, pois, não se realizou a cura da filha do Meu povo?” (Jr 8:22).

A ciência moderna é o presente de Deus ao mundo. Até historiadores seculares admitem que o crédito pela revolução científica pertence não aos ateus nem mesmo aos deístas, mas a cristãos que criam na Bíblia. Civilizações pagãs, apesar de alguns feitos impressionantes de engenharia e arquitetura, não forneciam um solo adequado para o crescimento da verdadeira ciência. Assim, enquanto murchou no Egito, Atenas, Roma e China, o método científico brotou e cresceu no solo fértil do cristianismo. A cosmo-visão bíblica tem como centro o verdadeiro e coerente Deus, que pelo Seu Filho criou e sustenta o Universo (Cl 1:16-17). Aquele que não mente nem muda, controla Seu cosmos por leis precisas e previsíveis (Tt 1:2; Hb 13:8). E quando Deus instruiu Adão a sujeitar o mundo e governar sobre ele (Gn 1:26-28), Ele estava desafiando-o a usar sua mente para descobrir o potencial da Natureza, usando seus recursos para seu proveito e para glória de Deus.

Pensadores cristãos sabiam que o Criador não iria mudar Suas regras aleatoriamente, e assim tinham convicção que Seu universo inteligível continha verdades objetivas que valia a pena explorar. Mas por qual método? O melhor método descoberto foi aquilo que chamamos “ciência” — um sistema que pressupõe um universo lógico e estável, e que une razão e experiência para descobrir como a Criação funciona. Apesar de podermos traçar suas raízes até Roger Bacon (1213-1292), que disse: “As Escrituras Sagradas são a base de todas as ciências”, o método científico realmente desenvolveu por intermédio da visão bíblica dos Reformadores (repare que isto aconteceu muito antes do fictício “Iluminismo”). Seu axioma Sola Scriptura (“Só as Escrituras”) implicava em descartar falsas filosofias e lendas do passado, e permitir que a verdade da Bíblia falasse por si só. Esta atitude literal, histórica e gramatical em relação à Palavra de Deus mostrou-se iluminadora: estudiosos aprenderam a se aproximar dos dados bíblicos de forma indutiva, juntar os fatos relevantes, e chegar a conclusões pelo método dedutivo.

Aplicar este método também aos fenômenos naturais foi um passo simples: cientistas tementes a Deus entenderam que deveriam estudar a Natureza da mesma forma que estudavam a Bíblia. Esqueça o que Protágoras ou o Papa diziam sobre como a Natureza deveria funcionar; o que é que dados experimentais revelam sobre como ela realmente funciona? Rejeitando alegorias antigas, mera intuição, e histórias sem fundamento, eles começaram a olhar diretamente para a Natureza, projetar experiências, juntar dados, e tirar conclusões. Apesar de indicações do método científico terem se manifestado diversas vezes antes disto, a ciência moderna solidificou-se nos princípios da Reforma. Considere Isaque Newton (1643-1727): o homem que levou o método científico ao seu ponto mais alto era literalista em relação à Bíblia, criacionista, milenarista, e escreveu muito mais sobre as Escrituras do que sobre a ciência.

Pensar de forma bíblica e racional não é algo que vem facilmente ou naturalmente. Automaticamente, tiramos a conclusão mais obvia daquilo que observamos — mas muitas vezes estamos errados. Inconscientemente, escolhemos as evidências que apoiam nosso ponto de vista. Também esquecemos que a quantidade de pessoas que acreditam em algo não tem nenhuma relação com a validade daquilo. Para encontrar a verdade, devemos nos disciplinar para usar o método que mais se adequa à nossa finitude, preconceitos, ingenuidade, limitação e fragilidade diante da pressão do próximo.

Para entender o mundo natural, este método é a ciência experimental. Pesquisadores médicos, por exemplo, realizam experiências cuidadosamente planejadas, descritas como “randomized, prospective, double-blind, placebo-controlled, crossover” — isto é, experimentos onde um grupo recebe o tratamento e outro recebe apenas placebo, e a escolha de quem tomará placebo e quem receberá o tratamento é feita de forma aleatória, e não é revelada nem aos pacientes nem aos profissionais. Então eles organizam, analisam e estudam os dados, apresentam-nos em conferências, e publicam-nos em revistas avaliadas por outros cientistas. Mesmo após outros cientistas terem confirmado suas conclusões, repetindo seus experimentos em laboratório, suas conclusões ainda estarão abertas a análise racional por anos.

Ao invés de valorizar esta herança cristã — um sistema que nasceu e cresceu graças à cosmo-visão cristã — muitos salvos a rejeitam. Eles mostram-se céticos em relação a cientistas modernos que sequestraram a “ciência” para provar e promover bobagens ímpias como uma cosmologia em que tudo veio do nada, e a evolução de moléculas ao homem. Cristão também sentem repulsa de “cientistas sociais” que promovem teorias culturais e políticas como ideologia de gênero, etc., sob o título de “ciência”.

A verdadeira ciência, porém, não apoia nenhuma desta mentiras e distorções antibíblicas. Seus defensores falam não como cientistas, mas como propagandistas — peões do deus deste século (II Co 4:4). Eles esqueceram (ou nunca souberam) que, como cientistas, estão sustentados pelos ombros de precursores tementes a Deus. Além do que, suas afirmações anticristãs são anticientíficas e autorrefutáveis — como a afirmação: “Toda frase em Português contém seis palavras ou menos”. Qualquer secularista que usa a ciência para atacar as verdades bíblicas precisa admitir a verdade da cosmo-visão cristã para atacá-la, pois as leis da lógica exigem um supremo Lógico; o universo imaginário e aleatório do ateu não fornece nenhuma base para raciocínio concreto.

Estritamente falando, qualquer coisa que não possa ser medida e repetidamente demonstrada está fora do alcance da verdadeira ciência. Assim, a verdadeira ciência empírica está em conflito com a especulativa “ciência história” (porque seus dados não são passíveis de repetição) e com a subjetiva “ciência social” (porque seus dados não podem ser medidos objetivamente). “Ciência social” e “ciência histórica” são, portanto, oxímoros carregados de preconceitos e opiniões que não podem ser provados falsos. Para ser justo, se os preconceitos forem corretos e as observações forem precisas, as ciências históricas e sociais têm grande valor. Mas enquanto a ciência experimental busca descobrir a verdade, a pseudociência muitas vezes só tem interesse em promover uma agenda. A verdadeira ciência é uma ferramenta útil; a “falsamente chamada ciência” (veja I Tm 6:20) é uma religião sem deus.

Cristãos devem rejeitar a propaganda pseudo-científica que é baseada em filosofias ímpias e especulações humanas. Não podem, porém, descartar a verdadeira ciência. Os cristãos devem corajosamente defender a verdade em qualquer área da vida, pois Deus é Verdade (Rm 3:4; Jo 14:6; I Jo 5:6; Dn 10:21). Rejeitar uma falsidade que se apresenta como verdade é uma atitude piedosa; rejeitar a verdade é uma atitude ímpia. A distinção é importante porque a pseudo-ciência é perigosa — mortal, até. Fábulas pseudo-científicas como evolução materialística e gênero-fluído promovem o ateísmo num mundo que precisa do Evangelho. Mas há o outro lado da moeda. Cristãos podem estar defendendo ideias falsas, como a pseudo-ciência que condena os alimentos geneticamente modificados e que priva o mundo de muito alimento necessário, e a pseudo-ciência antivacinação, que multiplica o sofrimento e morte resultante de doenças que podem ser prevenidas.

Pesquisa médica é verdadeira ciência, e plenamente bíblica. A Queda trouxe doenças e mortes, e vidas vividas com medo de ambas (Rm 5:12; Hb 2:15). Mas o Deus que amaldiçoou a Terra (e com razão) é também misericordioso — Ele não tem prazer na morte do ímpio, e muitas vezes suaviza os efeitos da maldição restaurando a saúde e prolongando a vida (Ez 33:11; Sl 103:3). Quando Ele escolhe curar, Ele usa meios como oração e tratamento médico. A Palavra de Deus registra o uso de substâncias simples como azeite e vinho — remédios daquela época — trazendo cura (Lc 10:34; I Tm 5:23; Tg 5:14). O Senhor instruiu Isaías a aplicar uma pasta de figos à ferida de Ezequias (Is 38:21). De forma semelhante, os discípulos de Cristo “ungiam muitos enfermos com óleo, e os curavam” (Mc 6:13).

O Senhor Jesus apresentou-Se como Médico quando Ele citou o provérbio: “Médico, cura-te a ti mesmo”, e quando afirmou que “não necessitam de médico os que estão sãos, mas, sim, os que estão enfermos” (Lc 4:23; 5:31). Além disto, Lucas, o “médico amado”, apresenta o Salvador como o médico que “sarava os que necessitavam de cura” (Cl 4:14; Lc 9:11). O corpo de cada cristão pertence a Cristo, e é o templo do Espírito Santo (I Co 6:19-20). Como despenseiros de corpos que pertencem a Deus e devem glorificá-lO, devemos cuidar bem deles. Assim, oramos por saúde, e somos gratos por tratamento médico (III Jo 1:2).

Cristãos devem ver a ciência médica como parte da graça de Deus, e considerar a prevenção e o tratamento de doenças como um mandamento bíblico. Historicamente, cristãos cuidavam dos enfermos, enquanto pagãos geralmente os abandonavam. Cristãos aproximavam-se de vítimas de pragas e feridos de guerra, enquanto outros se afastavam. Cristãos tiveram a ideia do hospital, e enviaram missionários médicos a outros países para trazerem alívio físico como um contexto para a pregação do Evangelho. Esta tradição continua viva em muitas organizações modernas. E o surgimento da medicina científica mais recentemente permitiu fazer muito mais que cuidados básicos e de higiene. Então, quer chamemos de compaixão científica ou ciência compassiva, a pesquisa médica aplicada a vidas tem sido um auxílio para muita gente, e é bíblica.

Entre muitas maravilhas, pode ser argumentado que a vacinação salvou mais vidas e gerou mais bem-estar do que qualquer outra conquista da ciência. Assim, ser contra a vacinação é ser contra a ciência e prejudicar a saúde pública. Como qualquer pseudo-ciência, a posição antivacinação nasceu dos próprios erros epistemológicos contra os quais os Reformadores lutavam: disse-que-me-disse, intuição, apelo à autoridade, ignorância, sentimentalismo, preconceitos. Histórias de maus resultados de vacinação são emocionalmente impactantes, mas cientificamente sem fundamento — a não ser que possam ser provados por métodos científicos. No caso das vacinas da COVID-19, ciência coerente exige que cristãos aceitam a vacina, tanto para evitar serem contaminados pelo vírus quando para evitar transmitirem-no a outros.

10. Nota final

“Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros” (Ef 4:25) “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro … nisso pensai” (Fp 4:8).

Se você ainda está lendo, obrigado. Você pode facilmente confirmar os fatos mencionados neste artigo pesquisando na Internet, ou entrando em contato comigo em <davidvallance@sbcglobal.net>. Terei prazer em direcionar perguntas sinceras à fontes de informação confiáveis. Mas por favor entenda que não irei discutir com você. A pandemia da COVID-19 demonstrou claramente que a desinformação tem consequências imediatas, reais e de vida ou morte. A verdade importa.

Apêndice. Sobre a fabricação de vacinas RNA.

Os vírus, como outros organismos, armazenam suas informações em unidades microscópicas de informação hereditária chamadas genes. Cada gene contém o código de construção de uma única proteína. Alguns vírus, como o da herpes, armazenam suas informações genéticas no DNA, como humanos fazem. Para usar a informação codificada no gene DNA, o mecanismo celular primeiro transcreve a “cópia mestre” do DNA para uma cópia descartável chamada RNA, e depois traduz este RNA para formar uma proteína. Vírus como o SARS-CoV-2, porém, armazenam suas informações genéticas não no DNA, mas no RNA, e assim seus genes estão prontos para serem imediatamente transformados em proteínas no momento em que o vírus penetra na célula.

Tradicionalmente, vacinas têm sido feitas de partes de produtos virais ou bacterianos, ou de versões vivas, porém enfraquecidas, de patógenos. Recentemente, porém, cientistas têm explorado a possibilidade mais simples e mais segura de fazer vacinas de um pedaço do RNA do patógeno, deixando que o mecanismo celular humano faça a tradução e crie a proteína viral. Uma vacina da COVID-19 de RNA contem apenas uma pequena parte do genoma RNA do SARS-CoV-2, de tal forma que a injeção não pode causar COVID-19 (ou qualquer outra infecção). Uma vez que as células humanas produzem e espalham a proteína codificada no fragmento de RNA viral, o sistema imunológico aprende a reconhecer e combater esta proteína viral.

A ideia funcionou melhor do que o esperado. E o RNA é fácil de fazer e seguro para injetar. O sistema imunológico não reconhece RNA, portanto um fragmento de RNA injetado não irá disparar uma reação imune ou uma doença autoimune (apesar de que pessoas extremamente alérgicas podem ter reações a outros ingredientes da vacina). Além disto, a vacina RNA e as células humanas que a recebem não contem uma enzima capaz de transcrever o RNA de volta em DNA, portanto vacinas feitas de fragmentos de RNA não podem causar mutações ou câncer por interferirem aleatoriamente com o genoma DNA humano.

Uma vez que os cientistas conseguiram decifrar o código RNA para as cerca de quinze proteínas do SARS-CoV-2, desenvolvedores de vacinas concentraram-se no pequeno pedaço de RNA que coordena a criação dos peplômeros — as pequenas protuberâncias que permitem ao vírus fixar-se às células humanas e que deram origem ao nome “coronavírus” (no Latim, “corona” significa “coroa”). A estratégia foi, inicialmente conseguir código RNA sintético para a proteína, fazer com que o mecanismo celular lesse as instruções RNA e criasse peplômeros virais, e então apresentar estas proteínas estranhas ao sistema imunológico para serem atacadas. Se células T e anticorpos pudessem ser treinados a reconhecer e atacar estas proteínas de peplômeros, então quando o verdadeiro SARS-CoV-2 se apresentasse estas células e anticorpos imediatamente impediriam o vírus de entrar nas células, e destruiriam estes patógenos.

O truque tático era como fazer esta fragmento de RNA penetrar nas células humanas intacto. Diferentemente do DNA, o RNA é por natureza frágil, pois só precisa sobreviver por algumas horas dentro das células (isto explica a necessidade de temperaturas extremamente baixas para armazenar as vacinas). Enzimas rapidamente eliminam qualquer RNA perdido vagando fora das células. Imitando o uso que o vírus faz de uma cobertura de gordura, os cientistas envolveram seu RNA sintético em pequenas gotas de gordura. Estas partículas protegem o RNA por tempo suficiente após a injeção, permitindo sua fusão com células humanas e a entregas das proteínas de peplômeros. Assim que as células começam a gerar estas proteínas estranhas, o sistema imunológico envia células T e anticorpos contra elas, tornando a pessoa vacinada imune à COVID-19.

Autoria: David K Vallance
© 2021 W. J. Watterson

3 comments:

  1. A tradução foi uma grande contribuição. Obrigado!

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  2. Uma orientação importante de ação para os cristãos, agradeço.

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  3. Esse texto provavelmente irá mudar a decisão de muitos cristão que decidiram não tomar vacina. Muito bom!

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